sexta-feira, 5 de março de 2010

anaCrónicas 1

A propósito de touros, e bravos, veio-me à mona o bode do Mário Henrique Leiria. No conto do Leiria o bode é uma máquina devoradora de papel selado, requerimentos, dossiês, peixes de prata – lindo nome para iguaria (eles comem-no, os bárbaros, como as baratas) tão reles – lombadas amarelecidas de nostalgia cultivada, livros angustiados à espera do toque dos dedos que os folheiem, silêncios ocos sob a caliça que se desprende de paredes esquecidas do viço da cal virgem e outros elementos característicos dos paraísos esverdeados da burocracia. O bode foi aliás condecorado por serviços relevantes prestados à pátria. Eis que agora o touro bravo saiu, sob a forma de candidato a cadáver – esperam-no as bandarilhas e os bandarilheiros sob o olhar ávido dos vampiros consumidores encartados de pão e circo –, no Diário da República, como motivo protagonista de constituição de uma secção especializada do Conselho Nacional de Cultura, organismo tirado da cartola da sua letargia antiga de nobilitados membros do pedestal da República. É a pura da verdade: a República dispõe, a partir desta publicação em Diário da República, de uma secção cultural especializada em tauromaquia, com um elenco de fazer inveja à maior peça de Shakespeare, em número que não em diversidade humana caracterial, claro. Quando mais evoluímos mais nos enredamos no fado de uma suposta identidade moldada em atavismos e arcaísmos. E para mais espanto, tal decisão, foi tomada pela pianista Ministra que, ao que parece, se tornou aficionada lá para os Açores aquando de um Congresso, certamente mundial, de touros. Nada me move contra os touros, como não sou contra o bitoque, as guerras serão outras, mais complexas e a maior parte delas nem sequer escolhidas.
É claro que tudo isto integra a sociedade do espectáculo e que quem se mede na política diariamente, calculando a sua temperatura de popularidade, está sempre em condição de definição do seu estado estatístico, o que significa estatuto, sempre instável por certo naquilo que aproxima o Ministro do Primeiro-Ministro. Será isto a política hoje?
A mim só me choca ver o touro ribatejano no Diário da República misturado com a fila de licenciados a empoleirar-se no que der e vier. É que merecia mais a companhia dos chaparros, o ar livre do montado e o amargo doce da bolota, tal como ao javali agrada. Nada contra os licenciados, entenda-se, mais que proletários no país centro comercializado, e tudo pela liberdade.

FMR

1 comentário:

Anónimo disse...

Que tempos anacrónicos (estranhos) estamos (vi)vendo!