terça-feira, 8 de junho de 2010

Construir uma nação: ideologias de modernidade da elite moçambicana, por Jason Sumich (5)

Na época em que tomou o poder, a FRELIMO gozava de um formidável grau de apoio popular, pelo que os seus líderes acreditavam ser capazes de mobilizar a população para o esforço heróico da modernização do país. Como se pode ver no estudo de Donham (1999) sobre os derg da Etiópia, grande parte do poder de atracção do comunismo para os movimentos radicais africanos não estava na eventual utopia prevista por Marx, mas nos exemplos concretos da URSS e da China, onde uma pequena mas determinada elite assumira o poder em nações agrárias «retrógadas», convertendo-as em potências industriais à escala mundial no espaço de poucas décadas. A maioria da população moçambicana acolheu com júbilo a conquista da independência, mas mostrar-se-ia mais ambivalente com a revolução social modernizadora da FRELIMO. No entanto, alguns segmentos da população acreditavam verdadeiramente no projecto da FRELIMO — sobretudo os mais jovens e, ironicamente, os mais ricos —, o que legitimava o poder do partido. Outros, porém, eram-lhe totalmente hostis. Apenas dois anos após a guerra da independência Moçambique mergulhava numa nova guerra. A FRELIMO apoiava o movimento de libertação da vizinha Rodésia e, em retaliação, o regime rodesiano dominado pela minoria branca constituiu um exército rebelde, a RENAMO (Resistência Nacional de Moçambique), composto por dissidentes moçambicanos. Após a queda do regime rodesiano e a declaração de independência do novo Zimbabwe, a África do Sul tornou-se o patrocinador da RENAMO e a guerra civil devastou o país, causando a morte de 1 milhão de pessoas numa população de cerca de 16 milhões. Muitos dos progressos reais do governo da FRELIMO em termos de educação e saúde foram destruídos. Apesar da sua brutalidade, a RENAMO conquistou apoios nas regiões mais hostis à revolução social da FRELIMO. Em algumas zonas, a RENAMO foi inicialmente recebida como uma força de libertação; noutras, porém, a população não tomou qualquer partido, mantendo-se indiferente a ambas as forças em conflito (Geffray, 1991; Hall e Young, 1997). Com base nas ideias de Cahen, Geffray defendeu que a FRELIMO habitou em grande medida um «país imaginário» construído sobre um sonho ideológico de futuro e que as tentativas de implementação deste sonho alienaram profundamente uma grande parte da população, permitindo à RENAMO — um movimento que começara por ser uma agressão financiada por fundos estrangeiros construir uma base social e embarcar em algo que viria a transformar-se numa verdadeira guerra civil (Geffray, 1991). Embora o trabalho de Geffray tenha suscitado um grande número de críticas, existe muita verdade nas suas ideias fundamentais(7). Contudo, há sempre o risco de se levarem demasiado longe tais ideias; temos de reconhecer que determinados elementos da ideologia de modernização da FRELIMO exerceram também algum poder de atracção sobre alguns sectores da população do país.
Independentemente do poder de atracção das duas visões em conflito, a verdade é que a nação moçambicana estava em crise. Em 1984, a elite do partido começou a compreender a gravidade da situação e a tentar distanciar-se das suas posições mais radicais — mas por essa altura era já demasiado tarde, pois a FRELIMO tinha já perdido o controlo sobre uma grande parte do país, mantendo-se firme apenas nas principais cidades. As tentativas de afastamento da ideologia socialista, iniciadas em 1983 e 1984, ganharam alento a seguir à morte do primeiro presidente, em 1986. Após o colapso da União Soviética, e numa tentativa para desconcertar a RENAMO «anticomunista», a facção pró-capitalista da FRELIMO ganhou ascendência e o socialismo acabaria por ser abandonado em 1989 (Pitcher, 2002). A paz chegou, finalmente, em 1992 e foi baseada num acordo para abandonar o sistema de partido único e adoptar uma democracia multipartidária capitalista. Embora a FRELIMO tenha vencido todas as três eleições que se celebraram no pós-guerra, em 1992 a impressão preponderante era que a sua ideologia de modernidade jazia despedaçada entre as ruínas fumegantes da nação.
Todavia, apesar de todas as mudanças, da passagem de um Estado socialista de partido único para uma democracia capitalista liberal, a ideologia de modernidade sobreviveu e continua a funcionar como uma afirmação de poder, ainda que tenha mudado de forma. Como fizeram notar Hall e Young (1997, p. 219), após o fracasso do socialismo no esforço de modernização do país, a elite do partido decidiu seguir o outro grande caminho para a modernidade — o liberalismo. O capitalismo neoliberal possui similaridades raramente mencionadas com o socialismo revolucionário, no sentido em que ambos têm presunções messiânicas quanto à sua capacidade de reformarem profundamente a sociedade e de criarem algo de novo (West, 1997). Na prática, ambos assentam também numa intervenção estatal maciça com vista ao estabelecimento das condições para a sua implementação (Hall e Young, 1997, p. 221). Embora existam divergências entre as facções rivais da FRELIMO relativamente ao modo de implementação da sua ideologia de modernidade, esta continua a constituir uma das bases do poder da elite. A ideologia de modernidade da elite nasceu como uma grandiosa tentativa de redefinição do lugar de Moçambique dentro da comunidade internacional. Após a queda do socialismo, esta tornou-se progressivamente um importante indicador de status e uma persistente reivindicação e afirmação de poder social por parte da elite. A capacidade das elites de se verem a si mesmas como «modernas» — dentro de uma nação que, segundo elas, o não é — permite-lhes afirmar a sua diferença, criando um sentido de identidade e de coesão. Até mesmo certos elementos do antigo conceito de homem novo sobrevivem actualmente entre os membros mais jovens da elite, ainda que sob uma forma muito diferente. Para o exemplificar transcrevo de seguida uma conversa que tive com uma jovem mulher de uma família de elite, durante a qual ela me transmitiu a sua visão pessoal sobre os principais problemas que afligem Moçambique na actualidade. Em sua opinião, a causa fundamental das dificuldades do país não era de natureza política ou económica, antes radicava na própria população:
O problema é que nós, negros, continuamos duzentos anos atrasados Isso vê-se em toda a parte. Quando chegamos ao poder, a única preocupação é encher os bolsos. O mais importante é a tua posição e os teus contactos. Quando as coisas correm mal, culpa-se qualquer coisa de fora, o Ocidente, ou os espíritos, o problema é sempre dos outros. Os brancos e os indianos podem roubar este país à vontade, nós damos-lho de graça. Se um negro abre uma loja numa zona de indianos, os outros indianos unem-se todos para o obrigarem a fechar as portas. Nós não somos assim, limitamo-nos a pedir dinheiro. Depois, se alguma coisa corre mal, vão a um feiticeiro para tentar perceber o que aconteceu. E não é só em caso de doenças, quer dizer, eles percebem de ervas e nesses casos a coisa talvez funcione. Vão ao feiticeiro por razões estúpidas, como problemas sentimentais. As pessoas acham que a magia pode impedir o parceiro de as trair. Ficavas admirado se conhecesses essas pessoas, pessoas que andaram na universidade, que têm estudos e que deviam ter mais juízo.
Uma vez mais, os problemas da nação resultam do facto de os seus habitantes serem «supersticiosos», em vez de «racionais». De facto, os principais alvos desta crítica são as pessoas que deviam estar mais perto do ideal do homem novo — aquelas que têm estudos e que deviam ter mais juízo. Embora a retórica e os métodos tenham mudado, esta jovem mulher parece continuar a acreditar nos objectivos gerais da ideologia de modernidade, se bem que não esteja certa de que eles tenham sido alcançados. Na secção seguinte analisarei o modo como esta ideologia é inculcada através de práticas educacionais específicas e o modo como as suas afirmações de poder social são apresentadas através de determinadas formas de consumo, particularmente entre uma nova geração que nasceu após a independência e para a qual o socialismo não passa de uma memória de infância. A meu ver, a ideologia de modernidade, nas suas formas em mudança, tem sido fundamental no reforçar da coesão da elite, bem como na abertura de novas oportunidades de expansão desse mesmo grupo, cujo poder assenta na sua ligação ao partido e, por extensão, no seu controlo do Estado.

(7) Para uma crítica em profundidade de Geffray, v. Dinerman (1994).

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