quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Nobel da Literatura: a globalização derrotou controlo ideológico

O actual secretário da Academia sueca, Horace Engdahl, é um reputado tradutor de Derrida e Blanchot

A poucos dias da revelação do galardoado com o Nobel 2007 da Literatura, a revista Lire (Outubro) publicou um revelador dossier sobre o mecanismo da selecção e escolha definitiva do laureado. A Academia Sueca tem já mais de um século de actividade. Tudo começou em 1901 e Emilio Zola, o candidato favorito para a primeira edição do Nobel, foi seca e definitivamente afastado da derradeira prova selectiva por a sua prosa"ter falta de espiritualismo". No computo global os premiados de origem francesa e norte-americana totalizam, ombro a ombro, os mais numerosos. O que nos remete para as grandes influências ideológicas: membros proeminentes da família real escandinava, marechais do exército sueco e os famigerados jurados do Pen Clube International acabaram por ditar muitas vezes a sorte do vencedor. As vicissitudes dramáticas do período entre as duas Guerras Mundiais e a Guerra Fria subsequente amordaçaram muitas escolhas: Sartre recusou receber o prémio e Malraux nunca foi distinguido; enquanto Hemingway o recebeu tarde e às más horas e Dag Hammarskjöld, o futuro secretário geral da ONU, tudo fazia para os seus pares distinguirem o diplomata Saint.John Perse, a par de Boris Pasternak e Beckett, o que veio a acontecer...
A cena de Malraux é caricata e de mau presságio: mesmo Camus afirmou que o prémio devia ter-lhe sido atribuído a ele, um pouco como Saramago o disse sobre Aquilino Ribeiro...A dupla vida política do autor da Condição Humana como que o afastou do pódio mais célebre da distinção literária, pois, a Guerra de Espanha e mais tarde o "penchant" pela ideologia gaullista eram coisas sacrílegas para os jurados de Estocolmo. Agora, cinquenta anos após a distinção controversa de Albert Camus - que mesmo assim demorou a vencer quatro designações frustradas de 1952 a 56- a Academia Sueca revelou pela voz do seu secretário-geral alguns dos mecanismos de tão exotéricos processos de escolha. De acordo com Horace Engdahl, um francófilo dos quatro costados, a nova geração de jurados acabou por aceitar os diktats da globalização, do multiculturalismo e da diversidade ideológica. Com uma rede de instituições de cooperação de mais de 400 Universidades e Academias de todo o Mundo, os jurados suecos solicitam pareceres e listas de possíveis candidatos, tudo a partir de Janeiro do ano posterior à ultima selecção vencedora. Seguem-se dois a três meses de triagem para em Abril, realizarem uma lista de 20 nomes de onde saíram, 60 dias depois, um conjunto definitivo de cinco propostas de autores. Uma regra intangível de 1938 faz com que, para se ser seleccionado e vencer, o nome e obra do vencedor já devia ter sido mencionado pelo menos uma vez na short list...

Horace Engdahl afirma que os critérios da nova geração são hoje mais dilatados."Creio que hoje não se pode reduzir a Literatura à Poesia ou ficção. Existe o que apelido de literatura de testemunho muito importante. Que vai da narrativa de viagens aos testemunhos sobre a Shoa, os escritos de Lévi-Strauss e a certos ensaios literários, e uma certa forma, a via foi aberta por Churchill (laureado de 1953), Bertard Russell (1950) e Soljenitzyne (1970)". Está tudo dito. Nós lusitanos, perdemos a hipótese de ver eleitos Aquilino e Jorge de Sena, mas temos o trunfo grande de Lobo Antunes. Haverá algum professor de Yale ou Nova York que o tenha proposto? Terá ele feito parte das listas antigas dos cinco candidatos finais? Vamos esperar uns dias.

FAR

3 comentários:

ana cristina leonardo disse...

Faltará a Lobo Antunes uma Pilar...

Táxi Pluvioso disse...

Acho que Saramago devia bisar. O Cordeiro Antunes morreria em pecado mortal...

Ou então dêem o Nobel ao pacote de leite. Continua a ter os textos mais lidos do planeta. E é distribuido de borla pelo Banco Alimentar (e ONU) para aumentar o cálcio literário.

E/ou então dêem-no ao Rushdie, se tiverem tomates.

Anónimo disse...

Na selva dos Palimpsestos hodirenos, tento ler tudo. Mais de uma vez.Achei fantástica a opcao do secretário-geral(perpétuo...)da Academia de Estocolmo em ser um fervente tradutor e admirador de Derrida e Blanchot. Como que mais um passo...para a Revolucao, se bem me entendem!!! Boa tarde, Ana Cristina, leio sempre o que escreve, um pouco por todo o lado.Ando a ler uns contos fantásticos do Tolstoi., que também tem uns volumes(2?) de um Jornal. Fora o resto.Este Outono ditirâmbico, cheio de Sol, està à espera do Nobel, se bem que o Pulitzer seja para mim mais radical. Ciao. FAR