domingo, 16 de dezembro de 2007

Mambo 33

Se o mundo é a parte avançada da minha casa, o que é a casa de cada um?
Sempre me intrigou a relação entre as estruturas e os seus habitantes, tanto quanto me surpreende o diálogo entre um corpo e quem o habita...

No período dos descobrimentos, já as casas parecem querer ganhar águas que as movimentem nesse sonho e por isso, têm a forma de barcos, virados ao contrário como que temporariamente recolhidos. (Madeira)
Para os lados de Montalvo, dos arrozais do Sado, existem as casas dos descendentes de escravos, que se estruturam numa sanduíche de madeiras e feno e em que a cozinha é situada ao ar livre, frente à casa, mostrando os doces hábitos africanos de ligação à terra, ao sol, à natureza, ao espaço. (Não consigo apontá-las ...)

No período da colonização dos Açores, o conceito de casa para lá transportado foi o dos habitantes para lá mudados, casas do sul, do Algarve, em que a diferença mais notória era a chaminé que ganhara a forma da chaminé de barco. Foto abaixo: Stª Bárbara/Açores; Piodão

A casa de influência árabe, revela-se sobretudo na cor branca e pelos seus terraços, onde os povos do deserto fixariam as estrelas, recolheriam água, desenvolveriam o estudo da geometria e matemática. foto abaixo: Loulé

Também existem os Palheiros da Tocha que são construções de apoio à pesca.
Casas ligadas à pesca da sardinha, onde se guardavam as alfaias e redes e que a partir de 1930, com a valorização do verão como possibilidade de praia, passaram a ser casas de praia.
foto: abaixo: Palheriro da Tocha

Junto à linha fronteiriça, na época medieval, na zona arraiana (Sortelha, Sabugal, Almeida…) aparecem as casas que se têm que moldar à geografia interior do Castelo que protegia a aldeia, em defesa dos inimigos de Castela.
A casa romana, no período neolítico, já traduz o surgimento da agricultura e a posse da terra, significa a sua divisão entre os homens, passando a ser rectângular a forma de distribuição dos terrenos e das próprias casas. A forma da mulher na arquitectura deixa de ser eloquente, num tempo patriarcal. casas foto abaixo: Piodão; Sortelha

Já as casas em redor das cidades, por exemplo em Mafra, sofrem influências orientais japonesas e chinesas, configurando os seus telhados em forma da cobertura dos pagodes, onde parece que existem no seu desenho, asas a aconchegarem-se no ninho.
foto abaixo: Mafra
Por exemplo, explica-me Justino Brito, a casa Celta (Briteiro), circular, primitiva e pertencente ainda a um período de matriarcado, onde a forma da mulher grávida era o símbolo de fertilidade, tem o seu telhado em forma de seio e na sua fachada dois braços de pedra que serão os braços acolhedores com que a mãe estreita o seu filho ao amamentá-lo. Este tipo de casa primitiva era um ponto de apoio à maternidade. foto abaixo: Soajo; Briteiros; Tourém



Os pés em desatino domingueiro, estacionaram-me em frente a um estendal de feira, para que o olhar pudesse sair e deliciar-se com pequenas amostras de diferentes casas, no rectângulo da península Ibérica.
Num enorme vertical e linear mapa, lá estavam aplicadas nas suas três dimensões, as diferenças na arquitectura popular portuguesa, reproduzidas por hábeis mãos e rigorosa e curiosa mente conjunta.
De admirar, que este casal português que desde 1980 trabalha estes temas, Justino Brito e Teresa Taveira, não sejam amplamente apoiados e convidados para as escolas e com contrapartidas (claro!!!) para palestrar sobre o seu saber, investigação, produção; seria belíssimo para os alunos à disciplina de História, Filosofia, Psicologia, História de Arte e Desenho, no mínimo, matutava eu enquanto gulosamente sorvia aquelas histórias todas, que amavelmente me iam chovendo, encharcando-me dos encantamentos... da Península e dos seus perfumes de viagens, ancorados na casa Portugal.

meia.cana@oniduo.pt
http://www.meiacana.org/
Exposição na Galeria Municipal de Quarteira em Abril de 2008.