sábado, 6 de março de 2010

anaCrónicas 2

Os pais desavindos com a primeira palavra a ensinar depois do leite militante entraram em ciclotimia de afectos. Quase nem se falavam. Ela queria mamã talvez – segundo uma fonte mais ou menos credível – e ele queria papá – segundo outra fonte mais ou menos credível. Tudo um pouco primário mas perfazendo o pleno das emoções, essa sensação de estar vivo, equivalente, pela negativa, à do bandulho cheio, essa sensação de ser jibóia. Recorreram portanto ao tribunal familiar. Mas tudo ficou sem saída, já que as partes se dividiam por fronteiras sanguíneas e por afectos politicamente correctos, resultando tudo numa igualdade de braços no ar – a família era da esquerda arcaica, enraizada em terra de sequeiro lá para os lados onde o horizonte não é coxo. De regresso ao lar e para não lhes acontecer o mesmo que aos outros que se esqueceram de alimentar o bebé, que morreu, enquanto jogavam online o jogo da filha virtual a tempo inteiro, resolveram dar o biberão à criança, o que o pai fez pois era a sua vez, sendo que ela tinha optado pela fralda que viesse. E a vida continuou desavinda, amuos, olhares carregados, dores de cabeça, náuseas inexplicadas e mesmo longas desistências mergulhadas na banheira em osmose de amores com a água quente pelas bordas do topo.
Andaram assim meses até que no mesmo sonho – era um casal muito unido no sono e com a crise, que a todos vem tocando, sonhavam mais barato sonhando o mesmo sonho – uma voz silenciosa, subliminar lhes derramou para o ouvido interno a palavra do desejado consenso: e porque não ensinar à criança a palavra défice? E os dias rosa do leite mamado em directo voltaram.

FMR

2 comentários:

Fernando Mora Ramos disse...

Errata: onde se lê na linha 12 "para não acontecer aos outros" deve ler-se "para não lhes acontecer o mesmo que aos outros".
FMR

Armando Rocheteau disse...

Já fiz a correcção.
Agradeço-te a atenção