quarta-feira, 28 de março de 2007

The portuguese way

O comentário do leitor Filipe Brás Almeida suscita-me a seguinte reflexão: de facto, hoje em dia em Portugal, o "liberalismo" tornou-se num confortável guarda-chuva onde cabe uma míriade de coisas: a direita pura e dura, os tecnocratas eficientistas, os anarco-capitalistas de candura ingénua, liberais clássicos, ou a esquerda liberal. Se isto, visto à luz da tradição que subjaz ao conceito de "liberalismo", não é um problema por aí além, a questão é que algumas destas correntes não concordam em absolutamente nada; se todos usam e abusam da palavra "liberdade", às vezes tomando-a como património seu inalienável (esquecendo toda a história da esquerda libertária, o socialismo utópico e mesmo o marxismo antes de Lenine), a verdade é que esta ideia tão fundamentalmente humana serve como ready-made para todos os gostos- de ultra-capitalistas a adeptos do modelo social da igreja, de liberais nos costumes a adeptos da criminalização do aborto, todos encontram um fundamento nessa "liberdade", que de tão indefinida corre o risco de se tornar uma palavra espúria e desprovida de sentido.
No entanto, isto não deixa de ser natural: esta nova geração, a minha geração, cresceu num tempo em que o guarda-chuva para toda a gente era o "socialismo", tanto que, hoje por hoje, já poucos fazem a mínima ideia do que signifique- ouve-se por aí que vivemos no "socialismo", o que seria uma anedota, se não significasse justamente isso. Desde pelo menos 1977 que pouco ou nada do que se faz em Portugal tem o que seja a ver com "socialismo", e no entanto cada vez mais se lhe atribui a culpa de todos os males portugueses. É evidente que para isto contribui termos um Partido Socialista que é social-democrata, e um Partido Social-Democrata da direita populista, contribuindo para aumentar a confusão- melhor seria se se chamassem os bois pelos nomes. Mas não nos iludamos: o uso e abuso da palavra "socialismo" como fonte de legitimação de tudo o que se fez durante uns bons 10 anos após o 25 de Abril, mesmo quando o que se fazia era justamente o contrário, tem um preço que iremos pagar durante uns bons tempos.

1 comentário:

Filipe Brás Almeida disse...

Obrigado pelo destaque. O ego agradece.

A sua referência à nomenclatura dos partidos traz-me à consciência uma reflexão que fiz à algum tempo.

Já não se contam pelos dedos das mãos as vezes que dei comigo a explicar a amigos pessoais, americanos e canadianos, porque é que o partido conservador de direita em Portugal se chamava Social-Democrata. Tentei sempre explicar por sublinhar a tendência esquerdista da revolução dos cravos, o Sá Carneiro, etc.

Altruísmo à parte, facilitava-me bastante a vida se o PSD mudasse o nome de uma vez por todas, para Partido Popular Democrático.

Os Eurodeputados do PSD, também devem estar habituados a terem que explicar que são social-democratas, mas que não são social-democratas.

O PSD até teria potencial, mas neste momento carece de uma definição política clara. Eu por acaso não sou capaz de identificar o que é que eles representam. Sei apenas que não é partido social-democrata embora seja esse o seu nome.

Que raio de confusão.