quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Da Capital do Império

Olá,
Como muitos de vocês sabem o meu amigo Armando comprou um GPS. O que significa que agora o Armando já não tem que perguntar a ninguém sobre como é que se vai de sua casa à estação ou de ponto X para ponto Y. Ganhou autonomia.
O Armando claro está não é o único. O táxi que apanhei do aeroporto para a pensão ao pé do Marquês de Pombal também tinha GPS mas disse-me que só o usava quando alguém lhe dizia “quero ir para o pé do café Benfica em Alvalade ou outra coisa estranha do género”.
Aparentemente o GPS pode encontrar esse tal café o que acaba com aquelas discussões tipicamente portuguesas em que dois ou três indivíduos discutem se o melhor meio de chegar ao ponto Y é virar à direita depois da praça ou ir para a esquerda e depois ao pé do café do Melo virar à direita evitando-se a praça que é uma “ganda confusão”. Isto depois de uma grande discussão para saber “qual dos três cafés Benfica” é que se pretende.
Eu tenho a dizer que até há alguns meses atrás não acreditava no GPS. Pensava que era uma daquelas americanices que não funciona. Os americanos como vocês sabem adoram inventar americanices, principalmente a malta da tropa que foi aliás quem inventou o GPS para evitar que as bombas espertas bombardeassem os seus próprios tanques e para o malharal não se perder a caminho de Bagdad e ir parar a Teerão o que só serviria para irritar a malta que governa com pneus de lambreta na cabeça.
Eu não acreditava no GPS. Acreditava isso sim em mapas ou então em pedir direcções e escrevê-las num pedaço de papel tipo “primeira à esquerda, segunda à direita, passas o shopping viras à esquerda” etc.
Mas quando fui à Alemanha para a cimeira do G8 apanhei uma boleia de uma gaja com GPS e o raio da máquina nunca se enganou. E era bilingue!!! E nunca se chateou quando a gaja se enganou uma ou duas vezes. Em vez de se pôr a gritar “porra que te estás sempre a enganar, cum carago”, não. Continuou como se nada tivesse acontecido dando de novo direcções sem alterar a voz. O que é porreiro. Mas que é também prova que no mundo da informatização ganhamos autonomia à custa do contacto humano. Não se pára, não se pergunta, não se fala, ninguém se chateia em público.
O que reflecte de certo modo o paradoxo da Internet que tantas portas abre mas que fecha outras tantas. Na verdade a Internet está de certo modo a tornar-se numa câmara de eco, um local onde se desenvolve uma espécie de narcisismo digital. Isto é: Nós hoje vamos à internet buscar a companhia daqueles que pensam como nós. Alimentamo-nos nos nossos próprios preconceitos, reforçados por outros que com pequenas variações têm os mesmos preconceitos que nós. É a tal câmara de eco. Que é perigosa porque como repete os mesmos preconceitos faz aumentar as pressões sobre a honestidade intelectual. Daí a necessidade de estar sempre na oposição.
Aliás esta compartimentação do mundo levou recentemente alguém a queixar-se num jornal americano que hoje em dia já não há grandes bandas de música como Rolling Stones e outros porque hoje o mercado está subdividido em segmentos em que cada grupo busca o que gosta. O que é bom mas que acaba com as grandes bandas que causavam debates através das fronteiras musicais. Hoje vai-se por segmentos. Há hit parades para todas as espécies de música.
Mas claro está que estou a exagerar. Um GPS é apenas isso: um GPS …
Mas como já estou embalado não posso deixar de notar que outra coisa que eu noto que está a desaparecer é o sindroma “tenho isso aqui mesmo debaixo da língua” ou “porra que eu sei isso, daqui a bocado já me lembro”. Agora vai-se ao Google ou à Wikipedia e está lá tudo. Já não é preciso ter memória de elefante ou então ter que perguntar a várias pessoas se se tiver que saber quando é que morreu o Álvaro Cunhal. Escreve-se o nome no Google e … voilà: Álvaro Barreirinha Cunhal died on June 13 2005. O que prova que já não preciso de memória. O que é bom porque isto surge na altura em que eu estou a começar a perdê-la.
Hoje graças ao Google sabemos tudo … mas será que compreendemos alguma coisa?

Abraços,
Da Capital do Império

Jota Esse Erre

PS – Estou a pensar comprar um GPS. Mas antes disso e para não ter que andar às voltas pelas lojas vou fazer uma busca na internet para saber preços e onde é mais barato.

2 comentários:

ana cristina leonardo disse...

GRANDE texto, mesmo sem ainda ter comprado o GPS. Mas olhe, eu uma vez fui a Salamanca num carro que tinha GPS e houve discussão à mesma, porque como eu via placas com indicações e por vezes o GPS mandava ir por outro caminho (os GPS são mais inteligentes do que as pessoas e nunca se deixam enganar por miseráveis placas), fartei-me de discutir com a criatura que ia ao volante que acreditava mais no GPS do que em mim.
E ainda me estou a rir, por me ter lembrado dessa viagem... e por causa do seu texto (acho que agora se diz post).

ana cristina leonardo disse...

Esqueci-me só de uma coisa. Naturalmente, há pessoas que adoram uma boa discussão e não serão os GPS a conseguir calá-las. E não falo por mim.