segunda-feira, 1 de agosto de 2005

Vozes Distantes do Mar

Tudo começa com um assobio estranho, cheio de vento. Vento que sopra nos canhões do Museu Sahrawi da Guerra, movendo as areias... Depois as vozes do deserto. ‘Sahrawi, voci distanti dal mare’ é um disco especial. Com canções como os outros, de ninar, de guerra, de amor, ao profeta ou de solidão; mas especial porque com ele vem a Frente Polisário e o povo Sahrawi. São 150 mil refugiados em tendas há trinta anos, numa das regiões mais inclementes do deserto. Alguém se lembra? ‘Necessità dei volti’ é um projecto que nasceu em Itália, para apresentar ao mundo o arquivo fotográfico do Museu Sahrawi da Guerra, testemunho da ocupação marroquina do Sahara Ocidental. Lá, estão vinte e cinco mil fotos em três caixotes no chão, na areia... 483 fotografias foram reproduzidas num livro do qual só existem 20 exemplares.É um livro sem texto, com uma foto por página, centrada, a 1/1, com a cor e os rasgões do tempo. Que fotos são estas? Fotos recolhidas durante os anos de guerra nos cadáveres ou nos prisioneiros. Fotos da família e dos amigos: as crianças, os irmãos, pais, a namorada, na terra ou em festanças de caserna. Retrato do ocupante e do ocupado. Agricultores, quase todos. Pobres de ambos os lados. Patrizio Esposito, fotógrafo napolitano, esteve lá. Digitalizou as fotos com um pequeno scanner ligado a uma bateria de camião. Agora carrega um dos vinte volumes e mostra o livro em casa de amigos... e de amigos de amigos. Meticuloso, sóbrio, conversa. Responde. Com rigor e respeito. Entregue. Um dia destes vai-se embora. Deixará um guardião, com o livro e a causa em Lisboa? Nestes tempos de excesso de informação, onde todas as notícias se matam umas às outras, este modo simples de abrir as nossas casas e conversar entre amigos de coisas realmente importantes marca a diferença. Nunca me vou esquecer que EU VI AQUELAS FOTOS EM CASA DO PEDRO E DA ANA. Tornou-se uma coisa minha, pessoal. Sei que ficaram discos na Mabooki, livraria africana no bairro alto, na rua João Pereira da Rosa. Não sei se ficou mais alguma coisa... Vão ver! Da recém nomeada fotógrafa do 2+2=5, com um abraço.
Ivone Ralha

1 comentário:

Anónimo disse...

Pois é, nós seres humanos temos a tendência para nos esquecermos de quem está mal enquanto estamos bem em relação a estes casos gritantes. Será que algum de nós já passou por tal? Penso que uma boa maioria, não. E é de agradecer a estes seres "iluminados" para não deixar cair no esquecimento uma causa quw, para mim, envergonha todos aqueles que poderiam fazer alguma coisa e não fazem. Infelizmente não é caso único, no entanto há que dar relevo a este trabalho feito para chamar a atenção não só de quem de direito, mas também para consciencializar cada um de nós.
Anabela do Castelo