domingo, 7 de março de 2010

Da Capital do Império

Com a Europa irritada com a recusa de Barack Obama em participar na cimeira anual EU/EUA dando preferência a uma deslocação à Ásia, importa dizer que aqui em Washington o impensável começa a ser mencionado: desligar os Estados Unidos da NATO.
Não que isto seja moeda corrente ou que vá acontecer já no próximo ano, mas o facto de essa possibilidade ser agora mencionada por analistas credíveis e de passado militar reflecte um crescente mal-estar, senão mesmo irritação de Washington com a falta de vontade dos países europeus de assumirem na generalidade maiores gastos com a defesa e em particular um maior papel na guerra no Afeganistão.
“Os dirigentes da Europa precisam de dizer a si próprios – e aos seus eleitores – a verdade. A guerra no Afeganistão não envolve apenas a segurança da América. É também uma questão de negar santuários à Al Qaeda que também já levou a cabo ataques mortíferos na Europa”, em editorial do Washington Post no passado dia 25 de Fevereiro.
Deste lado do Atlântico reconhece-se agora que a “desmilitarização” ou “pacificação” da Europa é uma realidade que para alguns vai inevitavelmente resultar na “finlandização” da Europa., uma entidade que em palavras se assume como parte da Aliança Atlântica mas que na prática e por diversas razões é incapaz de assumir posições que a possam levar a assumir riscos e gastos militares.
“A desmilitarização da Europa – com grandes sectores do público em geral e da classe política contrários ao conceito de força militar e aos riscos que isso inclui -- transformou-se de uma bênção no século 20 para um impedimento em se alcançar uma segurança real e uma paz duradoira no século XXI,” disse no final do mês passado aqui em Washington o Secretário de Defesa Robert Gates.
Gates – um homem que continua a acreditar no futuro da NATO -- fez notar que muitos dos países da NATO não estão dispostos a cumprir os seus deveres quanto à aquisição de aviões de transporte, de reabastecimento, helicópteros e mesmo na aquisição de “intelligence”.
A NATO, disse ele, tem que fundamentalmente mudar o meio como “estabelece as suas prioridades e o uso de recursos” para poder continuar “relevante” numa nova situação estratégica.
“A NATO precisa de reformas imediatas, sérias, de grande alcance para fazer face uma crise que é um produto de vários anos,” acrescentou.
Mas Andrew Bacevich, um antigo oficial de alta patente do exército Americano, e actual professor universitário em Boston disse já este mês de Março que na sua opinião “a pacificação da Europa deverá provar ser irreversível”, algo que contudo ele vê como “uma oportunidade extraordinária”.
Para Bacevich os Estados Unidos querem transformar a NATO num “instrumento de projecção de poder” e o Afeganistão é o “indicador mais importante” das tentativas de Washington de transformar a NATO.
O analista militar considera que a expansão da NATO criou uma falta de coesão agravada pelo facto de apenas quatro países europeus respeitarem o acordo de gastarem pelo menos dois por cento dos PIB em gastos militares. O comandante geral da NATO, disse ele, “tem agora tanta importância como o presidente de uma universidade de tamanho decente”.
Para Bacevich a NATO só poderá ter um futuro se voltar às suas origens, nomeadamente “garantir a segurança das democracias europeias”.
Para isso “os Estados Unidos devem atrever-se a fazer o impensável: permitir à Nato voltar a ser uma organização europeia dirigida por europeus para servir interesses europeus, garantir a segurança e bem-estar de uma Europa unida e livre”.
O problema com esta análise, dizem outros especialistas, é que países europeus como a Polónia, Republica Checa e Lituânia não têm qualquer confiança na França e Alemanha como garantes das suas liberdades preferindo garantir a sua segurança numa NATO ancorada nos EUA e na Grã-Bretanha.
Lembram esses analistas que aquando a guerra nos Balcãs (Bósnia e Kosovo) houve quem em Bruxelas tivesse declarado que isso era “um problema europeu a ser resolvido pelos europeus”. Acabou por ser a força aerea dos Estados Unidos que levou Slobodan Milosvic à rendição face à incapacidade militar dos países europeus de lidarem com a situação de modo efectivo.
A NATO está actualmente a elaborar um novo Conceito Estratégico para definir o seu futuro, mas aqui todos se recordam que aquando do 50 aniversário da NATO isso foi também discutido em grande detalhe
Caso o novo Conceito Estratégico não aprove mudanças operacionais e institucionais concretas não vai valer o preço do papel onde fôr escrito. Quem o diz não sou eu. É Robert Gates.

Da Capital do Império,

Jota Esse Erre

2 comentários:

Anónimo disse...

estas coisas vistas assim parecem-me um bocado esquemáticas demais, ou enganarme-ei?

Armando Rocheteau disse...

Penso que é enganar-me-ei. Mas estou habituado a comentários anónimos esquemáticos.