terça-feira, 25 de dezembro de 2007

Da Capital do Império

Olá,

É 24 de Dezembro à noite e estou a escrever-vos algo que já deveria ter feito há alguns dias atrás.
Escrevo para vos dizer que eu cá sou de opinião que o Natal deveria ser como os jogos olímpicos – só de quatro em quatro anos.
Por várias razões uma delas sendo que acho desnecessário lembrarem-me todos os anos o que é viver na Coreia do Norte. Todas as vezes que ligo a rádio só tenho música de Natal. Na estação de rock, na estação de “oldies”, na estação de música clássica. Fui outro dia a um centro comercial que tocava música de natal pelos corredores e depois cada loja tocava também a sua própria versão de música de Natal. Estive quase a fazer uma americanice e ir à loja de armas da esquina comprar uma Glock e abrir fogo sobre os altifalantes.
Na Coreia do Norte claro está não se tem música de Natal mas quando ligam a radio só ouvem música ao “querido leader” que segundo ouvi outro dia deverá ser promovido em breve para “grande líder”. Também não há lojas que vendem Glocks
No Natal nós também temos um “querido líder”: o Pai Natal. Um amigo meu imigrante disse-me que quando um avô veio da China visitá-lo há cerca de 10 anos atrás tinha ficado convencido que o Pai Natal era “um dos vossos deuses” tal como o “Querido líder” Ele não acreditou nessa história do Pai Natal ser para as crianças perguntando: “É um Deus só para as crianças? Muito interessante”.
Os americanos adoram o Natal embora ao contrário de vocês aí do outro lado do charco não tenham subsídio de Natal. Alguns recebem bónus mas aqui nada de socialismos. Isso esta geralmente reservado à malta da Wall Street (the masters of the Universe) e aos directores de companhias. Alguns americanos reagem com risos nervosos quando eu lhes digo que ai toda a malta recebe um salário extra pelo Natal. Outros acham muita piada e dizem: “Good idea. Money for nothing”.
Nos Estados Unidos claro está que do ponto de vista económico se o Natal não existisse teria sido necessário inventá-lo. Isto porque como vocês sabem o consumo é a principal componente da economia Americana e o período de pouco mais de um mês que antecede o dia de hoje é seguido pelas páginas de finanças e “business” dos grandes jornais com mais detalhe do que os ecolotontos seguem as temperaturas na Groenlândia. Se a malta não compra a economia vai passar mal. É comprar vilanagem!
Sempre que ouço isso lembro-me da minha sogra (paz à sua alma). Era o tipo de mulher prática. Contabilista de profissão. No Natal só dava prendas “práticas”. Os netos recebiam sempre meias e cuecas porque “são coisas que são sempre precisas”. Os desgraçados ficavam sempre com um ar enjoado a ter que dizer “obrigado vovó”.
Eu estive sempre à espera do Natal em que ela decidisse oferecer aos miúdos pilhas porque “são coisas úteis para os brinquedos”. Na minha imaginação as pilhas seriam acompanhadas de uma nota “brinquedos não incluídos”, mas para minha desilusão isso nunca aconteceu. Até ao fim ficou-se pelas meias e cuecas.
Antes de terminar tenho a dizer que hoje fui à minha lavandaria do costume buscar um casaco e que a imigrante coreana que é dona da loja - (todas a lavandarias são de coreanos aqui na capital do império) - me disse que gostava muito do Natal. O Pai Natal e “as luzes”.
“São as luzes que eu gosto”, disse -me ela num inglês quebrado. “It’s like Disneyland”. Fiquei a pensar nisso. A disneyficação da religião. Fiquei também a pensar num gajo qualquer que ouvi na rádio a ser entrevistado e que disse gostar do Natal porque é altura do ano para nos embebedarmos.
Eu cá vou agora buscar a minha garrafa de single malt. Para ficar predisposto a uma canção de Natal.
Boas entradas.
Da capital do império,

Jota Esse Erre

4 comentários:

Táxi Pluvioso disse...

Pode ser money for nothing, mas aqui não há chicks for free. São caras pra donkey.

Ana Cristina Leonardo disse...

Um prazer ler. Mesmo quando o Natal é o tema dominante.

europeu disse...

É curioso ver até que ponto vai o deslumbramento dos asiáticos e de outros aí na terra do Pai Natal, embasbacados pelo consumo quando este atinge o seu pico. Para nós europeus, essa coisa das luzes à Dysnelandia cheira a piroseira.
Por aqui, reencontrar familiares ou amigos à volta do “velho” bacalhau, tudo regado por uma boa cepa, ainda é a imagem da época. Coisas de uma Europa velha mas com alguma sabedoria.
Só uma correcção: nem todos os que trabalham por estas bandas têm subsídio de Natal.
Bom ano, caro blogger!

Anónimo disse...

Caro S.R.!
Que te tenha sabido bem o single malt, e em vez da musiquinha do natal, que tenhas curtido uma boa rocada!
Queridos amigos:
boas meias e cuecas,
duracel p'rós brinquedos,
muito ruído de luzes,
toneladas de bacalhau,
(bem regadinho!),
mais subsídios e consumo
e que um dia o charco seque
para que o "europeu" possa regalar-se com um Império ainda maior!