terça-feira, 16 de março de 2010

Kleist, a propósito do que por aqui se anda escrevendo

«Certas pessoas imaginam numa estranha ordem as épocas nas quais progride a formação de uma nação. Imaginam que no início um povo jaz por terra na crueza e na selvajaria animais ; que é preciso, após um certo tempo, que se faça sentir a necessidade de uma melhoria dos costumes, e assim também da edificação da ciência da virtude ; que, afim de facilitar o acesso ao ensino desta última, se pensaria em objectivá-la em belos exemplos, inventando assim a estética: que daí em diante, de acordo com as suas normas, surgiriam belas objectivações, e que desse modo a própria arte se apoderaria da sua origem: e que, por meio da arte, o povo ver-se-ia por fim conduzido ao estado mais elevado da cultura humana. A esses indivíduos, é preciso que alguém os informe de que tudo, pelo menos no caso dos Gregos e dos Romanos, sucedeu na ordem precisamente inversa. Estes povos conceberam o princípio com a época heróica, sem dúvida a mais elevada a poder ser atingida; quando já não dispunham de heróis em nenhuma virtude humana e civil, poetizaram alguns; quando já não lhes era possível poetizá-los, inventaram para isso as regras; quando se perderam nas regras, abstraíram o próprio saber universal; e quando terminaram, tornaram-se maus.»

Heinrich Von Kleist, num texto publicado em Outubro de 1810 nos Berliner Abendblätter

2 comentários:

Táxi Pluvioso disse...

Concertos downloadáveis, para os que gostam de música.

Fernando Mora Ramos disse...

A propósito de Kleist na extraordinária peça "Bilha quebrada" texto em que a propósito de um acto a ser julgado num tribunal de província - trata-se de um juiz a intervir, o juiz Adão - se pergunta: "o senhor quer que se julgue segundo os preceitos legais ou como é costume cá em casa?"
Belo espectáculo feito em Évora, nos idos de oitenta e já engolido pelo fundo negro da memória.