domingo, 11 de novembro de 2007

Putin: o poder a qualquer preço

"A democracia, hoje, é estruturada pela igualização do sentimento de competência. Isso constitui uma radical revolução: interessamo-nos pela política porque pensamos ter os meios para nos interessar por ela ", escreve Pierre Rosanvallon, o politólogo que foi conselheiro especial de Rocard e é, hoje, guru do Collège de France, o topo da carreira universitária gaulesa. A marcha qualitativa da vida em comum, acrescenta, "postula que a vitalidade da democracia seja agenciada não só pelo reconhecimento da legitimidade e da positividade do conflito na sociedade, uma espécie de engrenagem e de regulação das divisões, mas também zela pela organização das instituições do consenso e da partilha comunitária". Isto são teses abordadas no seu último livro, "La Contre-Democratie", Edit Au Seuil, que saiu no decorrer das últimas presidenciais tricolores. Ora, a partir destes critérios, claramente se percebe que a hiper-presidencialização do sistema político russo por Putin, que parece hesitar entre duas maneiras opostas de se suceder a si próprio, só pode acabar por neutralizar o sonho de sentido e forma democráticos da Rússia contemporânea.

Entre a intensa polémica mundial desencadeada pela valsa-hesitação do n°. 1 do Kremlin em se suceder a si-próprio, ou designando um desconhecido sem perfil e sem autonomia, ou transformando o cargo de PM no núcleo duro do regime para o qual se postula, grande destaque para uma magistral artigo no Financial Times (10 Oct.07) de Anatol Lieven, professor do Departamento de Estudos sobre Guerras no King´s College, de Londres. Justamente, o analista dita de início a chave da sua tese: "A pedra de toque da política russa nos últimos vinte anos não se manifestou nas lutas e rivalidades forjadas entre partidários da democracia ou da ditadura, mas nos combates entre diferentes espécies de oligarcas ". E detalha: "A oligarquia que se formou por acção do presidente Putin é, de longe, mais coerente, estruturada e disciplinada do que a colecção de magnates feudais dados à estampa por Yeltsin".

"Then again, a fully fleged oligarchy does not depend for its survival on one leader; on the contrary, it tends to rotate power among different members of the ruling elite.. For better or worse the Russian oligarchy is still far from achieving that degree of solidity. Mr Putin may be more the chairman of a corporate board than a personal ditactor, but he is extremely powerful. Without him, it is felt, not only would the rulling group lose iits prestige with the population, but it would be liable to fall into uncontrollable rivalries. Not just Mr Putin himself but most members of the elite are therefore determined that he go on exercising dominant influence after stepping down as president next year.

Hence Mr Putin´s apparent intention to take over the leadership of the progovernment political party, United Russia, and turn it into a real rulling party rather than the present coalition of bosses and celebrities held together by allegiance to the president. This could be accompanied by Mr Putin´s assumption of the primer minister´s office, leading in turn either to the next president quickly stepping down to allow Mr Putin to run another presidential term according to the constitution, or to the transfer of real power from the presidency to the prime minister´s office .

Given Mr Putin´s youth ( he has just turned 55), his great though contested achievements and his immense popularity, it would have been surprising if he had not sough to retain dominant influence. Whether this is the best way to go about things is a different matter. Frankly, if he could not retire, then it might have been better if he had changed the constitution to allow presidents to run for extra terms and submitted the change to a popular referendum. As it is, all Mr Putin´s possible courses look extremly problematicWorst of all would be for Mr Putin´s to become an all-powerful prime minister under a supposedly emasculated presidency. This strategy could lead to a disastrous clash between president and primer minister and the destruction of the entire system".


FAR

4 comentários:

Táxi Pluvioso disse...

O Putin sim anda nesta guerra para vencer. Eu não. Por isso, não preciso de boas ideias nem conceitos para trabalhar. Ando mais leve. Dizia o velho pedagogo Quintiliano: ”aux soldats convient moins d’apprêts”. Quanto menor for o fardo mais longe vamos. Como exemplo, basta ler um intelectual francês qualquer. Muitas ideias e palavreado não lhes permitem avançar um passo, excepto… vender livros nos Carrefour, que os chineses não correm para comprar.

Não tenho tempo para desempoeirar qualidades escrevendo mais. Já me basta um post que publico, por semana, sobre estes tempos de glória de Portugal. Os portugueses estão a moldar o mundo. Ganham em todas as frente. Perderam o medo do Adamastor. E escrever sobre tamanha empresa é muito absorvente. Todos os dias (diria minutos ou segundos) um português inventa algo ou deixa a sua marca na história universal.

Erguendo bem alto o meu teclado 305ks wireless, (porque não encontrei na papelaria penas de pato), dou o meu modesto contributo para glorificar Portugal.

Anónimo disse...

Mister T.P, aliàs M.G.: Não estou de acordo consigo. E quem anda enganado,sou eu, como é evidente.A sua cruzada francófoba merece distinção. O pior é o vazio de ideias e a subjugação à linguagem trabalhada/atravessada pela ideologia dominante de que a sua prosa humorística dá conta. De certa forma, a sua posição- e eu abstenho-me de o classificar-anda ligada, para o bem e o mal, com as posições niilistas, que vivem dos fantasmas mais negros da repressão sexual ou da exclusão da vontade de ...transformar/libertar/revolucionar. Peço desculpa, pois, por ter ousado incitá-lo a escrever: dizer mal é muito fácil.E "nacionalizar" os grandes filósofos: ainda pior! FAR

SINAIS disse...

SINAIS

- Ó Táxi Pluvioso, ainda tens pachorra para ler o xato líder da classe operária e da revolução anunciada?
- Pois é, é da repressão sexual…

Anónimo disse...

Anónimo sinalizado por sinais: Os conceitos são parte da vida, escreve o Deleuze num livro muito forte sobre Espinoza, o filósofo aportuguesado e exilado. A querela não é pessoal. muito menos política.O que se passa, verdadeiramente, é que estão em jogo duas formas de encarar a realização da escrita em Blogue: ou ruminar besteiras e fazer o engraçadinho; ou tentar iluminar/sensibilizar as pessoas para lutarem. Em qualquer campo do agir humano, é isto o que se passa, lá dizia o remoçado K.Marx... FAR