quinta-feira, 25 de outubro de 2007

James Watson

"De Watson A Fernandes

É muito curioso que o caso Watson tenha agitado tanto a sociedade portuguesa - pelo menos a que se revela na comunicação social. Dir-se-ia que décadas de propaganda colonial sobre a suposta tolerância e não-racismo portugueses (o famoso - ou infame? - lusotropicalismo) têm abafado o racismo despoletado pelos fluxos de “outros” para o jardim à beira-mar plantado. É preciso um cientista americano dizer uma asneira - como o próprio reconheceu - para se ter uma desculpa para confundir o politicamente correcto (na origem uma atitude de exigência de respeito pelos violentados simbolicamente e não, como agora se quer fazer crer, sinónimo de hipocrisia) com aquele artefacto ideológico do antigo regime - e assim abrir as portas para o “e se fosse verdade que eles são mesmo inferiores”?"
Miguel Vale de Almeida, Os Tempos que Correm



"Rui Tavares: Serão os prémios Nobel menos inteligentes do que os empregados de café?

Quando a filosofia da ciência se exaspera de procurar definir o seu objecto há sempre alguém que sugere uma escapatória: “ciência é aquilo que os cientistas fazem” (o mesmo se passa, curiosamente, com a filosofia da arte).
Que essa é uma definição profundamente insatisfatória viu-se agora demonstrado pela afirmação de James Watson, Nobel de 1962 e co-descobridor da estrutura e função genética do ADN, segundo a qual os negros são menos inteligentes do que os brancos, “como sabe qualquer pessoa que contacte com um empregado negro”. James Watson não citou provas científicas, experiências realizadas ou o trabalho de colegas seus. Dias depois declarou mesmo: “não consigo compreender como posso ter dito aquilo que foi citado em meu nome. Não era aquilo que eu queria dizer. Mais importante ainda, não há base científica para tais crenças”.”
Rui Tavares, Cinco Dias

1 comentário:

ana cristina leonardo disse...

Os testes genéticos avançam em França para os emigrantes. Watson tem a desculpa da idade e, ao que parece, falou empiricamente (talvez tenha tido o azar de ter um empregado negro estúpido, característica, como se sabe, democraticamente distribuída e que não olha à melanina). Sarkozy é chefe de estado, filho de emigrantes e não gosta mesmo deles (em particular, dos que não podem exibir ascendência ariana). Já agora, leia-se o editorial do New York Times a propósito http://wwwmeditacaonapastelaria.blogspot.com/2007/10/indignao-veio-dos-eua-progresso-ii.html
A boutade de Watson será inofensiva, a lei francesa é outra conversa.