terça-feira, 25 de abril de 2006

Um rio de pedras

Anjos, arcanjos
E pardais a recibo verde


Um rio de pedras
de rosas um trajecto
e de pétalas um silêncio espraiado
A pedra a pétala a rosa a forma da brisa
em voo de asas ofegante
fundam o corpo num semear à mão
disponível sem reservas

E nele
mapa de extensas suaves elevações e ancas e colo e coito
colinas mudas de pele fermente
arbustos auriculares
seios perfumados de rosa
pedra bravia e cutâneos movimentos
Imperceptíveis dedos em cobra deambulando
a mão pousada na pausa a flor a língua
Passeiam

Um sol limite no interior de olhos verdes
em âmbar aurora
acende um pardal na erva inquieta dos dedos

Os anjos
Este é um outro filme
saídos de um alfarrábio
ainda húmidos do convívio com os recantos de papel dobrado
numa parede esquecida de mãos
Sacodem-se
como cães de água
e DESAMARELECEM
peixes exteriores em adaptação abrupta

São simpáticos e estão cansados
Nada mais desconcertante
mesmo desorientante
do que viver em páginas fechado
amarrado a uma imensidão de letras ordenadas
em busca de um sentido
tal como as rosas
ao criarem um percurso de odores visível
a caminho de uma utopia sensorial toda ela tópica
desenham traços no vazio
e de repente ser anjo e cumprir o exterior
uma espécie de serviço militar obrigatório
Acontece-lhes e acontece-nos

Anjos obviamente entabacados
de amarelo
na ponta dos medos
Anjos de café em hora de ponta
Olheirentos
de vinte e quatro horas non stop
de guarda
ao sopro cardíaco próprio
em busca de um alento indico
de um mapa possível de afectos
no fim de um recomeço
numa esquina
nos sorrisos de um ping pong de olhares tresmalhados


Anjo caído em desgraça
é essa nuvem de tabaco em aura intensamente nicotina
que o vela silencioso e sarcástico
Anjo desasado em fados menores
Não há nada a fazer
Não há reaparafusar possível
A máquina desprogramada tosse uns últimos azuis
e a palavra SUAWILI definitivamente areada nas dunas da praia cerebral
brilha mas não tropicaliza
o andar chanatado de sesta
longe que está
nem lança seduções de calor instante
nem mãos escorrendo sombras de casuarina
ou erva dançando em brincar de água pelo tornozelo
e por aí adiante
a palavra Bilene essa
são sorrisos abertos de marfim na brisa salina andando no mar
tal como na extrema da extrema
da ponta
do ouro
o infinito
convida ao movimento perpétuo
e tu vais em osmose de sais
na própria respiração voando
corpo a corpo em inspiração de pássaros
debicando silêncios
por entre pauzinhos arcaicos de caravelas carcomidas
e esse imenso areal de sonhos reacesos de emoção cristalina ali está
SUAWILI
a palavra
talvez mulher
fica definitivamente colada
a Pemba e Inhambane e Maxixe e Quissico e Závora

Não tem sequer o destino do papel do gelado ali perdido
como uma correria de cão estancada
que acordasse nos sonhos de alguém
a quem emprestasses paisagens absolutamente primaveris
floridas
em círculos de afectos
idos
na busca dos próximos

E assim
como uma gazua abre sonhos
que nenhuma caixa de pandora guarda
sonhos deslizando em esquis imaginários
absolutamente brancos
numa neve negra de feitiços e odor a caril
feitos à unha
ocultos em silêncios espessos de luz excessiva
a merda dos dias continua
no fedor de um mc-donalds em erupção constante de ketchup e maionese

Nem nos calendários santos mais VATICANADOS
regressarão ao velho odor das coisas bentas
essa eterna humidade beatificada
dos lugares de produção milagrosa
em que é reservado o direito de admissão
tal como nas axilas de DEUS

E os anjos de serviço
os mais comuns
arrastam-se como lepra num luto nacional de anjos
quando em regimentos partem para qualquer mais uma bósnia
e ELAS
estão sempre disponíveis no mercado concorrencial das guerras
em produtividade crescente particularmente nas zonas de mão de obra armada barata e onde a vida presa por um fio não vale um dólar americano

Aí nada te vale nem a mãe nem o café de bairro
nem os olhos da miúda nem o cão solícito nem o a b c
nem estar pró nem estar contra
sequer a agilidade súbita da cabeça acordada

Celebrando negativamente a sua sorte em uísques baratos
são pelotões de anjos servindo a velha ordem de burocrático respeito
e continências e peito firme – apetece dizer peido, de peido firme –
e prés e direitas volver

Nada arriscam
Nenhum esboço de aceno de asa sequer
Nenhum olhar para cima com ares de insubmissão
mesmo que menos que light menos que light ainda menos
longe do hálito iconoclasta de setentas
mistura de tabaco cubano
laurentinas
suruma
e marxismo servido entre pregos trinchados

Sequer um desejo de azul
navegando por cima da hora de ponta
a desfazer a meada do nada em contracções cardíacas e verdes

Arcanjos alguns
sargenteando como nos folhetos de cordel
tentam então a lotaria sofrida dos sorrisos possíveis
- nada pior que levar uma tampa, e quantas não cheguei a tentar???-

O que era cinzento assim continua
Para um anjo as instituições
são como os números de páginas
uma ordem secular religiosamente a cumprir

Agora é vê-los de serviço a semáforos agarrados
máquinas de destroços encavalitadas em ossos
com penugens sebentas e alcatrão nos olhos como Tirésias

Sábios mas desconhecidos
remetidos para a sombra da sombra

E na hora
A erva daninha despontará
alegremente nas alcatifas mais GULBENKIANAS?
como uma espécie de revolta da natureza –
há vulcões que preparam a sua erupção durante séculos,
indaguem um vulcanólogo e se ele não quiser ser indagado,
perguntem-lhe, que ele vulcamonologará!

Ela própria
a natura
um lume nada brando
com visão estratégica
tal como o terramoto
que fez fugir as casas de Messina de que Pirandello falava?

O verde fresco que ri de livre não ilude o olhar dos porteiros
e os vídeo-porteiros estão por todo o lado
softes e empáticos
Nova capilaridade global
directamente ligada entre si à ordem policiada do cosmos

Sobre elas
instituições que são
como se sabe paisagens burocráticas por andares reguladas
- e quem é que não vive em gavetas? -
e vistas obrigatórias para fora do betão
Sobre elas
que interromperam o curso das águas
dos rios
as colinas
e a liberdade antiga dos ventos
e nesse jardim de delícias lançaram o negócio imobiliário
vomitando betão sobre betão
esmagando os rebentos da hera e o bambu
Sobre elas
os anjos nada dizem
ocupados que andam com as suas vidas
e pequenos tiques
e mesmo com a hora da bica

Agora
como velha memória de passarar
pedintes
murcham o que a mais pura água tem de transparência
e de rodar mós

Há respirações mais precipitadas no passo dos anjos caídos
os que entre os outros
são por assim dizer convictos

Anjos deserdados
para esses
o silêncio é um destino
um antes que não regressa
o princípio de um não recomeço

As páginas onde porventura tenham habitado
essas revoam por entre um céu compacto
e desaparecem nesse azul de chumbo que nos acontece
Não há casa no regresso
apenas o esqueleto da casa antiga plantado na memória
a traços de fumo branco sobre o branco sujo do tempo
Esse cinzento que é nenhures

Na berma desta estrada que percorremos
na flor dos sentidos
uma pequena margarida saltita no papel de uma rã pássaro
- a natureza tem os seus clowns espontâneos
basta pensar uma preguiça amazónica
pernilonga como um flamingo
e montada na rapidez de um pardal
não há Buster Keaton que resista -

e reaparece solar
a margarida
no coaxar dos pulmões mais acesos
ofuscando por momentos toda a linha do horizonte
São assim os melhores anjos

f.arom

3 comentários:

Anónimo disse...

Tenho gosto em me passear, no 25 de Abril, por este blogue.

Anónimo disse...

Como em toda a comunicação, quanto mais concisa, mais eficaz e mais abrangente. Os bloggers tinham a ganhar com a probidade do discurso. Mas viva o 25 de Abril. Sempre.

Anónimo disse...

Os textos do f.arom, copio-os. São para serem digeridos lentamente.