segunda-feira, 28 de abril de 2008

Da Capital do Império

Olá!

Eu não sei se a malta na África Austral já se apercebeu mas o Robert Mugabe arruinou totalmente o pouco da boa reputação que alguns de países tinham conseguido nos últimos tempos reconstruir por estas e outras bandas.
Lembram-se do mecanismo de verificação de pares, Peer Control Mechanism? Um sistema de crítica dos países africanos aos que não se comportassem bem, parte da tão propagada “renascença africana’’ gritada aos quatro ventos pelo Thabo Mbeki. Nos últimos tempos não se fala muito desse tal mecanismo. O Mugabe deve ter escangalhado o mecanismo como escangalhou o país e agora acaba de escangalhar a reputação que alguns dos países da região tinham conseguido fortalecer.
Tenho a dizer vos que após a última cimeira da SADC e das bacoradas do Mbeki afirmando que “não há crise” e que há “sinais de esperança”, sente-se o gelo, espanto e total incompreensão nos corredores de instituições internacionais. Outro dia um diplomata que conhece bem essas zonas dizia me em tom exasperado que a reacção dos países vizinhos ao Zimbabué faz com que ele volte a acreditar agora que “as coisas em África vão ter que piorar antes de … piorar”.
Não é bom sinal mas não é de admirar. Ao fim e ao cabo o Bob Muggers conseguiu fazer ao Zimbabué o que quase 15 anos de sanções da ONU, aplicadas internacionalmente, nunca conseguiram fazer à Rodésia do Ian “tabaqueiro” Smith: arruinar o país. Para quem consegue fazer isso, arruinar a reputação dos outros é coisa fácil.
Eu sei que a resposta do Thabo e do Guebuza é que mais se faz pela calada do que com declarações públicas. Talvez. Mas nem sempre. Mas mesmo que assim seja, pela calada pode-se fazer por exemplo aquilo que os sul-africanos fizeram ao “tabaqueiro” para o forçar a ir a Lancaster House negociar a rendição. Dar ordens aos chefes de estação de caminhos de ferro na fronteira e aos chefes das alfandegas para serem meticulosos na sua procura de contrabando na mercadoria que entra e sai do pais, dar ordens ao pessoal das embaixadas para ser meticuloso (leia-se muito lento) na concessão de vistos aos membros do governo, vistoriar com grande atraso pedidos de transferência de fundos, abertura de contas bancárias etc. etc. Ou fazer o que a Frelimo fez pela calada ao Bob Muggers para o forçar a aceitar os compromissos da rendição de Lancaster House. Ou aceitas ou vai haver problemas em manter bases em Moçambique, receber armas etc. Como se diz na gíria militar “once you get them by the balls their hearts and minds follow”.
O que é talvez preocupante, senão assustador é que a inoperância dos países vizinhos em condenarem o regime racista e ditatorial no Zimbabué é reflexo daquela visão antiquada que os movimentos de libertação têm o direito ao poder e que o seus lideres são criaturas moralmente singulares cuja sinceridade nacionalista legitima automaticamente todas as suas acções. Isso claro está resulta em que muitos dos dirigentes dos países vizinhos do Zimbabué, particularmente aqueles que são dirigentes de movimentos de libertação, continuem a olhar para a oposição como algo que tem que ser tolerado mas nunca levado a sério e em certos casos mesmo considerados como não sendo representantes de qualquer interesse nacional mas apenas produto de uma conspiração externa e/ou tribal, e/ou “reaccionária”. Pergunte –se: quantas vezes é que o chefe da diplomacia moçambicana, por exemplo, se reuniu com o líder da oposição do Zimbabué para escutar a sua opinião sobre as “insuficiências” do Mugabe e dos seus capangas?
Outro dia houve uma reunião do Conselho de Segurança da ONU para discutir questões africanas. O Thabo Mbeki lá foi mas disse antes que o Zimbabué não iria ser abordado porque isso é um assunto interno de Africa que a SADC está a tentar resolver. Depois fez o seu discurso em que pediu ajuda à ONU e ao mundo para resolver crises na Somália e Darfur. As minhas gargalhadas espantaram alguns no local onde me encontrava a ouvir as palavras do Thabo mas tenho a dizer-vos que infelizmente os outros membros do conselho de segurança não se riram. O que é triste
Quando Moçambique, Angola e os países da SADC não conseguem emitir uma declaração condenando ou mesmo manifestando preocupação por um regime que:1) destruiu a agricultura do pais; 2 ) levou a manufactura ao colapso; 3) levou a produção mineira ao seu nível mais baixo desde 1907; 4) Destruiu 90 por cento da indústria do turismo; 5) Produziu uma economia em que quase já não há zeros suficientes para reflectir a inflação; 6) conseguiu colocar 80 por cento da população a viver abaixo do nível de pobreza; 7) levou a expectativa a de vida no pais a cair para 37 anos entre os homens e 34 entre as mulheres;8 ) destruiu o sistema de saúde do pais e 9) levou milhões a fugirem para os países vizinhos,
então há mais do que razão para que por estas e outras bandas se interroguem sobre a genuinidade do compromisso de certos governos com princípios democráticos.
Ao se recusarem a condenar em termos inequívocos o Bob Muggers, Mbeki, Guebuza e outros não só prolongam a agonia do Zimbabué mas causam enormes danos a toda a Africa Austral. Triste.

Abraços
Da Capital do Império

Jota Esse Erre

4 comentários:

Anónimo disse...

Será que as " formiguinhas " chinesas andam a corromper também a classe política sul-africana? O mundo dá cada volta...Bom artigo, JSR! Salut! FAR

Ana Cristina Leonardo disse...

belíssimo texto, claro!

MF disse...

Curioso é que se condene a todas as penas do Inferno o Mugabe e o seu regime usando palavras como :
regime racista e ditatorial, Mugabe e dos seus capangas , as bacoradas do Mbeki, etc.
É absolutamente lamentável este arrasoado neo-colonial contra, não só o regime do Zimbabué, como contra todos os outos da região.
Até se dá ao descaramento de lavar a imagem do Ian Smith !
Um pouco de vergonha não ficaria nada mal!
O Zimbabué é vítima e não culpado. Vítima do neo-colonialismo inglês e das suas centrais de desinformação. Há anos que todos os dias fazem campanha contra o Mugabe e a Zanu apenas porque se atreveram a mandar embora os colonos britânicos. Simplesmemnte.
E a entregar as terras aos naturais do país! Depois, claro vieram os embargos, os truques por debaixo da mesa, as chantagens, etc, etc.
Claro que em quase toda a África descolonizada a devolução das terras foi prática corrente e não me lembro desta campanha mundial contra outros regimes africanos. Nomeadamente contra os colonos portugueses...
Mas, contra colonos ingleses, isso não! Eles são seres superiores a quem a África e o mundo muito devem! e apopulação do Zimbabué deveria estar-lhes grata pela ocupação das terras e pelos regimes racistas que patrocinaram no passado...
Claro, são pretos, pobres e ingratos !
Mas, o que de facto os neo-colonialistas temem, é que na África do Sul, um dia, a população exigisse a devolução das terras aráveis aos negros e que os ocupantes brancos partissem de vez. De facto não se compreende como é que passados tantos anos sobre a queda do mais odioso e repressivo dos regimes, o apartheid, ainda a população negra não tenha exigido isso e continue a viver na mais terrível miséria em guetos e em regiões não produtivas. Sei, a proletarização das polpulações não é um convite para jantar; Numca foi ! Mas convém ir disfarçando, não vá um dia os descamisados perderem a paciência !
Também sei que este não é o comentário mais main-stream. Mas é o que se pode arranjar !
Sorry!
MFerrer
http://homem-ao-mar.blogspot.com

Anónimo disse...

O MFerrer tem toda a razão. Os regimes corruptos africanos só lá estão porque os EUA assim pretendem. Não esquecer que o Mugabe foi posto no poleiro pelo Samora Machel, e, como este, gozou sempre de um certo estatuto de excepção (favorável) por parte dos EUA, que os consideravam pro-chineses. Isto é, pelo menos não eram pro-soviéticos. Era essa a lógica que então vigorava. Como o mundo mudou em 28 anos! O que não mudou foi a natureza pérfida do imerialismo. (Gostaram desta?) O Ocidente só passou a odiar o Mugabe quando ele invadiu as fazendas dos britânicos, diria a "presse pourrie". Na verdade, foi quando a China deixou de ser o gigante latente e passou a representar em África um papel muito mais activo que a Rússia. Isto é, quando o imperialsmo chinês passou a ser concorrente do ocidental. Só nessa altura é que o nazistóide Mugabe passou de bestial a besta, na cavalar interpretação do Tony Blair.
José Pinto de Sá