quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Uma carta à atenção das editoras

Armando,

Sobre os livros estive a verificar nas agendas e não mandei para a Antígona. Aliás este ano só mandei para a Guerra & Paz mas o nosso amigo e colega de sucesso nem respondeu.
O “Corpo de Intervenção” não é publicável. Aquilo está para além de tudo o que foi escrito. Ninguém escreve assim sobre juízes, polícias e padres e não sofre uns quantos processos judiciais.
A brigada da PJ que se enraba quando resolve um caso, a lei do enrabanço para resolver o problema da droga em Portugal, que põe os juízes em frenesim sexual nas boites, as miúdas aos treze anos desfloradas para não nascer outro Cristo, a prostituição como escolha profissional digna, a substituição do sangue pelo esperma de Cristo, enfim, é um ataque frontal aos valores mais queridos da Civilização, no seu estado perfeito, que hoje vivemos.
Eu creio que ficou bem escrito. Peguei no lixo produzido pela Humanidade, (chamam-lhe Cultura), e juntei tudo num sítio, como fazem os artistas plásticos que querem chocar. O livro é mais influenciado por Damien Hirst que por qualquer escritor, excepto, Sade (na destruição da moral de “Justine”) ou Jarry (no absurdo das situações). Tentei criar algo usando o lixo que é produzido diariamente. Muitas frases e situações descritas sucederam de facto noutros contextos.
O livro é uma declaração política num mundo absurdo e ridículo. Viste como são usados os serviços secretos? Para a guerra do Iraque, sex up a informação, para colocar bombas nucleares escondidas no país. Agora, como é preciso refrear os ânimos contra o Irão, aparecem a dizer que o programa nuclear foi interrompido. E salvaram os políticos americanos que não têm capacidade, militar e psicológica, para outra invasão. Isto é simplesmente ridículo.
A “Cruzada Para Converter Bagdad Ao Cristianismo” é mais ou menos a mesma coisa mas sem os palavrões. Acho que o final ficou bem composto e glorifica o nosso querido Portugal. Mas a utilização de parênteses curvos e rectos retira-o do conceito de literatura actual que faz sonhar e viajar o leitor.
“As Doze Cadelas” é uma ode à noite de Lisboa. Que só existe por causa da rotação da Terra, e não porque seja um lugar de divertimento, cheio de propostas interessantes.
Tenho mais um escrito sobre um agente secreto português que vive uma aventura absurda para glória do nosso querido país. É mais uma paródia ao cinema que uma obra literária.
Claro que escrevi tudo isto sem Internet. Usando os livros que me restam, a enciclopédia e, sobretudo, os meus apontamentos. É possível que necessitem de um aggiornamento.

Um abraço.

Maturino Galvão

PS:
Os desenhos vão demorar um pouco. Estas festividades produziram pouca matéria-prima. Vou escrever o próximo post, um conto de fim de ano, esperando que haja uma guerra em 2008, e depois vou ver o que se arranja.
Podes publicar o que quiseres. Não sei se a linguagem será a mais apropriada. Joyce fez com o “Ulisses” uma colagem do seu tempo. Eu com o “Corpo de Intervenção” fiz a mesma coisa. Mas os tempos são outros. Misturei pintura, arquitectura, cinema, música, Direito, Criminologia, História, banda desenhada, desenhos animados, telenovelas, Psicologia, Física, publicidade etc. numa colorida estória nacional. Que deu a Lisboa um peculiar cheiro – o do cadáver do seu padroeiro, S. Vicente.

2 comentários:

Manuel S. Fonseca disse...

Maturino,
O amigo e colega de sucesso penitencia-se (não se vegastando, todavia) pelo silêncio. Que terei todo o gosto em (in)explicar pessoalmente, logo que possas. Aproveito para mandar um abraço a ex-colegas e amigos que vejo serem so-autores do blog. Outro para ti.

Armando Rocheteau disse...

Manuel:
Agradeço-te a visita, recebo o teu abraço e aproveito para te desejar um Bom 2008. Abraço.