quarta-feira, 16 de junho de 2010

Notas sobre o choque e o espanto no Mundial da vuvuzela


Hipnotizados por um zumbido insuportável que não se cala um minuto durante a fatídica hora e meia, os jogadores vão trocando lentamente a bola, indiferentes ao objectivo principal do belo jogo. Dir-se-ia estarem em transe, incapazes de recuperar a lucidez futebolística tantas vezes demonstrada. Um golo, neste Mundial, já se viu, acontece por acaso, quase por dádiva, quando é a vez dos defesas entrarem no sono profundo que lhes é soprado das bancadas.
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O único jogador que ouvi falar bem da vuvuzela foi o David Villa. Nem de propósito a poderosa selecção espanhola acaba de perder com a operária Suíça, depois de uma parte inteira narcotizada pelo zumbido.
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E Portugal? Há que compreender os nossos rapazes. Não é fácil jogar sem treinador. Os jogadores têm "posições", e esse é o maior problema. Estáticos, agarrados aos vinte metros em que o treinador os mandou ficar, parecem actores em rígidas posições de "três quartos" naquelas peças mal encenadas do teatro amador. Perceba-se a diferença: enquanto a Espanha passou um jogo inteiro a circular a bola, Portugal não consegue ligar dois passes. A vuvuzela não explica tudo. Deco está fora de forma, mas onde está o jogador para o substituir? Ficou em Portugal. Liedson joga abandonado entre os centrais, mas se naturalizaram o escanzelado goleador lagarto, não deviam saber que as suas qualidades de rato de área exigem um outro avançado ao lado, para lhe abrir os espaços? Tudo parece feito por acaso, sem método, desde o primeiro jogo da qualificação, e é este treinador apelidado de "professor" e de "grande especialista em métodos de trabalho". Entretanto, o Nani e o Deco lançam declarações incendiárias: os jogadores não são parvos, e estão a perder a confiança no seleccionador. Oxalá me engane, e Portugal tem jogadores para, mesmo perante uma derrocada do colectivo, conseguir resolver jogos individualmente, mas tudo isto me cheira demasiado a oliveirinha e de menos a um certo treinador brasileiro, tão criticado, que levou Portugal aos melhores resultados da história do seu futebol.

1 comentário:

Táxi Pluvioso disse...

Que nada! Portugal vai vencer o Mundial! e vai vencer a situação económica, também.

A vuzuzela deveria ser incluída como instrumento tradicional no Fado, Carmino, Camané, e outros "cês" ficariam muito melhor acompanhados de vuvuzela.