sexta-feira, 27 de abril de 2007

Memórias

A propósito da manifestação dos anarcas em Lisboa, e da carga policial que se lhe seguiu, vou contar uma história: há uns aninhos, quando eu era um bocadinho mais radical que agora, participei numa manifestação do mesmo génro no Porto. O objectivo era protestar contra a realização da cimeira da OSCE, em que se aprovaram várias leis limitadoras das liberdades individuais a pretexto da "guerra ao terrorismo".
A manifestação teve uma particularidade notável: deu-se às 7h30m da manhã. O objectivo, com o qual não estive de acordo desde o princípio, era "estragar o pequeno-almoço aos ministros". Tentar-se-ia manifestarmo-nos durante todo o dia. A essa hora, estiveram cerca de 50 pessoas em frente da Alfândega: algumas ainda dormiam.
A manifestação durou o tempo da descida dos Caldereiros à Alfândega, e mais um minuto em frente a esta. Ninguém insultou a polícia. O trânsito não foi cortado. Ao fim desse minuto foi vítima de uma brutal carga policial, efectuada por cerca de 100 polícias, de choque e outros. Fui preso, juntamente com mais dez pessoas, uma das quais a minha namorada da altura. Fui também agredido à bastonada, tendo ficado com um hematoma na perna do tamanho de uma bola de ténis.
Após varias e engraçadas peripécias na esquadra, todas com o objectivo de empatar ao máximo a nossa situação e levar-nos o mais tarde possível ao tribunal, fui ouvido ao fim de cerca de 10 horas detido. Acusaram-nos, como agora acusam os manifestantes de Lisboa, de estarmos armados com paus (que eram os cabos das faixas e bandeiras), de termos insultado e provocado a polícia, e de cortarmos a rua. As acusações foram arquivadas, e foi aberto inquérito à actuacção da polícia pela Inspecção Geral da Administração Interna, no qual testemunhei, mas de que desconheço o resultado. Tivemos a imensa felicidade de estar presente no local a câmara da SIC. Estive no total detido 12 horas.
Sendo estas as minhas memórias, não me é difícil acreditar na versão dos manifestantes. Acho-a absolutamente plausível e provável.

10 comentários:

André Carapinha disse...

Resta-me dizer que escreví uma carta para o "Público" a contar a minha versão in loco dos factos, em contraponto a uma reportagem indescritível que fizeram, e a contar com muita calma. Claro, não foi publicada.

Táxi Pluvioso disse...

Inquérito à actuação da polícia é apenas um slogan da sociedade democrática. Não quer dizer nada. Serve para dar um ar civilizado (we care a lot), distante do tenebroso fascismo, onde as polícias justificavam a sua actuação perante o ministro da tutela. Hoje é a mesma coisa, só que para não confundir, ou distinguir, criou-se a figura literário-policial do “inquérito”.

Para as conclusões do inquérito já existe uma minuta escrita: actuou com a força adequada à situação.

O hematoma é igual ao antes 25 de Abril mas a dor é diferente. Sofre-se como um hino à alegria.

Joana disse...

E os que não foram detidos, ansiosos em relação a quem tinha sido, passaram o dia sob olhares por detrás de jornais, de agentes bem à norte, rosados e de bigode.(-: "Em cada esquina um amigo" - cantava alguém.

Foi provavelmente dos dias mais surreais que passei. Talvez ajudado pela noite não dormida.

E para reter daqui algo que faça rir um pouco; valeu a descoberta de um sítio chamado "Os Passarinhos da Ribeira", que aconchegou a pré-violência, enquanto o sol nascia.

Abraço,

Joana

Anónimo disse...

Vivam os "Passarinhos da Ribeira"! Bom copo!!!
Manifestemo-nos, porque
não há razão para não acreditar na razão dos manifestantes! Coragem rapaziada. Força!

Anónimo disse...

Eu estava lá como transeunte e presenciei os acontecimentos. A polícia exerceu violência brutal, indiscriminada e pouco organizada (bateram em turistas, cães, e até polícias à paisana). A polícia fala (mente) de cocktails molotov mas não tem uma única imagem que o prove o que é estranhíssimo. As pessoas espancadas têm as marcas no corpo e os braços partidos para corrobar a verdade. Não há montras partidas, não houve nada roubado! A polícia carregou com toda a força sobre uma manifestação pacífica com a desculpa de grafities nas paredes. Já reparaste que nenhuma testemunha, fotografia ou video corroba a versão da polícia? É porque é mentirosa.

Aqui está um testemunho de quem assistiu à carga:
http://www.youtube.com/watch?v=gJXuWvsUdr0

Anónimo disse...

André,
Não foi pela leitura do relato da sua vivência pessoal que, também eu, sou da mesma opinião.

Por isso, deixo-lhe uma sugestão: por que não pediu (requereu/solicitou) por escrito e de forma expressa que lhe dessem conhecimento dos resulatdos do inquérito aberto à autoridade policial?

Esse tipo de solicitações costumam funcionar e, na pior das hipóteses, têm o mérito de os pôr a trabalhar, mais que não seja à procura de bons fundamentos para conseguirem o encerramento do inquérito sem sanções à vista.

Genoveva

zemari@ disse...

Os polícias, os subchefes, os comissários, o ministro, o primeiro-ministro, o presidente da República pensam pensadamente que o direito à manifestação é o começo da anarquia, da insegurança pessoal e têm medo, muito medo, porque têm a consciência pesada, pesadíssima.

Gustavo M disse...

Daqui do centro do continente e vendo o telejornal da rtpi, também achei muito estranha a forma como foi noticiada a manife da rua do carmo. Não vi nenhuma imagem, e a pressa da locutora ao dar a notícia... hum!
No final dos anos 90 também presenciei nas manifes de estudantes, em Lisboa, a brutalidade da policia de choque sem razão aparente.
É do género: "toca a andar não há nada para ver aqui" ou "tavas encostado ao carro! porquê?"

Gustavo M disse...

Procurando no youtube por imagens sobre a manife anti-fascista da rua do carmo, encontrei uma reportagem da rtp no telejornal das 20 onde se vê os policias a bater e a prender mas não vejo nenhum manifestante a partir montras... hum!
Fica aqui a rectificação quanto à falta de imagens. Eu vi o tj das 13.

Anónimo disse...

pt.indymedia.org
cravadonocarmo.pt.vu

Nestes e noutros sites têm mais informação acerca do que se passou.

E o que aconteceu - não foi normal.
A ausência de reação é mortal, e demonstra que a nossa sociedade não só se está a tornar cada vez menos democrática, como está pronta para o fazer de braços abertos.