segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Casório





Sois tão poderosos que fazeis mentir os vossos espelhos!

Esclareça-se: o objecto acima é o bolo de noiva de um casamento recentemente celebrado na Matola (ex-Cidade Salazar, já agora…), nos arredores de Maputo. Quem não conheça o Moçambique de hoje poderá supor que estamos perante a abordagem gastronómica de um tema recorrente da pornografia: a noiva que os convidados comem, a consumar o casório. Mas não. Essa fantasia pressupõe uma generosidade de que a nova burguesia moçambicana é obviamente incapaz.
Esta escultura doce não é uma doce escultura. Sabe à arrogância e à violência do novo-riquismo mais boçal, única afirmação cultural de uma classe à deriva entre dois mundos. Já não são pretos mas também não são brancos. Venderam a alma ao diabo para matarem a mãe (Teimosa, embaraçava toda a gente com a mania de receber os mulungos de capulana!) e comprarem outra. Digital, topo de gama, tás a ver? Mas na troca o diabo, que não dá ponto sem só, trocou-lhes as voltas, e numa Metamorfose versão tropical, acordaram com cauda e gosto pela imitação, macacada patética tomou por missão histórica o empenho em aprender a fumar cigarros e a bater punheta em troco de uma banana.
As reviravoltas da História permitiram o mais desenfreado arrivismo, mas no topo do bolo estão os mesmos que António Enes, na sua abissal ignorância, acreditou erradicar. Coitado! No espaço de um século, os aristocratas bantos passaram de sobas a comissários políticos e logo a seguir a neo-liberais, com a mesma lata, o mesmo jogo de cintura, e a mesma tropical indigência. Vale tudo, no reino da grunhada. A aristocracia pré-colonial adaptou-se aos novos tempos, sentiu-se em casa no colonialismo, no neo-colonialismo, na globalização, e em tudo o mais que os bonecreiros vão arranjando para o upgrade do saque. Hoje, para exportar alfaces para a UE, o horticultor moçambicano tem que obedecer a 270 requisitos. Leram bem: 270 requisitos!!! À beira disso, o que é a ASAE?
Está lá tudo. Das bochechas nutridas da noiva às extensões do cabelo, passando pelos brincos, a tiara e a gargantilha, estão lá todos os sinais exteriores da opulência atirados à cara da miséria mais negra, das putas impúberes da Marginal, dos deslocados que dão emprego ao Guterres, dos balseros, dos molwenes que amanhã irão disputar a murro, entre si, os restos da boda no caixote do lixo.


José Pinto de Sá

22 comentários:

Anónimo disse...

Vá lá que a metamorfose do Gregor Samsa ainda servia para alguma coisa: escapar àquela vida comezinha de caixeiro-viajante. Agora a destes, a quem voltou a nascer a cauda depois de cortada, mostra que estamos (só) perante uma grande macacada.
Ora então, venha de lá mais 1 punheta!

Anónimo disse...

Belíssimo!
Abraço, José.
J.F.

FernandoRebelo disse...

Grande post!
Um abraço.

Anónimo disse...

Quem previu isto e muito mais há umas dezenas de anos atrás, era imediatamente apelidado de reaccionário e fascista. Moçambique hoje está cheio de mini Bokassas, com o beneplácito do Bokassa Mor que goza como ninguém a Ponta Vermelha. A escola africana no seu melhor. Deus é Grande !

AZUL DRAGÃO disse...

EXCELENTE !

FernandoRebelo disse...

Acrescento:
o escândalo é tão grande quanto termos uma Ministra da Educação de um Governo, dito Socialista, a destruir o Sistema de Ensino Público!
Não leram Tom Sharpe, Sue Townsend e etc.

Anónimo disse...

Estou de acordo quanto à ostentação de uma outra pobreza mais custosa de sarar, porque sem o oxigénio de valores que se aprendem também pela educação. Mas, fiquei a matutar sobre a insignificante diferença entre os imitadores e os imitados (os que pretendem só alguns outros terem tido afinal um dia, cauda)e que por nunca talvez se terem preocupado com a educação do povo moçambicano, durante séculos, agora tão desacertadamente apontarem o dedo ao que quer que seja, ainda que parecendo menos errados.
Gabriela Ludovice

Esclareciemnto disse...

Machel disse um dia metaforicamente que o “macaco cortou a cauda e pendurou-a como bandeira”. Um simbolismo no entusiasmo da independência. Na Metamorfose versão tropical a que o autor do texto se refere, a cauda voltou a aparecer…
Que todos nós vivemos num Planeta de Macacos, lá isso é verdade, cara Gabriela. Vale-nos a fantasia.

jota esse erre disse...

"Ja nao sao pretos mas tambem nao sao brancos". Perigoso. O que eh ser preto? ou como diria o Machel ao Ver o Shobuza engalanado de peles, penas, lanca e escudo:"O rei veste-se assim para dizer que eh preto?"
Ou por outra: Se os noivos estivessem "vestidos ah preto" a comer comida africana tradicional ("dos pretos"?) mas a gastar a mesma massa e a serem corruptos "sem imitacoes" isso seria aceitavel?
Mau gosto? talvez. Piroso? talvez. Reflexo de desigualdades chocantes de uma nova realidade? talvez.
Nao sao pretos mas tambem nao sao brancos? nao sei.

C. Indico disse...

Os putos de cá também imitam os pretos americanos. Os grandes de cá imitam os brancos americanos.
É uma questão de Grau de Desilusão, ou de espelhos enviesados.
Dá mais revolta quanto maior foi o sonho.

zemari@ disse...

A única coisa de que tenho a certeza é que a Terra vista do espaço é azul.

Anónimo disse...

Fico muito preocupado quando ainda se tem a distinta lata de invocar no século XXI e com o hoje sabemos, a "educação do povo moçambicano", numa mal disfarçada vontade de branquear o que não é branqueável. Os "Dos Santos , Guebuzas, Kadhafis etc, etc", contam sempre com estas consciências ocidentais que sentem mal nas suas peles, para perpetuar e justificar os seus actos.

zemari@ disse...

Talvez valha a pena lembrar que a actual crise financeira (a chamado do "subprime") é resultado de uma prática de pirâmide tipo da D. Branca ou da que foi montada há anos na Albânia.

Os empréstimos eram feitos àqueles que os próprios bancos denominavam por "ninjas": no income, no job, no assets. Fizeram-se montanhas das chamadas "hipotecas ninja."

Ninguém regulou o mercado. Todos participaram.
Ninguém esperava outro resultado (era sacar até secar) e como sempre, alguns ganharam milhões de milhões.

Os ninjas ficaram pior que o ultra-lesionado Derlei e nós não sabemos quanto nem quando vamos pagar, porque estes D. Branca não vão para as Mónicas.

zemari@ disse...

O carteiro (e eu trabalho nos CTT) toca sempre duas vezes:

Podem ver uma síntese que acho bem feita em:
http://clipping.planejamento.gov.br/
Noticias.asp?NOTCod=343447

"Calote em mercado de US$ 1,3 tri põe à prova saúde da economia dos EUA"
por Patrícia Campos Mello
in "O Estado de S. Paulo"

É de Março mas, infelizmente, não perdeu actualidade.

anishtivi disse...

Caro.
Acho bastante infeliz que faças julgamentos destes.
Cada um é como cada qual..
Nao só insentivas pensamentos recistas (claramente indusidos..ou catapultados) como tambem mostras uma enorme arrogancia intelectual..
Nao acho minimamente bonito o tema do bolo, mas, acho que é uma cena altamente privada e como tal, tem que obviamente estar ao gosto dos mesmos..
Sorry, mas estiveste muito mal neste teu infeliz post..
Viva a piroseira..(o que seria do azul se...)

Gabriela Ludovice disse...

Há realmente coisas que não são branqueáveis, fico feliz! A cor acinzentada dos elefantes, por exemplo.

mummy disse...

Também não gostei dessa de brancos quase pretos e de pretos quase brancos. Que importa a cor dos celebrantes? Se fossem brancos já era aceitável?

Anónimo disse...

Nem a cor de burro quando foge também não é branqueável, nem os pretensos grandes educadores do povo de má memória, que para minha tranquilidade, já têm uns palmos de terra em cima.

José Pinto de Sá disse...

Usei "pretos" no sentido samoriano, e acho tristonho estarmos sempre a voltar à vaca fria. Não podemos falar a sério? E, já agora, à vontade?

xatoo disse...

Quem estudou a Luanda pré-colonial sabe que a escravatura já estava muito bem implantada quando os brancos chegaram. Eram vulgares as expedições dos Sobas do litoral ao hinterland para caçar escravos para as ricas casas reais do litoral.
Com o colonialismo apenas fizeram o up-grade do negócio.
Passados séculos a tradição mantêm-se.
Ainda recentemente recolhi o testemunho de pessoas que viajaram até Angola e que vinham escandalizadas com a desumanidade com que os pretos ricos tratam os pretos pobres. A última moda são os SUV,s americanos que gastam 30 e tal litros aos 100 (que os americanos já não querem) e com esses simbolos se vai fazendo o contraste com os desgraçados que não têm outra saída senão roubar ou alimentarem-se dos caixotes do lixo - de cujas imediações são escorraçados pelos seguranças que nem cães.
Isto não tem remédio. Já lá dizia a Rosa Luxemburgo (antes de ser assassinada), Socialismo ou Barbárie!

Gabriela Ludovice disse...

Em Belém, frente ao palácio da Presidência, também há caixotes do lixo que recebem alvas mão em buca de algo, também há sem abrigos que dormem nas ruas, debaixo das varandas onde antes ancoravam os barquitos, também há miséria que não se fotografa nem se leva para o resto da Europa como sendo um grave rosto de Portugal... Todas as noites, tropeço nessas fragilidades ao subir p o meu confortável apartamneto, às vezes torno a descer para lhes acrescentar calor.
A desumanidade está por todo o lado... e é natal! Será que haverá algum bolo grande na casa do nosso respeitoso cota Cavaco?

José Pinto de Sá disse...

Cuidado! Foram "fragilidades" dessas que fizeram perder a cabeça à Maria Antonieta. Imutável mesmo só o Tao. O único programa mínimo é querer tudo. Senão, acabamos encurralados na escolha entre o Sócrates e o Menezes, entre o neo-liberalismo e o socialismo burocrático, entre a hiena e o chacal. Livra! Sejamos realistas, exijamos o impossível!