quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Da Capital do Império

Olá!

Ler os discursos dos chefes de estado à assembleia geral da ONU - algo que tenho que fazer todos os anos - é como condenar alguém a ter que ler a minha colecção de livros mais chatos do mundo onde incluo livros como a “Colectânea de discursos do Enver Hoxa” e “ O modelo soviético de desenvolvimento” .
Pior do que isso (e agora que o Fidel está com os pés para a cova) só pode ser … ser forçado a ouvir um discurso de sete horas do narcisista-fidelista (leninista) Hugo Chavez. Ainda não me calhou a sorte embora eu conheça um desgraçado que teve que assistir a isso de pé o que o levou a rogar ao santo Che pela cura de Fidel para ver se calava o Hugo. Sem resultado o que, disse-me ele, “prova que afinal o Che não é santo”. O que todos nós sabemos ser verdade… não é?
Mas voltando à questão dos discursos da ONU: É por essa característica soporífera de mediocridade surrealista que eu considero a Assembleia Geral da ONU - que todos os anos em Setembro atrai dezenas e dezenas de chefe de estado e governo e respectivos “penduras” a Nova Iorque - como nada mais que uma oportunidade para ver alguns amigos, dar uma passeata, ir ver uma boa peça de teatro e comer num ou dois bons restaurantes franceses à custa de outrem e depois fazer uma ou duas entrevistas sobre os males dos Estados Unidos no mundo para pagar os ditos jantares. É ao fim e ao cabo pouco diferente do que fazem os ditos chefes de estado e governo embora eles se desloquem em limusinas e causem irritantes engarrafamentos de trânsito na zona de mid town Manhattan onde os preços dos hotéis quadruplicam durante esse período.
Pois tenho a dizer-vos que este ano na minha ida à Assembleia Geral da ONU nem pus os pés na dita cuja. Preferi ir passear para Coney Island (onde o piroso é genuíno) e ir ver como é que funciona a Máfia russa em Brighton Beach (Little Odessa). Muito mais colorido e fascinante do que a Máfia inoperante da ONU e além disso não vivem à minha custa.
Pois para recuperar tempo perdido estava eu outro dia a ler o discurso feito na Assembleia Geral a 25 de Setembro por “Sua Excelência José Eduardo dos Santos” (notem que já não é “camarada”) e à espera de cair a dormir antes de ter tempo de soletrar “QUE CHATICE PORRA” quando quase que saltei da cadeira sem acreditar no que lia.
“Pode ou não o Islão coexistir nas sociedades de modo pacífico com outros credos religiosos? Como neutralizar o fanatismo e evitar a islamização do estado que contraria a consciência jurídica moderna da humanidade sobre o estado secular?”
Tive que ler estas interrogações legitimas e atempadas de “Sua Excelência” duas vezes e ainda duvidando do que estava à minha frente em preto e branco agarrei logo no telefone para confirmar o que estava escrito com um empregado diplomático do Zé Dú Ali Bábá ( o nome popular de Sua Excelência).
“É pá acho que ele fez umas modificações pouco antes de ler o discurso mas nós só temos o original,” disse o tal diplomata do Zé Du Ali Bábá. Por isso tive que contactar a russa matrona que trabalha num escritório nas caves da ONU num corredor que nunca ninguém encontra e onde todos os discursos são arquivados em cassetes e pedir-lhe a cópia do discurso do Zé Du Ali Bábá que ela resmungando lá me mandou eficientemente (que surpresa!).
Tenho a dizer que o Zé Dú me voltou a desiludir pois à ultima da hora “cortou-se”! Mudou as interrogações para certezas afirmando que “o Islão pode coixistir nas sociedades de modo pacífico com outros credos religiosos mas é preciso neutralizar o fanatismo e evitar a islamização do estado que contraria a consciência jurídica moderna da humanidade sobre o estado secular”.
Pode coexistir? Talvez …. se se “evitar a islamização do estado”. Mas se tivermos em conta que a influencia crescente do Islão é aquela do movimento Wahhabi (e suas variantes) em que nada pode ser separado da leitura fundamentalista do Corão é difícil imaginar isso. Na verdade é preciso notar que o Islão não é apenas um “pacote” de princípios e crenças mas pelo menos senão mesmo acima de tudo uma crença social, lições de como organizar a sociedade como um todo.
O problema surge porque nós sabemos que as nações existem com base em valores e crenças comuns e que nas sociedades as pessoas avançam porque são encorajadas pela sua sociedade a adoptar certos hábitos e comportamentos. Por outras palavras: as soluções para questões morais não são só produto dos indivíduos já que os homens são criaturas sociais cujas acções e pontos e vista são profundamente marcados pelo tecido social que os une. Daí a importância da questão que o Zé Dú Ali Bábá levantou antes de se “cortar”: “Pode ou não o Islão coexistir nas sociedades de modo pacifico com outros credos religiosos? Como neutralizar o fanatismo e evitar a islamização do estado que contraria a consciência jurídica moderna da humanidade sobre o estado secular?”
Isto levanta outra questão: A crença no tal “processo histórico” pelo qual vamos todos acabar num sociedade igual a cantar Grândola Vila Morena Terra da Fraternidade depois de passarmos todos pelas mesmas etapas históricas a cantar “Imagine”. Isto é, basta dar tempo ao tempo e acabaremos todos por acreditar em valores democráticos, de fraternidade, de liberdade de imprensa etc. Se isso ainda não acontece é porque há exploração (dos americanos) ou/e porque o resto do maralhal ainda está numa outra fase do tal processo histórico mas com tempo … vai lá. Pois, pois…
Na verdade só quando abandonarmos esta fantasia de um processo histórico igual para todas as nações e povos é que poderemos fazer face ao problema que o Islão é hoje para todos. Só então é que poderemos aceitar que há pessoas para quem e ao contrario de nós no ocidente a religião é fundamental para organizarem a sua vida e não valores democráticos . E se aceitarmos isso poderemos talvez conseguir distinguir entre esses e aqueles cujas crenças os levam à utopia terrorista anti-moderna.
Tentar bater uma ideologia assassina com complacências ocidentais sobre o “processo histórico”, o “multiculturalismo” e outras suposições não é uma boa aposta. O relativismo infelizmente não resolve tudo. É por isso que o Zé Du Ali Bá Bá deveria ter deixado ficar a pergunta no ar. Mesmo que o único que a tenha notado fossemos só nós. Mas do Zé Du há muito que deixei de esperar coragem.

Abraços,
Da capital do Império

Jota Esse Erre

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