sexta-feira, 27 de abril de 2007

Digressão interna I

Como soe dizer-se, o prometido é devido...mais os juros simplesmente vincendos. Dirijamo-nos, pois, ao local e momento em que arrancou a digressão de Mad Dog Clarence, descrito nas publicações da indústria, pouco, e no boca-a-boca, muito, como o ‘mítico bluesman do Cais do Sodré’, por terras inóspitas do Barreiro.
Porque a logística é complicada, tanto mais que, para além do staff técnico que habitualmente acompanha o artista, daquela feita pontificavam delegações do exterior (Suécia e China), o “party”, no sentido de grupo, bando, delegação, concentrou-se, pois claro, no British Bar, ao Cais do Sodré. Daí executar-se-ia a ‘transfega’ do artista e convivas para a Outra Margem, onde residem, aliás, os três elementos da banda de apoio nos concertos do Clarence: “Los Santeros”. Sigamos por narrativa simples, pesem os sacrifícios da estilística e da prosódia. Prosódicos não paródicos.

Pelos princípios da tarde de sábado, cerca das 5 horas, Mad Dog e convidados, mal refeitos, ou ainda desfeitos, da noute de sexta-feira, foram arribando à sala de reuniões do BB. Completada a guarnição, passou-se ao briefing técnico/artístico- acústica na sala do El Mareado, play-list, afinação dos instrumentos, as estafada leviandades sobre a origem dos blues, do delta aos urbanos, style, suportes de gravação, e, não há volta a dar, cachets. E outros assuntos menores, tais como a ausência de horários, consequências do desconhecimento da localização do espaço do concerto- “é ali, mais ou menos, perto do El Mareado…a malta pergunta, alguém saberá”, e, principalmente, onde estavam os Santeros?
Claro, simultaneamente, sem prejuízo da atenção prestada às explicações do Clarence, foram sendo tombados os primeiros baldes de cerveja. O Mad Dog optou pelas Cubas Libres, ao que disse, por motivos exclusivamente vocais.
Não se pense, todavia, que o nível desta etapa preliminar foi baixo, embora tivesse sido necessário recorrer a um produto orgânico- química, só mesmo a guerra- deveras estimulante. Discutiram-se, por exemplo, questões como a globalização e as fiscalidades dos países escandinavos, melhor, providência e previdência- o líder da delegação sueca concretizou como “filhos da puta da direita querem que eu pague impostos…eu, que nunca paguei”, justificando com o erro induzido por uma má percepção da utilidade marginal keynesiana “pensei que isso significa que é mais útil ficar na margem, recebendo e não pagando”-, a iminente desintegração do Bloco de Esquerda, o excelente trabalho que vem sendo feito pelo governo de José Sócrates, a castidade de Bento XVI como alegoria, o irreversível regresso à economia de subsistência no Zimbabué, o denominado, por mim próprio, ‘axioma da machamba’, a revisão do Processo Penal e a SAD do Benfica e a possibilidade de cantar um blue em crioulo cabo-verdiano. Mad Dog trazia, inclusive, uma proposta de letra; o colectivo entendeu que os públicos lusos mal-versados nas subtilezas daquele patois poderiam achar estranho um poema cujos versos terminavam todos em pichón.

Duas horas e vinte baldes mais tarde, e tendo ficado decidido que seria mais prudente ir de cacilheiro, a missão cultural formou no exterior do British Bar e Mad Dog, já ataviado para o concerto (de baixo para cima, sneakers, jeans, camisa preta, gravata castanha com motivo pornográfico pintado à mão, jacket a deux poches, de um espreitava a harmónica do outro uma bomba de asma, pala preta de pirata e chapéu castanho abado ao estilo da Suazilândia) deu voz de partida. Um, dois, três, esquerdo, direito- comunas, filhos da puta-, um, dois três, esquerdo, direito- comunas, filhos da puta-, um, dois, três, esquerdo, direito- comunas, filhos da puta.
Lá fomos, cantando e rindo, em direcção ao cacilheiro, por um atalho ribeirinho que Clarence também atribuiu à excelência da governação de José Sócrates, variando, por sugestão tautológica do líder da delegação da China, então, um tudo nada o estribilho, qual sound byte, que ficaria a marcar esta grande digressão interna de Mad Dog Clarence: filhos da puta… comunas; filhos da puta…comunas; filhos da puta…comunas. E Clarence, treinando o contraponto jazzístico ao mambo trash dos Santeros, replicava: dou-vos uma carga de porrada; dou-vos uma carga de porrada; dou-vos uma carga de porrada.
Chegados ao, chamemos-lhe, terminal fluvial, já não deu tempo para molhar o bico. Foi trepar a bordo da embarcação, cuja modernidade o Clarence também associou à excelência da governação do José Sócrates, aterrar no bar, entornar alguns baldes contra o enjoo, e ameaçar perante a indiferença geral: Barreiro, vais virar braseiro. Ah! Já me esquecia: comunas, filhos da puta; filhos da puta, comunas.

JSP

5 comentários:

Armando Rocheteau disse...

Em abono da verdade diga-se que:
O Mad Dog é que é convidado dos Santeros. Tem gostado da companhia. Sente-se honrado por poder actuar com eles.

Um abraço para O JSP

PS: Há uma lacuna no texto do JPS. Ao que sei, o colectivo tomou, nesse dia, em votação de braço (esquerdo como é óbvio) no ar, a decisão de correr o Nino de secretário-geral.

Peço desculpa pelo hermetismo.

Táxi Pluvioso disse...

Para quando um best of com os êxitos do venerando bluesman?

Chita disse...

Uauh...estou a ver o filme !
Que malta!
Ainda não parei de rir...

Mc Galeon disse...

Protesto. Protesto. Protesto.
Nino foi, é e será o unico Presi.

Anónimo disse...

O blogue tem o prestígio resgatado. E muito com estes textos de grande qualidade, a vários niveis ! Avanti FAR