sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Vergílio Ferreira: O imaginário da felicidade


Pequeno excerto de um grande romance-tese de um dos maiores escritores portugueses do séc.XX. Autêntico poema em prosa de rara beleza e intensidade sublime. A ler, sem hesitar.

"Como se é feliz na felicidade imaginada de quando se imagina que se foi. E todavia, o imaginário, que é onde a felicidade está, estava ainda em ti antes de se reabsorver na realidade do teu corpo, vibrava ainda à tua volta e era à sua vibração como de uma febre que eu ainda estremecia. Às vezes o frémito à tua volta refluía à estrita realidade de ti, aos poros visivéis da tua pele, aos cremes e tintas visivéis da tua face, à tua mão de ossos e pele.E eu olhava-te então a distância, para te distanciar de mim. E olhava-te lá diluída e confusa. E regressava a ti como uma impossibilidade, e tu estavas lá e eu era feliz outra vez. E ajudavas a essa reinvenção de ti porque falavas pouco, palavras breves,certíssimas, e cobrias entre elas o espaço da indecisão, do subentendido, do oculto indevassável e eu amava-te terrivelmente outra vez no delírio da minha imaginação.Porque nunca houve em ti a expansão em que tudo se extravasa e torna tudo real sem nada de reserva e de intocável: Nunca foste natural até à naturalidade em que existia o teu corpo visível e tocável e redutível ao imediato da fisiologia. Porque essa mesma fisiologia te era como se a furtasses ao meu domínio e conhecimento, mesmo quando te conhecia desde a fuidez íntima de ti, do mais recôndito e proibido de ti. Qualquer coisa me furtavas sempre e ficavas inteira na tua inviolabilidade reclusa, no teu mistério por desvendar e eu não sabia o que era".

In Vergílio Ferreira, Para sempre, Bertrand Editores

FAR

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