segunda-feira, 12 de novembro de 2007

O julgamento da praxe: Ana Santos à espera, cinco anos depois

Pela primeira vez, um caso de praxes leva pessoas a sentarem-se no banco dos réus.

Depois da Ana Sofia Damião – aluna do Piaget de Macedo de Cavaleiros em 2002 – não ter visto a sua queixa passar da fase de inquérito, a Ana Santos ultrapassa as barreiras que vão surgindo a quem tenta ultrapassar as marcas das "praxes".

O caso que vai a tribunal no próximo mês de Fevereiro remete à "época de praxes" de 2002, em Santarém. Ana Santos foi, entre muitas outras coisas, obrigada a ter a sua cabeça em excrementos de vaca e abandonada após ter desmaiado. Das acusações da Ana Santos, seis dos arguidos serão julgados por "ofensa à integridade física qualificada"; ficam para trás as acusações de coacção, sequestro, ameaça, injúria.

O Movimento Anti "Tradição Académica" (M.A.T.A.) tem vindo a acompanhar este caso desde 2003 e assinala a coragem da Ana Santos que foi obrigada a sair da instituição pública de ensino superior (Escola Superior Agrária de Santarém) e da própria cidade, de modo a poder continuar a estudar.

A decisão do tribunal revelar-se-á fundamental no caminho de mudança que tem envolvido a "tradição académica" nos últimos anos, assim como na construção de uma opinião pública crítica a este respeito e que questione a relação entre a natureza da praxe e este tipo de acontecimentos.

É também determinante para que a impunidade encoberta pelas "negras capas estudantis" possa ter fim e que deixem de ser as Associações de Estudantes ou as ilegítimas "comissões de praxe" a julgar os "abusos" com códigos inventados que se têm sobreposto às leis do país.

Esperamos, ainda, que as palavras finais do juiz venham abalar o "clima de medo" que abafa todas as histórias que se tornaram públicas e as que jamais saberemos.

9 comentários:

Anónimo disse...

Eu não sei o que se passa nas outras faculdades mas, naquela que eu frequento, a situação está cada vez pior. Este ano as praxes aos caloiros ainda não acabaram. Duram há dois (2) meses! São organizadas listas de caloiros (é legal?). Os caloiros para sairem da faculdade têm que ir pedir autorização.
As comissões de praxe pelos vistos têm mais autoridade do que os professores (talvez isso agrade a quem tem o poder que tanto desvaloriza os professores e, de um modo geral, todos os funcionários públicos).
Numa altura em que os caloiros deviam estar muito concentrados nos estudos (o que não exclui o divertimento próprio de quem é jovem) porque estão a viver uma época crucial da vida, andam "distraidos" com estas palhaçadas.

zemari@ disse...

Em 1969, a academia de Coimbra fez uma greve geral a exames votada pelos estudantes de todas as Faculdades: Direito, Letras, Ciências e Medicina – não havia Economia nem Engenharia nem Arquitectura, como no Porto não havia Direito nem Letras.

A adesão média foi de 90 por cento. Os fura-greves, os chamados, com toda a propriedade, traidores, contavam-se pelos dedos da mão e só foram a exames a coberto de fortes escoltas policiais.

Era ministro da Educação essa figura inefável chamada José Hermano Saraiva. Estrebuchou como um cão raivoso, mas teve de dar uma época especial em Setembro, senão ninguém passava de ano.
Foi substituído por Veiga Simão, reitor da Universidade de Lourenço Marques.

Uma das consequências positivas dessa greve geral foi o fim das praxes que, nessa altura, só existiam em Coimbra.

Mais ninguém usava essa aberração chamada “capa e batina”, que vinha do tempo em que ser estudante era quase como ser seminarista. Daí aquelas vestes talares de palhaço empertigado.
Não sei porque cargas de água, só a podiam a usar também os alunos do 7º ano (actual 11º) do Liceu da Guarda.

Acabaram-se as “trupes” de imbecis caça-caloiros, que faziam rapanços de cabelo dos que saíam à noite - nem que fosse para ir ao cinema -, lhes “davam nas unhas” com uma “colher” e os gozavam nas ruas com um riso palerma, dando-lhes ordens idiotas, embora não tão estúpidas, ofensivas e violentas como hoje.

Além de se ter posto um ponto final – pensava-se – nesses usos medievais, terminaram também – e supunha-se que para sempre – as “latadas” e as “queimas da fitas”.

Em 1974, as praxes académicas já tinham acabado há 5 anos!

Mas, como na História o que não avança tende a recuar, nos anos 80 os asininos voltaram ao poder e os seus rebentos, mais boçais ainda que os progenitores, repuseram os trajes e as praxes de norte a sul.
Como as cópias sempre são piores que o original, a alarvidade desceu à rua em todo o seu esplendor.

Para acabar com ela é preciso dar ensino aos pais, que nem as legendas da televisão conseguem ler. “São muito rápidas”, dizem. Por isso o êxito das telenovelas, dos programas da Lopes e dos “Malucos do Riso”.


PS: Não sei qual é a idade do juiz, do delegado do Ministério Público ou dos advogados de desse julgamento em Santarém (presumo), mas espero, pelo menos, que tenham vergonha na cara, se lhes resta alguma hombridade. Sobretudo se eram estudantes de Direito nesses anos de brasa antes do 25 de Abril.

Anónimo disse...

Aquilo que ninguém mais pode fazer, podem fazer os adeptos da praxe. Se alguém se quiser manifestar tem que comunicar às autoridades com dois dias de antecedência. As comissões de praxe a nada estão obrigadas.
Ainda recentemente um sindicato recebeu a visita de dois polícias.
Aquilo que agora vai a tribunal já há muito tempo teria sido severamente castigado se não tivesse sido feito por "estudantes" e a uma colega no âmbito das praxes.
É UMA VERGONHA PARA TODOS AQUELES QUE SE MANTÊM CALADOS - E SÃO MUITOS.

ana cristina leonardo disse...

É curioso que todos os comentários anteriores sejam anónimos. Será por acaso? Quero acreditar que sim. Mas, caramba, os trogloditas da bata e batina, primeiro, não são todos trogloditas, coitados; segundo, não são propriamente "Camisas Negras". Não há quem os enfrente e acabe com a parvoíce? A autoridade não é um posto, exerce-se. Ou não?

zemari@ disse...

Perdão,

«primeiro, [...] são todos trogloditas;[não são]coitados; «segundo, [...] são propriamente "Camisas Negras".

«Não há quem os enfrente e acabe com a parvoíce?» Não! E tal acontece porque começamos por os desculpar. E como os desculpamos, deixamos de ter autoridade.

Quase sempre que leio ou ouço esta palavra apetece-me, de facto, puxar da pistola.
Prefiro responsabilidade.

ana cristina leonardo disse...

é por causa dessas e de outras, incluindo essa da responsabilidade versus autoridade que (também) anda tanto troglodita à solta. gostava de vê-lo a apelar à responsabilidade dos "camisas negras". Ora bolas!
PS- E quando falo em autoridade, não estou a falar de polícia.

zemari@ disse...

Parece-me que queria dizer «a exigir a responsabilização» dos «camisas negras», ou estarei, de novo, equivocado?

Anónimo disse...

na minha faculdade as praxes duram a quase 2 meses, todos os diass até as 20h! para podermos sair da faculdade temos de pedir autorizaçao! e ja avisaram k vai ser assim até à queima. temos praxes nocturnas até à 00.30 ou até a hora que eles decidirem k ja chega

Anónimo disse...

praxes, oterror dos alunos recem chegados ás universidades, o governo deveria ter vergonha e acabar de vez com essa tortura aos estudantes , então afinal parece que a ditadura ainda não terminou ,humilha-se e tortura-se os caloiros ,e então os estupidos dos veteranos , que mais não são que um bando de vandalos , esses sim deveriam ser castigados por não saber receber com humanidade os novos alunos , desculpem , mas digo o que sinto sobre aquilo que todos os anos vejo