Os neo-liberais gostam muito de se afirmar como "defensores da liberdade". É este o argumento que usam para, por exemplo, defender a privatização dos hospitais ou da segurança social: a liberdade que reclamam para escolher o seu hospital, ou o seu esquema de reforma, face ao estado social onde são obrigados a pagar impostos e a escolher as opções postas à sua disposição pelo Estado. Mas vejamos mais detalhadamente esta questão: se todos os hospitais fossem privados, ou seja, empresas (mesmo admitindo a existência de safety nets básicas, como eles gostam de as chamar), necessariamente alguns teriam mais qualidade que outros; esses seriam os que dispusessem dos melhores médicos, enfermeiros e equipamentos. Ora, estes hospitais seriam os mais procurados, o que, na lógica da empresa, permitiria cobrar preços mais elevados que outros menos competitivos. Assim o hospital A poderia cobrar, digamos, 500 euros, por exemplo, por uma cirugia, e o hospital B, o tal de maior qualidade, 5000. Acontece que assim, como é fácil de entender, grande parte da população ficaria impossibilitada de utilizar o hospital B, que ainda por cima absorveria os melhores médicos, enfermeiros e equipamentos, passando a estar obrigada a utilizar o hospital A. Como se entende, a suposta "liberdade" de escolha de hospitais só se aplicaria a quem dispusesse de 5000 euros para a cirugia; para todos os outros, esta solução resultaria em ainda menor liberdade, uma vez que teriam de utilizar o hospital mais barato, que ainda por cima tem piores médicos, enfermeiros e equipamentos. Do mesmo modo, num esquema de capitalização das reformas, os bancos, procurando os melhores clientes, ofereceriam produtos extremamente vantajosos a quem, por exemplo, depositasse dois mil euros mensais; os outros teriam acesso apenas ao esquema menos vantajoso (taxas de juro mais baixas, etc.) porque é assim que funciona a lógica da empresa. O problema não é a lógica da empresa; é achar que tudo pode funcionar dentro dessa lógica, incluindo necessidades básicas da população (saúde, educação, segurança social, transportes, água, luz, gás), e isto não é mais que um preconceito ideológico cego ao sofrimento individual, por muito que os neo-liberais se afirmem individualistas ou defensores dessa "liberdade" que não se percebe o que é para lá de um egoísmo organizado, ou a liberdade de gastar o meu e marimbar-me para o resto.
9 comentários:
Caro Jota Esse Erre:
Você que vive nos states saberá melhor que eu porque se estima que 30 por cento dos americanos não possuem seguro de saúde.
Agora, eu era capaz de apostar que na maior parte dos casos não será devido a irresponsabilidade ou masoquismo...
Já agora, uma correcção ao seu comentário: nos states existem seguros de saúde associados a hospitais privados, e também hospitais públicos; só que estes são o "refugo", não tem qualidade. Além do mais, idependentemente da gravidade do meu caso, sou obrigado a ir ao hospital com o qual tenho acordo (ou ao público) mesmo que este seja o mais distante de todos. Isto sim, é o utilizador-pagador. Está de acordo? É consigo. Eu prefiro um sistema em que as condições de saúde sejam iguais para toda a gente, ou seja, que existam hospitais públicos de qualidade e gratuitos, ou quase. Depois, sem dúvida que podem existir privados; aliás, uma coisa que sempre me espantou na argumentação contra os hospitais públicos é o não se perceber (ou não querer perceber, e se calhar é mais isso) que quanto melhor for o público melhor vai ter de ser o privado, que contra ele é obrigado a concorrer, e deste modo todos ganham. Mas enfim, contra questões ideológicas é dificil que valham os argumentos sérios. Um neo-liberal acha que um hospital público faz concorrência desleal a um privado, e isso é que interessa: não é a qualidade da saúde, mas o princípio, a ideologia, da livre-concorrência...
Aliás, o seu argumento é irrelevante: é óbvio que o hospital que cobra 5000 euros irá fazer um acordo com um seguro "gold" de 500 euros por mês; e o que cobra 500 irá ser para o seguro "trash" de 50 euros por mês.
Uma coisa é certa: o André ainda não percebeu como funcionam os fundos de pensões.
"ofereceriam produtos extremamente vantajosos a quem, por exemplo, depositasse dois mil euros mensais; os outros teriam acesso apenas ao esquema menos vantajoso"
Acho que não André. Esta a esquecer-se que a maioria das pessoas, "os outros", mesmo depositando apenas 50 euros / mes, são muitos mais. Um fundo gere-se pelo total do investimento. Seria por exemplo 100 pessoas a depositar 2 000 euros (200 000) e 10 000 a depositarem 50 (500 000).
Mesmo que assim não fosse, não parece justo que uma pessoa que deposita 2 000 euros mês (que depois serão investidos) tenha melhores condições que quem deposita 50 ? O mundo pode ser mais justo mas com limites.
O Ricardo Araujo Pereira escreveu um dia numa crónica mais ou menos isto: “sou de esquerda porque acho que todos deviam ter direito a fumar charutos e a comer caviar”… mas há caviar para todos?
Sim, no momento ZERO seria assim.
Mas não seria a partir do momento ZERO em diante.
Ao irem em massa ao hospital
A, iriam dotá-lo de recursos para melhorar e surgiria um hospital C interessado no mercado de massas, e depois um hospital D e assim em diante. O hospital B iria continuar a prestar os seus serviços ao segmento em que sempre esteve interessado.
A não ser que o estado criasse uma lei em que só pudesse haver os dois hospitais, mas isso já não liberalismo, pois não?
As coisas evoluem no tempo, não ficam cristalizadas tal como propõe.
«como dizem os yankees "there is no such a thing as a free lunch". Alguem tem de pagar a conta. De um modo ( seguros) ou outro (impostos).»
Ora bem.
Eu prefiro os impostos. Como sou socialista, entendo que os impostos são um mecanismo igualitário, desde que progressivos.
Trata-se de uma questão de solidariedade social. Mas isto não é coisa que esteja na moda nos dias de hoje...
João:
Pois surgiria o hospital C, e hospital D, e o hospital E e o hospital F. E então?
Onde continuariam os melhores profissionais de saúde, e os melhores equipamentos? Naquele hospital com melhor racio custo/paciente (vulgo, lucro) ou nos inúmeros hospitais "de massas"?
Um pouco de humor, para desanuviar:
«O Ministro da Saúde visitou um hospital acompanhado pelo director.
Ao passarem numa enfermaria deparam com um doente a masturbar-se
furiosamente e o Ministro pergunta o que se passa com o paciente.
O director do hospital informa o Ministro de que é um caso patológico que
implica que o paciente tenha de ejacular de 2 em 2 horas porque senão os
testículos ficam desmesuradamente inchados.
A visita continua e logo mais à frente, num quarto, deparam-se com uma
enfermeira a fazer sexo oral a outro paciente.
O Ministro estupefacto pergunta o que aquilo significa, ao que o director
responde, consultando a ficha do doente:
-Sr. Ministro, é um caso absolutamente igual ao anterior, só que este doente vem pela Médis, e não pela Segurança Social.»
«Uma coisa é certa: o André ainda não percebeu como funcionam os fundos de pensões.»
Deve imaginar a lógica da capitalização exactamente como funcionam os bancos actuais.
Quem tem acesso aos melhores serviços (taxas de juro, spreads, etc.?)
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