domingo, 23 de dezembro de 2007

O Aifaife em meio rural - um tesourinho deprimente

No Youtube há de tudo, sobretudo a exposição nua e crua das mais bizarras cenas. Não se trata já dos cinco minutos de fama ‘warholianos’ mal interpretados, trata-se de achar que tudo, mas mesmo tudo, tem o direito a globalizar-se e ficar ao alcance da curiosidade de quem passa.
Passo a relatar e quem quiser que procure:
Cena de ‘buliyng’ junto ao gradeamento de escola (3º ciclo, aventuro eu, embora o aspecto físico das intervenientes não possa esclarecer muito...), filmada como convém. A Marília ( a morena ) começa a cena agredindo a Catarina (aparentemente loira, a dar para o ruiva.) – Hollywood em série B...
O ‘acting’ inicial é mais que óbvio, ela (a Marília) queria que a cena ficasse registada.
Pena foi que, a partir do meio, a coisa descambasse para um nível de improvisação muito próximo de um mau exercício de Expressão Dramática.
Pois a dita Marília chega com uma conversa que, a princípio, não se percebe bem, mas que logo se começa a ver que aquilo são coisas de namoros e ela vem em defesa da suposta infidelidade do namorado com a dita Catarina.
É o Portugal do telemóvel, do aifaife e do iútube, pelo meio da cena passa um tractor, uma velhota trajando quase exclusivamente de preto. O que destoa, no meio deste décor, são os contentores para a reciclagem e expressões como: “Olha que ainda vais para o Conselho...” (leia-se Conselho Directivo ou Executivo de uma Escola), “vamos falar à DT” ( leia-se eu vou levar este assunto de te ter dado porrada à porta da escola por achar que o meu namorado afinal não é tão fiel como eu pensava e vou dizer à Directora de Turma que tu levaste o meu namorado a trair-me...). É algo de incoerente e, decididamente isso explica por que razão o nosso Cinema continua tão por baixo.
Pelo meio, escutam-se as reacções alarves da equipa encarregue de registar o acontecimento, perpassam expressões como “fixe” sempre que a Catarina (a loira) recebe mais um encontrão ou uma chapada da Marília e escutam-se risos guturais de quem se diverte muito com uma cena que nunca teria cabimento num país civilizado.
Não sei como poderá ter acolhimento junto das autoridades competentes um vídeo de quase cinco minutos como tem aquele a que me refiro; é um documento vivo e pertinente daquilo que temos um pouco por todo este país.
Os nossos alunos usam as novas tecnologias, são ousados no trajar (quem destoa, no meio daquela cena, é a velhota que passa e se alheia da confusão). Do mais profundo Portugal até ao Youtube vai a exposição de um atraso visceral, deprimente.
Eu tenho estado a escrever sobre Educação, caso não tenham reparado. Sem usar aquele jargão que costumamos encontrar nos textos que tratam deste assunto.
Civismo, respeito pelo outro, solidariedade, tolerância – são, de uma forma geral, alguns dos termos que passam ao lado de quem frequenta o nosso Ensino público actualmente. Saber ser, saber estar, são expressões vazias. Se o Ensino implica a Educação, ou seja, saber aprender mais saber ser e saber estar, então o nosso sistema de ensino público anda pelas ruas da amargura. Não ensina, não educa e não forma. A Escola pública era a última esperança de uma transformação em termos de mentalidades, e essa esperança começa cada vez mais a desvanecer-se.
Gentes, cada vez mais boçais e broncas. Manadas sujeitas às leis naturais, manadas individualistas e egoístas – cada um(a) se achando o (a) melhor -, alarves e grosseiros.
Da Escola não esperam nada e esperam tudo.
E é aqui que reside o problema...

1 comentário:

Táxi Pluvioso disse...

A escola nunca ensinou nada. Agora o recreio é outra conversa. É lá que se aprende o que é a vida.

(Saber defender-se é a base de toda a convivência social. E, se somos fracos, criar amizades com os mais fortes, para que nos defendam. Chama-se política, no sentido estrito, e, também, vida na polis).