quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Arroja e as abelhas

Pedro Arroja não é aquele avô salazarista que está sempre a pregar aos netos que os comunistas comem criancinhas. Pedro Arroja escreve com uma moderação que deixa qualquer um engasgado quando nos focamos no conteúdo.
Vejamos, há uma profundidade científica nos posts, uma análise que, para o mais incauto, parece ser um programa científico, fundamentado em premissas já diversas vezes confirmadas, inclusive com exemplos animais. Ficamos todos a saber que "Chamar os pais, como pretendem certas teorias modernas da educação, a desempenhar nos cuidados e na educação dos filhos" é um erro, porque nas abelhas as coisas não se passam bem assim e os machos são usados para fins meramente sexuais. Uma comparação plena de eficácia e altamente sustentada, porque as abelhas são um animal e nós também. Há umas leves diferenças que me estão ocorrer, mas não interessam nada para o caso.
Mas é isso que é belo no blog de Arroja: a modernidade. Não há aqui cheiro a bolor, é tudo inovador, quase revolucionário. O autor apresenta-se como um Messias que nos vem corrigir os erros da nossa famigerada professora de História (porque o ensino de hoje é claramente socialista. Os russos ganharam a guerra fria e foram tão inteligentes que nos convenceram do contrário.).
Arroja não está atrasado no tempo, como costumamos pensar sobre os apoiantes de Salazar. Arroja está à frente, numa fase de surrealismo mágico em que até as regras da lógica são esquecidas. Observemos:
1.[acerca de Salazar] "Mas aquilo que ressalta em todos os seus escritos é a preocupação permanente em conhecer o carácter português"
2. [no meio de algumas qualidades lusas, conseguimos aprender também que...] "o português (...) é pouco aplicado ao trabalho e ao estudo (...), incapaz de chegar a um consenso mesmo com o seu vizinho do lado. (...) mas depois falta-lhe a vontade e a perseverança para executar as ideias e os projectos que ele próprio concebeu."
3. [no entanto, o que é que torna o Estado Novo único?] "O Estado Novo foi um regime político diferente de todos os outros, genuínamente português"
Aqui, as pessoas que tiveram lógica no ensino secundário e que a usam enquanto ferramenta pensam: mas então... o Estado Novo foi bom?
Ao que Arroja responde, com uma argúcia fantástica: " O Estado Novo levou Portugal da 70ª ou 50ª posição no mundo para a 24ª. Hoje, nos seus grandes princípios, levá-lo-ia provavelmente para a primeira. "
Este estado supra-sumo de uma pessoa calma, que escreve sem irritações ou ataques e vê acima de todos nós é, no mínimo, refrescante.
Aqui, porque a dúvida nos assalta e o gosto pela discussão nos leva a querer saber mais, enveredamos pelo perigoso caminho da opinião de Arroja sobre o Estado Novo. O desconhecido mete medo, já o sabemos. Mas a escrita iluminada de Arroja é uma pedrada no charco.
Quais são as chaves do sucesso do Estado Novo? e Arroja arranca. Há o pormaior de o sucesso do Estado Novo ser já uma premissa da discussão. O mais distraído poderá começar a questionar a taxa de analfabetismo, o colonialismo, a censura política e essas histórias da carochinha. Mas dado que há pouco Arroja previu - com uma firmeza que nem o Professor Karamba pode permitir aos seus clientes - que Portugal estaria no topo do mundo não fosse aqueles sacanas do 25 de Abril, já nenhum de nós pode voltar atrás.
"a democracia é restrita - só votam os (as) chefes de família." - mais uma frase que nem necessita de explicação. Suponho que nas abelhas também só votem as fêmeas. (nota-um-bocado-depois-de-ter-postado: reparem que Arroja está num ponto tão elevado que não se prende com o óbvio. Para mim o primeiro argumento para a democracia ser restrita era o facto de estar sempre o mesmo no poder. Mas Arroja vê mais longe.)
"...a aproximação, numa base de independência recíproca, entre o Estado e a Igreja. Existe liberdade de culto, mas a Igreja Católica é a religião tradicional dos portugueses." Ah, os bons ares da Igreja! A tradição é a tradição e isto nem se questiona. É uma coisa científica, a tradição. Se os portugueses sempre foram católicos, o Estado deve dar liberdade de culto, mas com um toque católico. Uma tendência, um empurrãozinho. Nada de especial (há uma independência recíproca), é só um acordo de cavalheiros. A moral e os bons costumes são para manter. E fico muito feliz pela modéstia do senhor Pedro Arroja, que aconselha uma religião a todos os seus compatriotas, não vá a malta escolher mal (ou o chefe de família por nós).
"Oitavo, a família como unidade natural da sociedade." - esta frase volta a esbarrar num dos mais poderosos argumentos de Arroja: o das abelhas. Eu cá, se tenho que ser natural porque a naturalidade é boa, gostava de poder educar os meus filhos e não ser um objecto sexual da minha mulher (as feministas tomaram conta do mundo e nós, homens, a ver futebol).
"Décimo-segundo, a autoridade pessoalizada, forte, proba e discreta do próprio Salazar - um exemplo para todos aqueles que serviam o Estado e, em última instância, para toda a sociedade. Ele estava lá para guardar a casa e para evitar que ela fosse deitada abaixo." - várias curiosidades: Salazar morreu solteiro e sem filhos (não era um pró - vida), o que não deixa de ser normal. Era um homem de bons costumes e cedo percebeu que se tivesse mulher era só para sexo e não quis. Ou porventura até queria educar os filhos, mas viu que isso era contra a tradição histórica da humanidade e não se deixou enganar. No entanto, era um exemplo. Mais, deixámos morrer o pastor que guardava as ovelhinhas e, se este era tão bom, vai ser difícil arranjar outro que nos ponha tão ordenadinhos (apesar de Sócrates, nesse campo, ser uma boa promessa).
Concluindo, em Arroja há um surrealismo contra-lógico, uma coisa mui moderna e especial, que selectivamente lembra acontecimentos históricos para chegar a uma conclusão que faz Nostradamus parecer a Maya: o Estado Novo colocar-nos-ia no topo do mundo.
Porventura não chegámos lá por não sermos chefes de família. Ou abelhas fêmeas.

4 comentários:

zemari@ disse...

Finalmente econtrei a justificação para a RTP, empresa pública e, portanto, arreligiosa, continuar a transmitir a missa dominical como nos tempos do Punheteiro.

Joao disse...

Etc e Tal
Viva Portugal

ana cristina leonardo disse...

Os tipos pensam. Basta lembrar que o Goebbels formou-se em filosofia e quem acabou mal antes de tempo foi Röhm, pouco mais que ceceteiro

Táxi Pluvioso disse...

E o Calimero fez o quê à abelha Maia?