sexta-feira, 7 de maio de 2010

Segundo esboço de uma teoria da crise

Sentado ao sofá com o laptop nas pernas, bebo uma garrafa de Loureiro. Olha que isto da “crise”, visto assim, ate parece coisa pouca. Dou por mim pensando: crise? Qual crise? Tudo é questão de perspectiva, as usual. Quem é que está em crise? Olha, eu não estou, que agora ganho bem e trabalho no que gosto. Também os tipos do Burkina Faso não estão em crise. Ou os tipos da Mongólia, ou o o meu amigo Ian que vive em Repulse Bay, no Ártico canadiano – ainda ontem me mandou um mail, a dar conta que por lá, as focas não estão em crise, parece que voltaram a aparecer, como fazem ano após ano – embora menos ano após ano, mas isso não se enquadra na categoria da “crise”. Uma “crise” pressupõe um corte abrupto na normalidade. Mas que corte na normalidade se vê por aí? Assim como assim, só estou a ver o dos gregos que vão ter de viver sem 13º mês e subsídio de férias. Subsídio? Para subsídio já bastam as férias pagas, diz o Vasco Pulido Valente. Não há crise para o Vasco Pulido Valente. Férias? Privilégios de burguês. Abaixo a burguesia, viva o proletariado. Todos consumimos mais do que produzimos, vivemos acima das nossas posses, endividados, penhorados, amaldiçoados na nossa condição de burgueses-a-ser. Quem é que quis ser burguês? Aguenta-te filho. O Vasco Pulido Valente não vive acima das suas posses, que ele vende os artigos ao preço do mercado – foi a tí que o mercado resolveu enganar, não a ele, que tem sorte, e para mais tem apelido Valente. Eu vendo o meu produto ao preço do mercado – aulas de xadrez, dez euros à hora. Tenho sorte, o mercado não me vai enganando, há por aí ainda muito pai a querer que os putos aprendam xadrez, o xadrez agora já é visto como útil para a aprendizagem intelectual dos burgueses-a-ser do futuro, em grande parte graças à União Soviética, embora não caia bem dizer isto. Qual crise? Passa jazz no Mezzo, a garrafa de Loureiro está no fim, o meu laptop ainda sobrevive às agruras do quotidiano. Foda-se, acabou-se o vinho. Estou em crise!

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