sexta-feira, 7 de maio de 2010

A anormalidade - hipótese 1 (para o Pedro Salzedas)

Sair de si. Intelectualmente. Saber a diferença entre ter de viver a sua vida como ela é, e achar que a vida como ela parece ser é uma normatividade ética. Ter a consciência de que nascer é uma improbabilidade, e que mais improvável ainda é nascer no sítio certo. Saber (o mínimo, foda-se!) de História. Entender a diferença entre "habitual" e "normal". Estar no meio do horror enquanto se janta no restaurante, e mesmo assim jantar sem remorsos. Não sentir remorsos. Ser ético sem ser moral. Gostar de todas, mas mesmo de todas, as pessoas, mas não de como elas são: ao mesmo tempo gostar e não gostar das pessoas. Alegrar-se com o nascimento de um novo dia, e entristecer-se com o fim do anterior, rejubilar e desesperar em acordar mais uma vez. Saber que a realidade se esconde por trás de um nevoeiro espesso, e que isso não é nenhuma novidade. Que se mente mesmo quando se pensa dizer a verdade. Que não há verdade nenhuma, só há ídolos, e o maior de todos é a "verdade". Viver em todos os sítios ao mesmo tempo, a cabeça de um homem é maior que o mundo (isto é um facto científico). Por vezes ter vergonha. Muitas vezes desespero. Algumas vezes alegria. Acima de tudo, saber que não há justificação, que tudo não passa de palavras, ou mais ainda, matemática.

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