quinta-feira, 3 de abril de 2008

Campos de reeducação: O silêncio cúmplice de Cavaco Silva

De visita a Moçambique, Cavaco Silva perdeu uma excelente oportunidade de servir para alguma coisa. Além de descomprometido com a “esquerda”, tinha ainda a vantagem de ter pela frente a pessoa certa para tratar de um assunto que há décadas ensombra a história conjunta de Moçambique e de Portugal, a tal história do “cheiro a terra molhada e a temperos exóticos” (traduza-se: cheiro a cadáver e a trampa em geral). O dito assunto (os campos de reeducação, lembram-se?) é um dossier que continua por fechar. Aliás, continua por abrir. Cavaco podia tê-lo feito agora, é só lhe ficava bem. Teria dado uma excelente lição aos seus predecessores de esquerda. Mas não. Faltaram-lhe tomates, ou interesse, ou vontade política. Sucede que houve Operação Produção. Sucede que milhares de moçambicanos foram detidos e degredados sem qualquer julgamento. Sucede que na onda foram também muitos portugueses, e que, até hoje, nunca houve um sinal de arrependimento, um pedido de desculpas, ou uma reabilitação pública, já para não falar de indemnizações mais que justificadas. Armando Guebuza, actualmente Presidente da República de Moçambique, era na altura ministro do Interior, e foi o mentor do cambódjico processo, responsável directo por milhares de detenções sem culpa formada, e, pelo menos, centenas de mortes. Quer dizer: a pessoa certa para reabrir os arquivos, e informar de uma vez por todas quantos portugueses foram na leva, quais os seus nomes, qual o destino que tiveram, e, na pior das hipóteses, onde param os seus ossos. É chato, é macabro, mas há famílias e amigos que gostariam de ver este assunto arrumado. Pela minha parte, exijo a reabilitação da memória do anti-fascista e anti-colonialista português Virgílio David da Silva Faustino, meu grande amigo e companheiro de exílio, detido e deportado sem culpa formada. Sem culpa nenhuma, aliás. Cavaco optou pelo silêncio, e quem cala consente. É pena. Os moçambicanos, afinal as principais vítimas do monstruoso “processo reeducativo”, apreciariam por certo outra atitude do PR português, já que há muito aguardam em vão pela reabilitação dos seus “reeducandos”. Guebuza tem as mãos manchadas de sangue. Nada de estranho num dirigente africano, daqueles que o Ocidente patrocina e sustenta no poleiro. Só que, neste caso, também há sangue português, e Cavaco, se pretendia ser de facto o presidente de todos os portugueses, tinha obrigação de não se calar. Mas calou-se. Se existe de facto algo em comum entre Portugal e Moçambique não é o Eusébio nem o seu marisco favorito. Se existe um passado comum, é esse, o da tirania. E se existe um futuro comum, passa pela liquidação efectiva de heranças como a Operação Produção. O resto é demagogia, paternalismo e cobardia perante a História. O resto é merda, em resumo.

José Pinto de Sá

11 comentários:

Anónimo disse...

Excelente! FAR

Anónimo disse...

Quem sabe... sabe!
Muito bom, José!
Abraço. JF.

gotaelbr disse...

Transcrito no ForEver PEMBA.
Abraço.

Carlos disse...

Excelente.

Quando o jornalista perguntou a Cavaco se Portugal pediria desculpas pelos anos de colonização, era a altura certa para perguntar se esse jornalista sabia o que queria dizer 20/24 !

Portugal deixou as antigas colónias nas mãos de ditadores a quem continuou a dar apoio. Dos Santos, Guebuza, Nino Vieira, Cumba Yála, etc etc, todos tratados como grandes democratas.

Antero Ferreira disse...

Bom dia. Por intermédio do JSoares, li este v/comentário, e como tenho um blog sobre Moçambique:
http://anteromanuel.blogs.simplesnet.pt/
meti lá este excelente comentário, com referência a quem o escreveu e qual o blog. Espero que não se importem.
Obrigado.

Anónimo disse...

É verdade. A única maneira de se ter evitado a história dos últimos 34 anos era não ter dado a independência às colónias. Deviamos ter esperado que houvesse verdadeiros democratas, tanto lá como cá. É que assim, a esta hora ainda lá viviamos.

Anónimo disse...

Viva a Polana e o Sommerchield.

Armando Rocheteau disse...

Agradeço os comentários ao texto. É uma sentida homenagem ao Faustino e descreve, como só o José sabe fazer, acontecimentos de uma história trágica. Mais agradeço os links feitos.
Atrever-me-ei, proximamente, a relatar uma das noites da operação produção. Aquela em que eu, o Tozé Costa Afonso, a Tina, o Zé Manel Coelho e o Faustino, fomos detidos.
A Polana e o Sommerchild eram um antro de palermas reaccionários. E depois? Também os havia por toda a cidade. Nenhum dos aqui citados vivia, na altura, na Sommerchild. Na Polana vivia eu e o Zé Manel. "Gosto muito" dos anónimos das lagoas.

Anónimo disse...

Caro Anónimo das 8:37 (e já agora das 8:40): Criticar o Terror não é necessariamente ser contra a Revolução Francesa. Pelo contrário, são os "Terrores" que traem sempre as "Revoluções". Deploro os crimes cometidos em nome da liberdade, mas não sugiro em momento nenhum que se teriam evitado se Portugal não desse a independência a Moçambique. Pela simples razão de que não foi Portugal que "deu a independência", foi a Frelimo que a conquistou, em dez anos de luta armada de libertação nacional.
José Pinto de Sá

Anónimo disse...

José Pinto de Sá ao poder, já! FAR

sierraalfa disse...

Quem deu a independência a Moçambique não foi a frelimo foi o partido comunista português e marcello caetano
Para tal reveja-se a direcção imprimida pelos seus peões ao movimento corporativo dos ingénuos capitães e a ordem dada por marcello caetano às forças leais ao regime para nada fazerem contra os recrutas que empunhavam armas. Os Portugueses e os Moçambicanos foram enganados e até quando?