segunda-feira, 1 de março de 2010

alfabetu

Começar pelos pés
de cima vistos
numa hierarquia sem tensão
de mim para eu para eles
sem alter egos nem pose
apenas o mesmo mar que o mar e que conhecem
quando pousa lento na asa do pássaro morto a sua espuma final

O verbo corre pelas nervuras dos dedos em sílabas salinas
De louco no campo aberto do corpo
As unhas silenciadas
quando tentamos olhar para outro corpo no próprio
O voo abortado

Só com truque
Tirar os pés da cartola coelhos
Uma fragmentação não do eu mas do corpo
Os pés horizonte e tu de cima como soba nas nuvens e olhando após os peitos
Vacas de culto sagradas

Mas os pés não lembram a engenheiros
Enfiados na organização das suas estruturas
A vida a horas
e dois mais dois não são cinco
Um pináculo no sustento precário de uma certeza
Mais a ideia de que a arte é intangível
Como fazê-la sem um pouco de areia que ajude
E o nível
A pá
O cimento
E a merenda em sequências e equações
Impressão de tinto digital

Pego no silêncio que está parado sobre o peito do pé esquerdo
E coloco-o sobre o peito do pé direito
Calo-me
Os ouvidos não têm a cera do hábito accionada
e o hálito deixou o corpo por um outro estatuto em cerimónia específica para vocábulos de exterioridade ostentada
Mas estão saturados do que soma nada a nada na paz que não mora

Bonança? Sombra no tempo de um baloiço de olhares embalado

Os pés
esquerdo direito a tropa
e não são os dias esquerdos raros tão diversos
êxtase no nome soletrado a lábios suspenso do trapézio da fala
e derramando letras de sabor a ela uma
e o tempo emaranhado de algas em parágrafos e maresia partilhada
Nunca o mesmo e no segundo seguinte
Um rumor de folha na brisa de uma fresta aberta no horizonte
O que não é metafísica mas pode ser uma pneumonia

Pneumonia a palavra seduz como deixar correr o marfim
Deixar correr o marfim tem uma luz de sangue

Um bando de vogais chilreando faz ninho entre os meus pés que se encontram estranhamente irmanados como menires indisciplinados no espaço
Ninguém faz ideia do que possa suceder
Mas não há jornalistas por perto
Nem há qualquer tentativa de performance e de durar no tempo essa impossibilidade de o pássaro quebrar a casca num directo original

Criar pardais entre os polegares
É circo
Já com as vogais é diferente
Como é diferente atar latas aos peixes nas caudas como a gatos

Desenho umas letras como fogo acenando para longe
Esboroam-se cadentes no espelho fugaz da imagem tempo

Faço oscilar o eco de que disponho à mão
Sons ecoados com perícia subjectiva
Fazem um teatro de sombras nos olhos dos ouvidos

Na viagem foram-se os pés
Nas mãos veios nas palmas alinham a vida por um fuso mais prescrito
Ervas deitadas sem pai nem deus nem chefe
Caiem caroços sobre o papel que explode à vista
Florações incandescentes nos interstícios que o ecrã possa arborizar
Mas a pele de onde vem sem que venhas
Alfabeto o corpo teu no rosto comum

f.arom

1 comentário:

Teresa disse...

Alfabetu causou-me uma estranheza inicial, mas posteriores leituras dissiparam-na e percepcionei o(s) seu(s) sentido(s).

Teresa P. Fernandes