quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Aforismos liberais (7)

Os gestores e administradores põem sempre os interesses da empresa acima dos seus interesses pessoais, de outro modo são, mais cedo ou mais tarde, postos de lado pelo mercado.

Como aliás se pode depreender da notícia do Público de 4ª feira (sem link), relativa à greve dos trabalhadores da Valorsul. Lá está escrito, por A mais B: os valorosos administradores, enquanto aplicam planos draconianos "para a sobrevivência da empresa", recusando aumentos e retirando direitos assinados em acordo, aumentaram-se a si próprios em 30 por cento, o que é, evidentemente, trabalhar para o interesse da empresa (eu explico: para que um administrador possa planear bem, e pensar em boas estratégias, convém que esteja repousado, feliz e relaxado, ou seja, que tenha massa suficiente para umas boas férias nas Mauricias, uns jantares de qualidade e umas valentes partidas de golfe. Tudo a bem da empresa, que é o mesmo que dizer, no interesse dos próprios trabalhadores - verificar o aforismo anterior).

Não sei muito bem porquê, mas gostava de saber o que é que os "liberais" tem a dizer sobre isto.

18 comentários:

jcd disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
jcd disse...

"Os gestores e administradores põem sempre os interesses da empresa acima dos seus interesses pessoais, de outro modo são, mais cedo ou mais tarde, postos de lado pelo mercado."

Está enganado. tanto no sector público como no sector privado, os gestores e administradores põem sempre os seus interesses acima de quaisquer outros.

O que acontece é que, no sector privado, muitas vezes é possível que os interesses dos gestores coincidam com os interesses dos accionistas. Os gestores têm interesse no sucesso das empresas porque têm um prestígio a defender, porque têm esquemas de prémios bem ligados à performance da empresa, por aí fora.

O problema do sector público é que é raro que estes interesses coincidam. Os gestores públicos para se manterem no cargo ou para serem bafejados por novas nomeações não têm que gerir bem. Têm apenas que agradar a quem os nomeia, geralmente os partidos ou algum político em estado de graça. Agradar significa fazer show-off, arranjar empregos para os filhos dos membros dos partidos, pagar umas festas, umas jantaradas e umas inaugurações.

Além disso, os gestores não se aumentam a si próprios. Só se os accionistas forem muito palermas é que permitem que tal aconteça. O mais corrente é haver uma comissão de vencimentos independente, constituída por representantes dos principais accionistas, que determinam as remunerações e os esquemas de incentivos.

E é evidente que os accionistas devem ter toda a liberdade de decidir como pagam e o que pagam. Tem melhor sugestão?

PVC disse...

JCD escreveu direito!

No caso da Valorsul, os accionistas são: câmaras municipais da RMLisboa, EDP, EGF, Parque Expo. Com alguma camuflagem à mistura, não deixa de ser uma empresa do sector público.

Sobre a criação de empresas municipais, dos artifícios para ultrapassar endividamento e contratação de pessoal, já nem falando da acumulação de cargos, de vereador nas câmaras e de empresário nas empresas, há uma tese de doutoramento recente, defendida na Universidade de Sevilha, que é muito esclarecedora. Obviamente contestada pela classe política que “trata” da ras publica.

Filipe Tourais disse...

Eu vi a conferência de imprensa de um dos administradores que, sem querer, disse publicamente que a empresa não tem planeamento de pessoal: usou como argumento para não conceder aumentos superiores o facto de os trabalhadores já receberem anualmente em horas extraordinárias um valor superior a 2 salários mínimos (se não me engano eram 2).

ana cristina leonardo disse...

«E é evidente que os accionistas devem ter toda a liberdade de decidir como pagam e o que pagam.» - Se quiserem tb. podem pagar em géneros?

Benamor disse...

Acho é que os administradores deviam receber parte em géneros da Valorsul (este nome é um achado).

André Carapinha disse...

Caro jcd, claro que estou enganado, ou não fossem estes aforismos de teor obviamente irónico, e nunca me passaria pela cabeça que um gestor se preocupasse, verdadeiramente, com o interesse da empresa.

Nada tenho contra o facto de que «os interesses dos gestores coincidam com os interesses dos accionistas». Ao menos não vem dizer, como o outro, que coincidem a longo prazo com os interesses dos trabalhadores, porque se a economia funcionar blá blá blá. Acontece que os "liberais" estão convencidos de que a economia é um caldeirão mágico onde se vão colocando ingredientes ao acaso e de repente sai a mistura perfeita.

Não é relevante nem cordato lembrar os "gestores públicos" como paradigma para seja o que for neste caso. A Valorsul é tão pública como a TMN, por exemplo, uma empresa que conheço por dentro. Nas empresas privadas exemplos destes sucedem-se, ou não sejam os gestores/administradores portugueses pagos ao nivel da média Europeia, ao contrário do que sucede com os trabalhadores. Ou estarei enganado?

Os accionistas tem o direito de decidir o que pagam, e inclusivé os gestores tem o direito de se aumentar em 30 por cento, o que não deviam ter é, perante tudo isto, lata para dizer que os trabalhadores em greve "prejudicam a empresa", "prejudicam o contribuinte", e em última análise "prejudicam-se a si próprios".

E isto, caro jcd, já o vi escrever bastas vezes.

Anónimo disse...

acl e benamor, eu também acho que sim. Em géneros, e dos bons! Por exemplo, para as empregadas vivaças e chicas-espertas, dildos king size e com opção de escolha de cor, e para os equivalentes masculinos umas bonecas insufláveis com opção travesti.

jcd disse...

"Nada tenho contra o facto de que «os interesses dos gestores coincidam com os interesses dos accionistas». Ao menos não vem dizer, como o outro, que coincidem a longo prazo com os interesses dos trabalhadores, porque se a economia funcionar blá blá blá. Acontece que os "liberais" estão convencidos de que a economia é um caldeirão mágico onde se vão colocando ingredientes ao acaso e de repente sai a mistura perfeita."

Esté muito enganado. Os liberais não acham nada disto nem buscam a mistura perfeita. Esses que pensam ter a solução é que fazem planos quinquenais.

Os liberais simplesmente acham que as pessoas devem ser deixadas em paz sem ter que aturar políticos que, de cátedra, os obrigam a caminhar no sentido de uma perfeição teórica.

A incompreensão deste simples facto é que leva a que se escrevam tantas barbaridades sobre o liberalismo, neste o noutros blogues.

Anónimo disse...

TMN, Valorsul, etc, etc, são pseudo empresas, com pseudo acionistas, onde a responsabilidade seja a que nível for não existe. Nas empresas onde os acionistas "se chegam à frente", ou seja existem avalistas, e quando as coisas correm mal tem que lá investir o deles, ou cobrir os prejuízos, o bordel que é mencionado em alguns dos comentários não existe. Planos quinquenais também existem nas empresas privadas a sério, e sem a conotação que jcd quer dar, sendo este o maior handicap que as empresas portuguesas tem, ou seja pensar no muito curto prazo. Os acionistas tem o direito de aumentar os gestores naquilo que entenderem, desde que os divendos a que os gestores se comprometeram a pagar aos acionistas seja realizado. O problema em é que em Portugal continuamos ter sindicatos péssimos, 100% retrogrados, e com apetite voraz pelo abismo, arrastando os trabalhadores para situações de bradar aos céus, associado a isto uma justiça que não funciona, não aplicando as leis em tempo útil, que em muitos casos até são boas. O liberalismo em Portugal é de faz de conta. É como os sindicatos e os pactos sociais das empresas tipo TMN, é uma ficção dispendiosa.

André Carapinha disse...

jcd, espanta-me a sua incompreensão sobre as suas próprias ideias, já que, sem o perceber, está a concordar a 100 % com a descrição que eu fiz.

"As pessoas serem deixadas em paz" é um belo principio, e não encontrará maior defensor dele que a minha pessoa. É preciso é perceber o que é que isso significa, para cada pessoa em particular. Por exemplo, o estado "deixar em paz" um gestor, é muito diferente de "deixar em paz" um sem-abrigo, e etc.

Mas como de costume, nos "liberais" tudo são principio, ou não fosse a sua ideologia uma evidente profissão de fé.

Ao último anónimo: já estava mesmo a sentir a falta dessa: temos empresas pouco competitivas, os gestores aumentam-se estupidamente sem preocupações com os accionistas, o liberalismo português é uma ficção, e de quem é a culpa? Obviamente dos sindicatos.

A explicação repetida ad nauseaum de que o problema português é a falta de liberalismo é muito curiosa se comparada com os resultados do processo de liberalização das últimas décadas. Mas lá está: o credo é muito forte.

jcd disse...

André

O processo de liberalização das últimas décadas é muito interessante. Nos países que se liberalizaram (extremo oriente, principalmente) os resultados estão à vista.

Nos países que o André pensa que se liberalizaram (Europa, EUA), o peso do estado não para de aumentar.

Ganhou-se a consciência económica das causas e efeitos, mas a prática é quase sempre a mesma. Mais impostos, mais estado.

De resto, o André continua a pensar mal. Devemos deixar em paz 90% das pessoas e ajudar os restantes 10% a poderem ser deixados em paz. E devemos compreender que grande parte das acções que têm como objectivo ajudar os que mais precisam, não fazem mais do que criar exércitos de necessitados. É o caso dos bloqueios ao investimento, destruidores de milhares de potenciais empresas à nascença. Em POrtugal, os principais bloquueadores são a burocracia, o fisco e a sobreregulamentação.

Gosto particularmente desta frase de Revel, que ilustra muito bem o que por aí se passa:

"A Europa, em diversos graus consoante os países - sendo o mais tacanho a França -, atribui a um excesso de liberalismo os males que resultam do seu excesso de regulamentação, da superfiscalidade, de redistribuição, de protecção sectorial e de intervenção estatal. É um pouco como se um sedentário sobrealimentado atribuísse ao abuso de exercício físico o seu excesso de peso."

André Carapinha disse...

jcd:

Existem muitas particularidades extremamente interessantes em ambos os "processos de liberalização" que fogem ao estereótipo que os "liberais" construiram à medida das suas mitiifcações ideológicas. O João Rodrigues tem publicado textos no Ladrões de Bicicletas muito reveladores. Assim , o que parece, é que a principal razão para o sucesso (relativo) dessa "liberalização" asiática foi não ter sido assim tão "liberalizadora"; i.e., os Estados terem mantido o controlo de todo o processo, utilizando os seus bancos centrais, políticas de investimento, etc. Já na Europa, o que se tem assistido é a um progressivo alheamento do Estado da definição de toda e qualquer política pública, em beneficio da privatização.

A acreditar nisto, então os "liberais", para utilizar uma analogia semelhante à sua, são como a assistência de um pastor da IURD, que vê milagres onde eles não existem, e se recusa a indagar das verdadeiras razões por trás deles.

Aliás, esta analogia não deixa de ser feliz, pois, na minha humilde opinião, o principal problema dos "liberais" é o de que, por razões estritamente morais (nos casos em que pelo menos o são)- i.e., por conceitos tão vagos e discutiveis, como "o que é justo", etc., se recusam a aprofundar a análise.

Daqui resulta o facto de optarem por ignoram diversos conceitos das teorias sociopolítica e económica, como sejam os de "poder" ou "assimetrias de informação, para ficarmos por estes. Neste aspecto, e como já foi por demais dito nessa blogosfera, não são muito diferentes dos marxistas ortodoxos (as ortodoxias, por definição, tem sempre pontos em comum).

André Carapinha disse...

Já agora, ficam aqui alguns links para os posts do João Rodrigues que referi:

http://ladroesdebicicletas.blogspot.com/2007/05/sempre-tempo-de-mudar-de-opinio.html

http://ladroesdebicicletas.blogspot.com/2007/07/crise-asitica-foi-h-dez-anos-iii.html

http://ladroesdebicicletas.blogspot.com/2007/07/crise-asitica-foi-h-dez-anos-ii.html

http://ladroesdebicicletas.blogspot.com/2007/07/crise-asitica-foi-h-dez-anos.html

jcd disse...

Caro André. Não sou capaz de deixar de sorrir quando vejo tentativas de justificação do sucesso asiático com o controle estatal. Controle estatal e regulação havia antes e depois. Antes havia mais, depois havia menos. Nunca foi zero, nem pode ser. Do oito ao oitenta há 71 números inteiros.

O que não havia antes era liberdade económica. Estava no oito, ou por aí. A abertura, maior nuns casos, menor noutros, transporta o nível de actividade económica para patamares diferentes. Foi, tão só, o que aconteceu, e não só na Ásia.

Olha para África e descobres que o país que mais cresceu foi o Botswana, apesar da tragédia que o afecta com a SIDA. Na América do Sul foi o Chile, na Europa a Irlanda, os EUA cresceram a ritmo elevado durante toda a dévada de 90. O que diferencia estes países dos outros não é só o estado, porque estado e leis todos têm.

É o resto. Aquilo que aos ladrões de bicicletas custa a engolir. Chama-se capitalismo, ou, se preferires, liberdade económica.

André Carapinha disse...

jcd:

Por favor, deixa-te de simplismos tolos. Quando é que tu, ou os restantes "liberais", são capazes de entender que nem eu nem o João Rodrigues somos contra a existência de mercados, de empresas privadas ou de livre iniciativa? Aliás, é típico, entenderem que aqueles que defendem ideias diferentes das vossas estão a defender o estalinismo. Não vás por aí.

O que os artigos dizem é uma coisa muito simples: as receitas que vocês defendem falharam, e para salvar a situação, os governos desses países tiveram de aplicar as receitas que nós defendemos. E isto deixando de lado inúmeros factores socio-políticos, como o fim da guerra fria e a globalização, que ajudam a explicar certos "milagres", e que os "liberais", convenientemente, ignoram, para justificar teorias generalizadoras.

Pelo que, a fazer fé nos artigos, esse "milagre asiático" que vocês tanto proclamam como um dos mais fecundos exemplos da justeza dos vossos princípios, prova afinal o contrário.

A propósito: leste os posts do João? Tens algum comentário a fazer a eles?

jcd disse...

"Por favor, deixa-te de simplismos tolos. Quando é que tu, ou os restantes "liberais", são capazes de entender que nem eu nem o João Rodrigues somos contra a existência de mercados, de empresas privadas ou de livre iniciativa?"

Lendo-os e relendo-os, o que eu acho é que não sabem muito bem do que é que são a favor.

André Carapinha disse...

Tambémm não me parece que o entendas.

Mas disponiblizo-me para o explicar, se achar que vale a pena, para lá das trocas de tiros. Será?