segunda-feira, 16 de Outubro de 2006

A falácia da Liberdade

Os neo-liberais gostam muito de se afirmar como "defensores da liberdade". É este o argumento que usam para, por exemplo, defender a privatização dos hospitais ou da segurança social: a liberdade que reclamam para escolher o seu hospital, ou o seu esquema de reforma, face ao estado social onde são obrigados a pagar impostos e a escolher as opções postas à sua disposição pelo Estado. Mas vejamos mais detalhadamente esta questão: se todos os hospitais fossem privados, ou seja, empresas (mesmo admitindo a existência de safety nets básicas, como eles gostam de as chamar), necessariamente alguns teriam mais qualidade que outros; esses seriam os que dispusessem dos melhores médicos, enfermeiros e equipamentos. Ora, estes hospitais seriam os mais procurados, o que, na lógica da empresa, permitiria cobrar preços mais elevados que outros menos competitivos. Assim o hospital A poderia cobrar, digamos, 500 euros, por exemplo, por uma cirugia, e o hospital B, o tal de maior qualidade, 5000. Acontece que assim, como é fácil de entender, grande parte da população ficaria impossibilitada de utilizar o hospital B, que ainda por cima absorveria os melhores médicos, enfermeiros e equipamentos, passando a estar obrigada a utilizar o hospital A. Como se entende, a suposta "liberdade" de escolha de hospitais só se aplicaria a quem dispusesse de 5000 euros para a cirugia; para todos os outros, esta solução resultaria em ainda menor liberdade, uma vez que teriam de utilizar o hospital mais barato, que ainda por cima tem piores médicos, enfermeiros e equipamentos. Do mesmo modo, num esquema de capitalização das reformas, os bancos, procurando os melhores clientes, ofereceriam produtos extremamente vantajosos a quem, por exemplo, depositasse dois mil euros mensais; os outros teriam acesso apenas ao esquema menos vantajoso (taxas de juro mais baixas, etc.) porque é assim que funciona a lógica da empresa. O problema não é a lógica da empresa; é achar que tudo pode funcionar dentro dessa lógica, incluindo necessidades básicas da população (saúde, educação, segurança social, transportes, água, luz, gás), e isto não é mais que um preconceito ideológico cego ao sofrimento individual, por muito que os neo-liberais se afirmem individualistas ou defensores dessa "liberdade" que não se percebe o que é para lá de um egoísmo organizado, ou a liberdade de gastar o meu e marimbar-me para o resto.

12 Comments:

Blogger jota esse erre said...

Eh por isso que no sistema privatizado de sistemas de saude existem... seguros de saude. O problema apresentado eh portanto inexistente. O problema eh outro: o que acontece ahs pessoas que nao tem seguros de saude? o que por seu turno levanta a pergunta: porque nao tem? por :A) falta de responsabilidade ou por B) falta de meios? Se A....ou tens massa ou entao vais para a fila. O que nao eh mau. Liberade signiifica responsabilidade (talvez seja por isso que tantos a temem) . se B) eh ai que o estado entra com sistemas de apoio. Mas soh no caso B. E esse sistema de apoio mao implica a criacao de sistemas estatais, geralmente ineficientes quando comparados com os privados.

4:29 PM  
Blogger André Carapinha said...

Caro Jota Esse Erre:

Você que vive nos states saberá melhor que eu porque se estima que 30 por cento dos americanos não possuem seguro de saúde.

Agora, eu era capaz de apostar que na maior parte dos casos não será devido a irresponsabilidade ou masoquismo...

Já agora, uma correcção ao seu comentário: nos states existem seguros de saúde associados a hospitais privados, e também hospitais públicos; só que estes são o "refugo", não tem qualidade. Além do mais, idependentemente da gravidade do meu caso, sou obrigado a ir ao hospital com o qual tenho acordo (ou ao público) mesmo que este seja o mais distante de todos. Isto sim, é o utilizador-pagador. Está de acordo? É consigo. Eu prefiro um sistema em que as condições de saúde sejam iguais para toda a gente, ou seja, que existam hospitais públicos de qualidade e gratuitos, ou quase. Depois, sem dúvida que podem existir privados; aliás, uma coisa que sempre me espantou na argumentação contra os hospitais públicos é o não se perceber (ou não querer perceber, e se calhar é mais isso) que quanto melhor for o público melhor vai ter de ser o privado, que contra ele é obrigado a concorrer, e deste modo todos ganham. Mas enfim, contra questões ideológicas é dificil que valham os argumentos sérios. Um neo-liberal acha que um hospital público faz concorrência desleal a um privado, e isso é que interessa: não é a qualidade da saúde, mas o princípio, a ideologia, da livre-concorrência...

5:13 PM  
Blogger André Carapinha said...

Aliás, o seu argumento é irrelevante: é óbvio que o hospital que cobra 5000 euros irá fazer um acordo com um seguro "gold" de 500 euros por mês; e o que cobra 500 irá ser para o seguro "trash" de 50 euros por mês.

5:16 PM  
Anonymous Anónimo said...

Uma coisa é certa: o André ainda não percebeu como funcionam os fundos de pensões.

5:49 PM  
Blogger rduarte said...

"ofereceriam produtos extremamente vantajosos a quem, por exemplo, depositasse dois mil euros mensais; os outros teriam acesso apenas ao esquema menos vantajoso"

Acho que não André. Esta a esquecer-se que a maioria das pessoas, "os outros", mesmo depositando apenas 50 euros / mes, são muitos mais. Um fundo gere-se pelo total do investimento. Seria por exemplo 100 pessoas a depositar 2 000 euros (200 000) e 10 000 a depositarem 50 (500 000).

Mesmo que assim não fosse, não parece justo que uma pessoa que deposita 2 000 euros mês (que depois serão investidos) tenha melhores condições que quem deposita 50 ? O mundo pode ser mais justo mas com limites.

O Ricardo Araujo Pereira escreveu um dia numa crónica mais ou menos isto: “sou de esquerda porque acho que todos deviam ter direito a fumar charutos e a comer caviar”… mas há caviar para todos?

7:04 PM  
Anonymous Joao said...

Sim, no momento ZERO seria assim.
Mas não seria a partir do momento ZERO em diante.
Ao irem em massa ao hospital
A, iriam dotá-lo de recursos para melhorar e surgiria um hospital C interessado no mercado de massas, e depois um hospital D e assim em diante. O hospital B iria continuar a prestar os seus serviços ao segmento em que sempre esteve interessado.
A não ser que o estado criasse uma lei em que só pudesse haver os dois hospitais, mas isso já não liberalismo, pois não?

As coisas evoluem no tempo, não ficam cristalizadas tal como propõe.

7:09 PM  
Blogger jota esse erre said...

1) Nada eh gratuito. Pensar-se que ir ao hospital sem nada pagar eh gratuito eh viver na utopia. Ou como dizem os yankees "there is no such a thing as a free lunch". Alguem tem de pagar a conta. De um modo ( seguros) ou outro (impostos). Ou entao ha uma terceira via: ninguem paga a conta e os resultados ja se sabe quais sao...
2)Nao sei porque eh que 30 por cento dos americanos nao tem seguro de saude. Mas isso nao vai contra o meu argumento. Soh pode ser por duas razoes: 1) irresponsablidade. ou 2)por nao terem meios. Se for o caso 2) pois concordo absolutamente. Tem que haver um sistema para permitir a essas pessoas terem acesso ah saude (o que existe nos states: chama-se .. Medicaid). NINGUEM nos states pode ver recusada assistencia medica por falta de seguro de saude. Isso eh um mito. Va a qualquer sala de emergencia de qualquer hospital e eh o primeiro aviso que lera em letras grandes geralmente em ingles e espanhol. Pode se argueentar que o MEDICAID soh fornece proteccao a pessoas extremamente pobres deixando muitas outras naquela terra de ninguem em que nao sao suficientemente pobres para terem acesso ao medicaid ou suficentemente "bem" para terem acesso ao seguro de saude. POis concordo perfeitamente com isso e concordo que o sistema nos states tem que ser melhorado ou reformado.Mas argumentar que o sistema publico de saude eh a panaceia de todos os males nao tem nada a haver com a realidade.
3) Para alem disso claro estah 70% dos americanos TEM seguro de saude. A solucao eh tentar encontrar um meio para levar a minoria a ter acesso ao melhor servico de saude do mundo a que os outros 70% tem. A solucao nao eh levar os 70% a baixar o seu nivel de acesso a saude para satisfazer mitologias ideologicas.

9:49 PM  
Blogger jota esse erre said...

E mais. Os seguros de saude nao funcionam com acordos com hospitais. Depende do seguro. Uns tem acordos com muitoshospitais e medicos. Outros eh ah vontade do fregues. Outros tem acordos com hospitais e medicos e permitem tambem "ah vontade do fregues" perante um co pagamento na hora de se pagar a conta Nao tem nada a haver com a categoria dos hospitais ou medicos. Os seguros conseguem descontos porque garantem um certo numero de clientes. Tive um seguro que me dava acesso ao melhor hospital e Washington ah borla(George Washingon Medical center) e era bem mais barato que o actual que me da acesso a esse hospital mas soh mediante um co pagamento. Eh mais complicado do que parece...

9:55 PM  
Blogger André Carapinha said...

«como dizem os yankees "there is no such a thing as a free lunch". Alguem tem de pagar a conta. De um modo ( seguros) ou outro (impostos).»

Ora bem.

Eu prefiro os impostos. Como sou socialista, entendo que os impostos são um mecanismo igualitário, desde que progressivos.

Trata-se de uma questão de solidariedade social. Mas isto não é coisa que esteja na moda nos dias de hoje...

4:09 AM  
Blogger André Carapinha said...

João:

Pois surgiria o hospital C, e hospital D, e o hospital E e o hospital F. E então?

Onde continuariam os melhores profissionais de saúde, e os melhores equipamentos? Naquele hospital com melhor racio custo/paciente (vulgo, lucro) ou nos inúmeros hospitais "de massas"?

4:17 AM  
Blogger André Carapinha said...

Um pouco de humor, para desanuviar:

«O Ministro da Saúde visitou um hospital acompanhado pelo director.
Ao passarem numa enfermaria deparam com um doente a masturbar-se
furiosamente e o Ministro pergunta o que se passa com o paciente.
O director do hospital informa o Ministro de que é um caso patológico que
implica que o paciente tenha de ejacular de 2 em 2 horas porque senão os
testículos ficam desmesuradamente inchados.
A visita continua e logo mais à frente, num quarto, deparam-se com uma
enfermeira a fazer sexo oral a outro paciente.
O Ministro estupefacto pergunta o que aquilo significa, ao que o director
responde, consultando a ficha do doente:

-Sr. Ministro, é um caso absolutamente igual ao anterior, só que este doente vem pela Médis, e não pela Segurança Social.»

4:52 AM  
Blogger André Carapinha said...

«Uma coisa é certa: o André ainda não percebeu como funcionam os fundos de pensões.»

Deve imaginar a lógica da capitalização exactamente como funcionam os bancos actuais.

Quem tem acesso aos melhores serviços (taxas de juro, spreads, etc.?)

3:40 AM  

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