terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Venezuela hoy

A Venezuela é, hoje por hoje, uma das questões essenciais no debate político à Esquerda. Eu diria mesmo a questão essencial, onde se revelam velhas e novas fracturas. De facto, o programa chavista, ao contrário de outros, nada tem de inócuo: é um programa "socialista" (nacionalização dos grandes meios de produção, redução do horário laboral, redistribuição generalizada da riqueza, por exemplo). Mas é também um programa aplicado verticalmente, do topo para a base, e baseado numa figura populista e com laivos autoritários (o que não é o mesmo que ditatoriais, como se sabe – e temos cá no burgo um "socialista" que nos comprova isso mesmo). No posicionamento perante Chavez, e tomando em conta estes aspectos complementares, revelam-se as velhas e as novas linhas do pensamento político à Esquerda.
Chavez perdeu um referendo em que eu, provavelmente, votaria contra, mas não festejaria a vitória. No geral, aprecio a constituição chavista de 1999, mas este projecto tem algo que por si só me repele: a possibilidade de eleição ad eternum do presidente. Contudo, aprecio menos ainda a oposição venezuelana que hoje canta vitória, que corresponde em termos políticos aos tradicionais caudilhos sul-americanos que fizeram da corrupção generalizada sistema, e em termos sociais às classes privilegiadas que temem perder o estatuto. Esses, que todos os dias se queixam do caminho chavista para a ditadura (mas que se queixam nos media sem que alguém os incomode), não foram, ao contrário de Chavez, capazes de reconhecer uma única das suas derrotas. É natural: não estavam habituados a algo mais que a "saudável alternância democrática" do pântano dos centrões. A Democracia, já se sabe, é uma ideia muito bonita, mas só quando nos convém. Também no nosso burgo, a Direita garante que a Venezuela está a caminho da Ditadura, e isto apesar de não existir um único preso político (ao contrário de Portugal onde, segundo a mesma Direita, há um, o Mário Machado), de a oposição dominar a generalidade dos media (mesmo que, na sua santa ingenuidade, a Casa Branca insista em afirmar que "não teve acesso às televisões"), e de o Presidente aceitar a derrota sem banhos de sangue ou demonstrações de força (ao contrário do que fez a oposição quando, eles mesmos, foram derrotados nas urnas e urdiram um golpe de estado contra um lider eleito). Os limites da Democracia terão, então, necessariamente de ser outros. Talvez sejam, precisamente, a nacionalização dos grandes meios de produção, a redução do horário laboral, ou redistribuição generalizada da riqueza, por exemplo. Daí que se possa concluir que a Democracia pode ser tudo, mas não pode ser Democracia Socialista. Isso já ultrapassa o admissível pelas boas consciências democráticas da Direita, seja ela "Conservadora" ou "Liberal".
Como escrevi neste blogue anteriormente, a América Latina é o grande laboratório das alternativas à Esquerda no século XXI. Não é por acaso que Chavez ou Morales são atacados, boicotados, difamados, de tal modo que, daqui a uns tempos, já a novilingua da "Direita Liberal" conseguiu fazer passar essa extraordinária asserção de que a Venezuela é uma "ditadura". Seria conveniente não cairmos nós próprios nessa esparrela.

13 comentários:

Tárique disse...

... este projecto tem algo que por si só me repele: a possibilidade de eleição ad eternum do presidente.

... consagrada já nas leis da Itália, França, Reino Unido, Austrália, Canadá, Japão ...

Anónimo disse...

O Hugo Chavez eh um Narcisista Leninista. Felizmente que o povo venezuelano disse-lhe o que o rei de Espanha ja lhe havia dito: "porque no te calas?"
Duvido que o narcisita-leninista se cale. Tem a bencao de gostar da sua propria voz e das suas bocas. Como todos os leninistas SABE que tem as respostas para todos os problemas da humanidade. O proximo passo sera demitir o povo...
ps por qualquer razao nao consigo acetrar com o meu pass word. Daih o anonimo. Jota Esse erre

Anónimo disse...

Por ser narcisista até lhe chamam Ego Chavez

André Carapinha disse...

«... consagrada já nas leis da Itália, França, Reino Unido, Austrália, Canadá, Japão ...»

Não estou a dizer que gosto das leis da Itália, França, Reino Unido, Austrália, Canadá, Japão.

« O proximo passo sera demitir o povo...»

O Povo venezuelano não partilha da tua opinião. Por alguma razão o elegeram.
Aliás, quem desrespeita o povo venezuelano é quem faz pouco da sua escolha livre. Aí há duas correntes: a absurda ("é uma ditadura, a oposição é amordaçada", vide Dana Perino) e a nojenta ("são só os pobres que votam Chavez", onde está implícito serem os pobres uns pobres ignorantes, incapazes de entender os seus interesses. Opinião que não partilho, de todo)

«Como todos os leninistas SABE que tem as respostas para todos os problemas da humanidade»

Pensei que estavas a falar do Bush, do Blair e dos neo-cons em geral, e das suas teorias de "exportar a democracia".

Pitigrili disse...

Chávez não admitiu a derrota, mas sim a vitória do "no".
"Para mí esta no es una derrota. Es un por ahora. Lo he preferido así. Ha sido mejor así".
El presidente de Venezuela, Hugo Chávez, dijo que seguirá batallando por establecer el socialismo en Venezuela y que su propuesta de reformar la Constitución sigue "viva", pese a los resultados del referendo.
"Nosotros hemos sabido convertir aparentes derrotas en victorias morales que después se convirtieron en victorias electorales", reflexionó el mandatario. "Seguiremos trabajando, haremos el esfuerzo más grande para lograr la máxima inclusión social, la igualdad como principio del sistema, ya buscaremos la manera", añadió.

CresceNet disse...

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Anónimo disse...

Quem gosta de lembrar o Rei de Espanha são os masoquistas quem têm saudades da ditadura. Ao Povo ninguém cala a voz. A Voz do Povo é eterna. Hugo Chavez mergulha as suas raizes no povo que lhe dá a força que ele tem.
Qual a legitimidade do Rei de Espanha? Foi colocado no poder pela ditadura fascista de Franco.
Só a recordação dos milhares de mortos de "Por Quem os Sinos Dobram" é que cala o Povo Espanhol.
JCM

Anónimo disse...

JCM, para ti, e à portuguesa que é mais giro, " porque é que não te calas " ! A ditadura do Chavez lava mais branco, e com laivos de tropicalidade, é do melhor. !Esse discurso do povo, da voz, da força, blá, blá, é igual ao que foi utilizado pelos Pol Pots deste mundo, da Ásia à África. Desses fdp, mais não, obrigado. JCM, a Venezuela precisa de gajos como tu ! Junta-te à revolução do século 21.

FernandoRebelo disse...

Não me interessa o homem, interessam-me as suas ideias e a maneira como as põe em prática.
"Con los pobres de la tierra
quiero yo mi suerte echar..." José Martí.
A América dita Latina tem (des) vivido um calvário desde há quase 6séculos. Que ninguém se sinta autorizado a mandar calar alguém.
Quando a África,a sair da letargia a que as potências coloniais a votaram, fizer ouvir a sua voz alguém se sentirá incomodado.
Ninguém se incomoda com Bush, com Blair, com Sarkozy, com Sócrates.
Deixem o Chavez em paz. Não lhe ponham rótulos.
Em 11 de Setembro de 1973, Allende morreu em La Moneda, Santiago do Chile, na defesa da legitimidade democrática do seu mandato presidencial. Semanas antes, na mesma cidade, ocorreram manifestações contra Allende. Nomeadamente,uma das 'domésticas' que saíram para a rua a bater em caçarolas.
Hoje,sabe-se o quanto os serviços secretos americanos trabalharam para derrubar Allende.
Continuamos de olhos tapados?...

Anónimo disse...

O Rei de Espanha não mandou o Hugo Chavez calar-se. Perguntou-lhe porque é que não se calava, coisa abissalmente diferente. Os homens que não se interessam pelos homens mas que se interessam pelas ideias esquecessem-se ou fazem-se esquecidos que o problema não são as ideias, mas sim os homens que fatalmente que as tentam por em prática. Um deles na história recente de Portugal, debaixo do guarda chuva da recém criada democracia pluralista portuguesa para mandar calar a reacção, dizia que lhes partia os dentes. Reprovável em todos os sentidos, até no estético, e muito mais grosseiro que o Rei de Espanha. África ? Letargia? Potências coloniais? Os africanos estam a acordar agora de um pesadelo ainda maior que as potências coloniais, após os anos de influencia da URSS em áfrica depois das descolonizações, continuando infelizmente os sociais fascistas da China, (grandes ideias e maus homens,!!!!!!!!!, ou as menos boas ideias..!! ), a acabar o trabalho da ex-URSS, actuando com uma voracidade inarrável sobre os recursos minerais de África, fazendo crimes ambientais horrendos, e vivendo em ghetos para evitar todo e qualquer contacto com as populações, melhor o povo que inspira as grandes ideias.. Bush, Blair, Sarkozi, ainda bem, porque os homens que praticam as suas grandes ideias, proibem toda e qualquer liberdade de expressão, com forte possibilidade de lhe partirem os dentes..CIA, Allende, panelas, tenha dó...Dejá vue muito batido...

FernandoRebelo disse...

Um anónimo é um anónimo é um anónimo...
Não é nada.
Nem dentes tem, nessa sua condição de não - Ser.
Nem panela, nem nada.
Não conta, porque não dá a cara que não tem.
É o anónimo.
Uma batina sem nada dentro...
Um nada que opina sem dar a cara.
É por isso que eu não gramo a Internet...

Anónimo disse...

Tu não gramas a internet, e eu não gramo os comunistas. Estamos quites. Para além de serem muito previsíveis quando acossados, a máscara cai muito rapidamente,
e a verdade vem ao de cima, ou seja queres é o "homem" e não as ideias e o seu debate, como tão pomposamente iniciaste o teu post das 11:55 PM. "Não me interessa o homem, blá, blá. É só fachada, e típico de um bom e leal social fascista, que nunca poderá controlar a internet e quem a usa. Por isto é que odeias isto. Uma das tuas frustrações como bom comunista que deves ser.

Anónimo disse...

Guernica não é uma máscara. Só não se responde às provocações por razões de têmpero cultural. Até o famigerado Pinochet que tanto matou morreu debaixo de prisão com ou sem Internet a luta continua e os colonos deixaram de ter um assento próprio em combóios exclusivo de brancos. Se mais nenhuma conquista tivesse sido alcançada esta, só esta, era razão suficiente para cantar. E que bem que cantam, tocam e dançam os Comunistas. Sem eles a vida não teria sentido. Foi e é graças à luta dos Comunistas que hoje podemos saborear algo que pertencia exclusivamente aos latifundiários e aos donod do Capital.
JCM