sexta-feira, 12 de março de 2010

anaCrónicas 7

Um conhecido meu, dirigente do PS – conheci-o, boémio e marxista, nas tascas de Roma – contava-me aqui há uns anos que, no seu partido, os votos se compravam. E de duas maneiras: uma, era essa forma conhecida de pagar as quotas de militantes passivos, verdadeiramente não praticantes, ressuscitados para efeito votante em cada acto a preço de saldo votando no que fosse sinalizado pelos mandantes, a outra, complementar, era a de vender o próprio lugar na lista – ou melhor, comprar – dando-me como exemplo, se bem me lembro, os oito mil contos (na moeda antiga é mais nítido) que teria custado um lugar europeu. Não sei se era ficção, se era luta interna, se era um golpe baixo – creio que no interior dos partidos a Técnica política dos golpes baixos é mesmo única – ou se era mesmo verdade. O que é facto é que me disse isto e que me referiu que a coisa se passava lá numa terrinha longínqua, na serra. O que é facto é que os partidos, esse primeiro alicerce das democracias, são realidades opacas, escondidas, não escrutináveis e que dentro deles se passam coisas inomináveis e permanentemente escondidas, financeira e humanamente inadmissíveis – aliás os partidos são definidos por Umberto Cerroni, no seu magnífico livro, Teoria do partido Político, como partidos de interesses, partidos empresa, tendo desaparecido, corpo em agonia lenta, o partido de ideais.
Aquilo que deveria ser objectiva e publicamente observável como uma prática da transparência, por exemplo os processos eleitorais internos (já que são candidatos ao poder governativo, geral e são subvencionados por dinheiros públicos) não é senão um jogo escondido entre grupos de poder à procura da conquista desse primeiro poder, a caminho da conquista do poder político governativo e na sua sequência, do conjunto dos poderes. Ninguém duvida que é nos grupos partidários, muitos deles bem colocados nas grandes empresas e no sistema bancário, numa sequência organizativa transversal, que todas as trocas e baldrocas se combinam e conspiram, como ninguém duvida que são grupos, partidários e interpartidários, que dispõem do stock público de cargos apetecíveis como moeda de troca para todo o tipo de jogos de poder e benesses.
Nunca isso foi tão claro, como nunca foi tão clara a impotência das diversas justiças, dos tribunais às polícias de investigação, para repor a democracia nas suas verdadeiras regras de verdade e equilíbrio, que, mesmo nunca sendo uma realidade finalizada – a utopia democrática como perfeição igualitária e pureza transparente -, será tendencialmente uma realidade mais democrática numas conjunturas do que noutras – temos hoje saudades das chamadas social-democracias, reais certamente, por estranho que pareça. O que tem que se sentir é que prevalece a democracia no sistema e não o contrário, a corrupção e o abuso de poder como regra.
A chegada de Hitler ao poder relativizou, para sempre, o sistema do voto em democracia. Também – também, reparem - pelo voto, foi o caso, se caminhou para o campo de concentração e de extermínio. A questão do voto não está só em quem se vota, como sabemos hábil na arte do disfarce (Mussolini foi socialista), mas também no condicionamento ideológico do votante, e as ideologias são amálgamas incontroláveis, preconceito arreigado e estruturado sob a forma de potencial violência sectária e burocrática, de uniformidade de olhares, de prática social monstruosa tida como normal.
Se a justiça funcionasse a classe política seria outra, a virtude premiada e o mérito um bem reconhecido. Em Itália temos o exemplo caricatural, brutal no traço grosso, do que cá sucede. É falso que vivamos em democracia, vivemos num simulacro de democracia, numa amputação particularmente grave nesta conjuntura, porque na realidade as liberdades, culturalmente expressas numa espiritualidade difusa e laica, reguladora e vigilante qualificadamente como pressão de uma maioria esclarecida, não são poderes inscritos numa sociedade cada vez mais fechada a transformações que não conduzam ao mesmo e que, sob o paleio da igualdade de oportunidades, vem construindo o fosso, a discrepância, uma nova sociedade: a dos condomínios versus favelas, a das massas fast-fúdicas e absolutamente expostas na sua vida nua versus elites intocáveis e sempre protegidas pelos seguranças privados.
Na Índia chamam intocáveis aqueles que no fundo da escala não têm sequer direito a estar num mesmo espaço com outros, nem sequer a olhá-los e qualquer um que não seja intocável pode agredir um intocável. Por cá os Intocáveis vivem nas quintas das Marinhas, frequentam colégios privados de renda impossível para os demais e na altura devida são empregados nos grandes bancos em que os papás são grandes accionistas e administradores. E não importa que tenham subido a pulso ou que já lá estivessem – o mérito, nem a ética, são qualidades intrínsecas do chamado sucesso -, importa que servem, num caso e noutro, a regra da perpetuação do abismo fracturante.

Fernando Mora Ramos

4 comentários:

AZUL DRAGÃO disse...

Excelente !

Táxi Pluvioso disse...

Claro que os partidos são agremiações de pessoas para defenderem os seus interesses, se ganham vida própria e defendem os "seus" interesses, pouco importa. Se alguém quiser poder que se inscreva num partido. O Portas fez, todos podem fazê-lo.

O voto sim, devia ser pago, se tudo o mais, o é, até o... ai, ai... o amor.

Anónimo disse...

Em “Um Mundo Sem Regras” Amin Maloouf dá uma definição ampla de legitimidade: “é o que permite aos povos e aos indivíduos aceitarem sem um excessivo constrangimento a autoridade de uma instituição personificada por homens e considerada como portadora de valores partilhados. Escreve que “certas legitimidades são mais estáveis do que outras” e que “a legitimidade só aparentemente é imutável; quer seja a de um homem, a de uma dinastia, a de uma revolução ou a de um movimento nacional, chega um momento em que ela deixa de actuar.”

Escreve ainda “Poderíamos contar a história de todas as sociedades humanas ao ritmo das crises de legitimidade. Após uma transformação, emerge uma outra legitimidade que substitui aquela que acabou de ruir. É então que um poder substitui outro e que uma nova legitimidade substitui aquela que tinha sido desconsiderada. Para que o mundo funcione de maneira relativamente harmoniosa, sem grandes perturbações, a maioria dos povos deveria ter à sua frente dirigentes legítimos; os quais seriam «controlados», porque isso é necessário, por uma autoridade mundial aceite como legítima.

Evidentemente, não é isso que acontece nos nossos dias. É quase o inverso: muitos dos nossos contemporâneos vivem em Estados cujos governos não são nem os vencedores de um escrutínio honesto, nem herdeiros de uma dinastia respeitada, nem os continuadores de uma revolução conseguida, nem os artesãos de um milagre económico, e não dispõem, por isso mesmo, de nenhuma legitimidade; e sob a tutela de uma potência global à qual as populações também não reconhecem nenhuma legitimidade.”

Fernando Mora Ramos disse...

Magnífica clarividência. Muito agradecido pela possibilidade desta prosa aqui se ler.