segunda-feira, 12 de dezembro de 2005

A Inocência das Idades (2)

A Associação Académica e a FNI

Nesta época do Jornal “Progresso” existia já uma incipiente actividade política centrada na Associação Académica de Moçambique e na chamada Frente Nacional Integracionista (FNI), desenvolvida por estudantes universitários.
O grupo da Associação Académica de Moçambique era liderado pelo Ivo Garrido, na altura Presidente da A.A.M. e hoje médico e Ministro da Saúde do governo moçambicano, e conotado com o que na altura se chamava “os do contra”.
Através do SIPE, Serviço de Informação e Propaganda Estatística, a Associação Académica editava documentos políticos poli copiados na velha “Stencil” e que eram ou distribuídos gratuitamente ou comprados, como foi por exemplo o caso do “Processo Histórico” de Juan Clemente Zamora, editado semanalmente em fascículos clandestinos.
A “FNI” era um grupo de Direita ou mesmo de Extrema-Direita, alinhado com o Governador-geral da Província e, nomeadamente, com o general Kaulza de Arriaga, Chefe de estado-maior na Província de Moçambique e que coordenava toda a acção política e militar na guerra contra os então chamados terroristas da Frelimo.
A “FNI” era liderada pelo Gonçalo Mesquitela, já falecido, e que era filho do Dr. Mesquitela, deputado de Salazar e Caetano e com assento, por nomeação, na “União Nacional” e, mais tarde, na “Assembleia Nacional Popular”, ambos Partidos Políticos únicos, uma vez que se vivia em Ditadura.


Com excepção do “Nampula” que era Comandante de Bandeira da Mocidade Portuguesa, todos os outros membros do grupo fundador do Jornal “Progresso” estavam mais ligados ao grupo da Associação Académica do que à “FNI”, mas o próprio “Nampula” nada tinha a ver com a “FNI”.
Por isso, foi com naturalidade que pedimos alguma colaboração à “A.A.M.”, na pessoa do Ivo Garrido, no sentido de ocuparem algum espaço nas páginas do “Progresso” e enriquecerem o conteúdo do jornal. E foi a partir daí que a porca começou a torcer o rabo.
A “FNI” apercebeu-se da ligação do “Progresso” ao grupo da Associação Académica e quis também integrar o grupo de colaboradores do jornal.

Uma reunião aterrorizante!

Foi, então, marcada uma reunião com a “FNI” para se conversar sobre a colaboração deles e juntámo-nos no apartamento do Gonçalo Mesquitela, localizado num dos prédios da antiga Avenida António Enes, próximo do local onde terminava a Avenida Pinheiro Chagas.
A reunião foi à noite, o andar era alto, e nela participaram eu próprio, o “Nampula”, o Luís Carlos Patraquim e o Mário José Fernandes, ou seja, a Comissão Directiva do “Progresso” em peso, estando a representar a “FNI” o Gonçalo Mesquitela, um indivíduo de apelido Belmonte (que não conhecíamos) e o Guilherme da Silva Pereira, a quem apelidámos de “mata-hari” porque já o tínhamos visto participar em eventos da Associação Académica, o que pressupunha ser um espião que jogava nos dois tabuleiros da actividade política universitária.
A reunião foi dirigida pelo Gonçalo Mesquitela que se dirigiu a nós sempre em tom intimida tório. Refira-se, a propósito, que o Gonçalo era um indivíduo de forte compleição física e cinturão negro de “karaté”.
Começou por nos ameaçar com a “PIDE” e por nos dizer que estávamos metidos em maus lençóis por nos relacionarmos com o grupo da Associação Académica de Moçambique, contestatários ao governo e relacionados com os “turras”.
As ameaças subiram de tom e, confesso, estávamos todos verdadeiramente amedrontados, par não usar expressão mais vernácula, com o que se estava a passar e o meu pavor era tanto maior quantas as vezes que o Gonçalo se levantava e se dirigia à varanda, espreitando lá para baixo. Cheguei a temer que íamos ser atirados dali a baixo!
Às tantas é-nos lançada a seguinte ordem proibição da colaboração da Associação Académica de Moçambique nas páginas do jornal e só a “FNI” poderia publicar os textos que entendesse.
Ainda ripostámos e concedemos ceder igual espaço nas páginas do “Progresso” à “FNI” e à “A.A.M.”, mas não aceitámos a exclusão da Associação.
A “FNI” engrossou ainda mais o tom intimida tório e para nos mostrar a gravidade da situação decidiram, ali mesmo e connosco presentes, telefonar ao general Kaulza de Arriaga a quem disseram que os “rapazes” não aceitam desligarem-se do grupo da Associação.
A conversa entre a “FNI” e o general Kaulza de Arriaga durou alguns minutos e, depois de desligarem o telefone, informaram-nos que se persistíssemos na nossa posição seríamos convocados para a tropa e colocados em zona cem por cento de guerra.
Já quase sem voz na garganta, acabámos por dizer que íamos pensar melhor no assunto e que voltaríamos para nova reunião.
É preciso, talvez, recordar que a Comissão Directiva do “Progresso” rondava a faixa etária dos dezassete/dezoito anos e que éramos todos alunos do sétimo ano do liceu António Enes.
O ir para a tropa significava não só enfrentar uma guerra com que discordávamos, mas também a interrupção dos estudos, para além da preocupação que isso causava, naturalmente, às nossas famílias.
Quando descemos o elevador e nos apanhámos na rua, a nossa reacção foi desatar a correr pela Pinheiro Chagas acima e só parámos no velho “Tico-Tico”, ponto de encontro da malta da Associação Académica.
Numa das mesas do “Tico-Tico” lá estava o Ivo Garrido com alguns colegas e amigos em animada cavaqueira e que, o verem-nos completamente encharcados em suor e com ar aterrorizado, nos perguntaram o que tinha acontecido?
Nós contámos, eles ficaram muito indignados e depois de umas catembes bem bebidas e de uns pregos trinchados, a noite acabou par ali.
No dia seguinte fomos chamados ao gabinete da reitora que, na presença da vice-reitora, nos informou que o Jornal tinha acabado, afinal sem nunca ter vindo a público!
Os nossos Encarregados de Educação foram, dias depois, também convocados para se responsabilizarem pelas despesas que já tinham sido feitas pela empresa da Revista “Tempo” e que na altura orçavam, salvo o erro, trinta contos em moeda moçambicana.
Sei que o meu pai se recusou a assumir essa responsabilidade e que perguntou à Dr.ª Maria José Salema porque razão não tinha convocado os Encarregados de Educação quando autorizou os alunos a fazerem o referido Jornal e os convocava só agora?
Ainda hoje não sei se essas despesas foram ou não pagas, mas posso assegurar que, caso o Jornal tivesse sido publicado, a receita da publicidade era mais do que suficiente para cobrir as despesas existentes.
Entre nós, miúdos, o ambiente era de revolta que foi ainda agravada quando, passados mais uns dias, entra na aula de Latim da professora Ana Jacob o contínuo que lê um comunicado da reitoria que dizia mais ao menos o seguinte “…na sequência das actividades relacionadas com a criação de um Jornal deste Liceu são aplicadas sanções disciplinares de um dia de suspensão e sete dias de repreensão registada aos alunos Victor Pereira, Luís Carlos Patraquim e Mário José Fernandes e repreensão registada ao aluno Emílio Luz Branco. Inacreditável! Levantámo-nos e saímos logo da sala de aula, depois de autorizados pela Dr.ª Ana Jacob, e dirigimo-nos ao Gabinete da Reitora para apresentarmos o nosso protesto, mas não fomos recebidos.
Mais tarde, o Mário José Fernandes e o Patraquim encontraram a reitora Maria José Salema na rua, junto ao edifício do BNU na antiga Avenida República e insultaram-na e ainda lhe deram uns bem merecidos encontrões.
Na sequência disso, o Mário Fernandes e o Luís Carlos Patraquim viram a pena agravada para um ano de suspensão das aulas.

Victor Pereira

(continua)

1 comentário:

Anónimo disse...

Esse Guilherme Pereira ( vigarista sediado em Setúbal) merecia a elaboração de um CV que traduzisse longitudinalmente as suas peripécias de burlão. O coitado tem um blog com o seu nome. As suas mentiras chegam a ser epifanias.

jgarrochinho