terça-feira, 1 de abril de 2008

Em fôlego de rio

Levava-a todo o dia ao rio depois de descida a faladora ponte, areava-a pois na paisagem com areias, sempre punha esforços no hábito de compreender os fundos, revirava-a de lado em sucessivas voltas, esfregava-lhe o que liga a base ao circular e amolgado encosto para as duas asas, que sobre o carvão sempre a aqueceram demais nas vontades das mãos, percorria-lhe teimosamente o redondo dos esbatidos parafusos com aqueles dedos que perseguem a fugitiva doença no momento da cirurgia, recuspia-lhe nos grãos em arranjos de começar de novo o saber dos escondidos brilhos, roçava-lhe nova areia uma e outra vez numa paixão de seres que sempre se querem afundar só para estarem de verdade, já tarde em sol depois das tensas lambidelas da terra sacudia-a, como fazia aos seus panos após estar ali sentada de pernas abertas com a panela no meio, como um filho protegido dos ventos da vida nas ternuras de mãe, sem que a emprestasse muito tempo a outras mãos, não fosse esse alguém começar-lhe a descuidar as quantas coisas que estranhamente, existem num vazio. A mente dela era uma panela. O coração também talvez.

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