sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Notas de uma noite à Esquerda

Quando cheguei já tinha, naturalmente, acabado o debate, e, soube-o mais tarde, também o José Mário Branco tinha dado o seu (breve) concerto (e assim continuo sem ver ao vivo o autor de uma dos mais extraordinários álbuns da música portuguesa, o duplo Ser Solidário). Esperava-me o Grande Soba João Carapinha, já presente. Pergunto-lhe como ia aquilo. "Uns gajos no palco a dizer aquelas palermices do costume da esquerdalhada, chinesices, uma coisa sem interesse nenhum". Mas se esperava o habitual, aguardava-me o surreal: um black com ar de intelectual do ghetto: "Incluir, ya? Cidadania, ya?". Ok. Retiramo-nos para a sala de convivio, e eis o primeiro grande momento da noite: durante uma interessante conversa sobre Heidegger e as implicações das opções políticas na Filosofia, o João Carapinha interrompe: "Olha lá, já viste que as gajas aqui olham todas para mim como se eu fosse Jesus Cristo?" "É o teu ar de MFA, para elas é a mesma coisa", respondo. E eis que o Grande Soba dá o salto em frente, gritando "COPCON! Eu fui do COPCON! Ameacei bombardear a esquadra da PSP da Praça do Comércio!". Infelizmente para o Soba, sem grandes consequências.
Mais tarde, iniciou-se o concerto hip-hop. É curioso como agora o pessoal da Esquerda parece que descobriu o hip-hop, um estilo que muitos ignoravam, e até desprezavam. Prova disso, o facto de insitirem em abanar-se, bambolear-se, mexer-se ridiculamente à dread, ao som de uma coisa inenarrável em que os bacanos do ghetto (Incluir, ya? Cidadania, ya?) debitavam umas rimas imperceptíveis ao som (som?) de uma batida pobrezinha. Mas estes gajos já ouviram o Halloween? Vão mas é ter umas lições de ghetto, meus! (private joke, só acessivel a quem sabe o que se passou num certo concerto em Almada do rapper de Santo António dos Cavaleiros).
Segundo grande momento da noite: uma freakzita com os seus 18 anos fala sem parar com um mano com ar de "se te encontrasse lá fora roubava-te": "Ah e tal, vamos jantar à minha casa na Mouraria... Mas já não me respeitas? À bocado dizias que me respeitavas...", enquanto o black vai ficando com uma cara cada vez mais fodida, e eu começo a temer pela segurança da garota. Enfim. Entretanto o Grande Soba era constantemente abordado com diversas conversas que terminavam invariavelmente em "Fala com o Zé Mário", o que o estava a começar a aborrecer porque, soube-o aí, o Grande Soba não grama o Zé Mário, desde certas histórias do tempo da outra senhora.
Acontece que, mercê da cerveja, já a disposição do Grande Soba tinha mudado completamente, e ei-lo a tecer loas ao pessoal de Esquerda, "Uns gajos porreiros, sentes-te em casa, acolhem-te, sorriem, e as gajas olham todas para mim, insisto, TODAS para mim". Terminámos a noite em interessante diálogo com uma tipa que dizia votar sempre em branco, exceptuando quando votou no Cavaco, um professor de Yoga e um fanático pela Psiquiatria (ou seja, os gajos mais fora que conseguimos encontrar), em que o principal tema em liça era a oposição de perspectivas entre mim "Em Política sou extraordinariamente prudente" e o Grande Soba "Sou um comunista radical!". Uma noite à Esquerda.

Frases da noite:

João Carapinha: "As gajas de Esquerda incluem, as gajas de Direita excluem"
André Carapinha: "Há muitos gajos de Esquerda que são uns grandes totós, mas são todos educados e simpáticos"
João Carapinha: "Não gosto de ninguém neste mundo. Mas gosto das mulheres"
André Carapinha: "Somos da ala dos cínicos"

8 comentários:

M. disse...

Como era o fanático pela Psiquiatria, Ontem não pude ir (estou a ser escravizado pelo serviço de Cirurgia do HGO), mas a ala cá de casa foi. E há muitos fanáticos pela Psiquiatria.
Um grande abraço!

Anónimo disse...

Para além de serem tótós, estavam com os copos, o que faz de vocês uns autênticos tótós delirantes.

Tárique disse...

o alcool causa o machismo e a soberba ... ou simplesmente os traz à tona ?

Tárique disse...

Uma crónica engraçada, com as cores do politicamente correcto ("black" é mais moderno que "de cor" não é?), o pequeno preconceito ("tinha ar de quem..."), os neologismos ("uma freak"), o tom vagamente niilista , a auto-citação no final. O mais revelador é o tom de fascínio, de um locutor pequeno-burguês que só se ri ao fim de semana, que numa quinta à noite se vê fora da sua bolha de classe ("ou seja, o mais fora que encontrou").

André Carapinha disse...

Saber rir de si próprio é uma virtude, meu caro Tarique.

Anónimo disse...

- Boa, paizinho!
- Sim, filhotinho...
gajas de esquerda
ou de direita...
eu não gosto mesmo
é de ninguém!!!

Anónimo disse...

A tua noite esquerdalha pareceu-me interessante. Era só para perguntar se por acaso não repareste que as rimas eram imperceptíveis por serem em crioulo? A Batida improvisada com a boca era muito boa, desculpa lá dizer-te.
Ainda não percebi a tua onda! não sei se brincas ou se falas a sério. Se falas assério os mc´s vêm o teu comentário como uma ofensa. Se estas a brincar tem cuidado com os teus comentários surrealistas, pq apesar de achares que toda a gente que lê este blog te conhece, há pessoas que não (como eu) e fico chateado.
Abraço Camarada

André Carapinha disse...

"Camarada":

Estou a perceber: se um gajo não gosta dos "MCs", ou diz que não eram nada de especial, ou não achou piada, isso é uma ofensa. Um ultraje, aliás. Um insulto, acrescento. Que os "MCs" são impassíveis de crítica, são como entidades supremas que não podem ser contestada sobe pena (do quê, "camarada"?)

Se o "camarada" e os restantes ainda não perceberam, eu passo a explicar: estou a brincar e a falar a sério ao mesmo tempo. O que não me augura nada de bom, pois além de "insultar" os MCs ainda vai ficar chateado comigo.

Pois fique chateado se lhe apetecer, que a mim isso não me chateia nada. Como dou a cara, facilmente me encontra. Se com o "chateado" quer dizer que gostava de debater estas coisas comigo, sinta-se à vontade para me mandar um mail, e até nos encontramos e conversamos. Se quer dizer outra coisa, pois esteja à vontade que eu não tenho medo nem de si nem de ninguém.