terça-feira, 13 de fevereiro de 2007

Sim! e a história de uma campanha

Ganhou o Sim. O Sim à escolha medicamente assistida, o Sim à liberdade das mulheres, o Sim ao combate ao aborto clandestino.
Para mim, além disso, foi ver recompensado todo o esforço dos Médicos Pela Escolha e de todos os outros com quem convivi durante a campanha.
Em termos pessoais a campanha arrancou no Verão, no melhor bar do Bairro Alto, o Loucos e Sonhadores, quando fui convidado juntamente com o meu grupo de amigos pela Mara para uma Associação que se apresentava, até para uma noite de copos, como algo muito mais sério que a habitual indignação. A piscar-nos o olho, estava ali a proposta de passar à acção, de fazermos mesmo coisas por isto.
A coisa já tinha arrancado há bem mais tempo, mas para nós começou ali. E muito durou. Seguiram-se as reuniões embrionárias em casa do João e as primeiras reuniões em Santa Maria. Depois a preparação do argumentário, com várias leituras do 7 teses sobre o aborto do Dr. Miguel Oliveira e Silva e a tese do Cunhal que a Teresa desencantou. E, entretanto, encontrar pessoas novas. Juntar pessoas para fazer coisas (a frase é simples, mas diz muito). Conhecer o Vasco Freire, o João, a Rosa e a Sara. Depois a Dra. Maria José Alves, a Dra. Ana Campos e a Dra. Ana Matos Pires. A seguir a malta do norte, como a Cecília e o Bruno. A coisa andava e o grupo do costume sorria.
Depois foram as burocracias, a recolha de assinaturas e o aproximar da campanha, com as reuniões de terça feira a crescerem. Preparam-se os argumentos, antecipam-se outros, procura-se financiamento, querem-se mais contactos, e continuamos a tentar juntar pessoas.
Com o aproximar da capnha, acumulavam-se flyers e autocolantes, e quando a mesma começou, foi um corropio. Só se falava de aborto. Combinávamos distribuições de flyers (com particular destaque para duas horas dentro do metro sempre a mudar de carruagem) e dividíamo-nos para debates. Corríamos tudo o que pudéssemos. Chegávamos a casa e despejávamos as maiores alarvidades que os gajos do não tinham dito hoje.
As reuniões eram sempre uma confusão divertida (tirando quando alguém lá dizia que tinha medo que os outros ganhassem), gastámos fortunas ao telemóvel, faltámos a aulas, mas valeu a pena. Domingo à noite, enquanto dançávamos e festajávamos, senti que tinha participado na coisa. Não com a importância do Sócrates, óbvio, mas que tinha feito qualquer coisa. Afinal, é mesmo possível juntar gente e fazer coisas, mesmo que isso signifique enfrentar insituições com centenas de anos no poder. Mesmo que isso implique ouvir mentiras atrás de mentiras e que às vezes nos faça sentir impotentes por ver que os outros têm meios que nós não temos.
Mas vale a pena. É possível fugir à conversa do "não dá" e "isso não vale a pena". Esta luta deu e valeu a pena. E o que se conquistou é muito grande.

Muito obrigado aos que me aturaram estes dias todos (muito me "ouviu" o André Carapinha no messenger). Agora é lutar pelo resto (Código Deontológico, IVG no SNS, mais Planeamento Familiar, etc). Dia 11 foi bom, mas há mais por fazer.

2 comentários:

Anónimo disse...

Manuel Neves: Quer um Conselho ,fraterno e dinâmico: Faça os impossíveis por ler o Castoriadis!!! O seu relato é muito bom, em todos os sentidos. FAR

me disse...

Ai foi, foi... e será, Manel!
Um beijo do tamanho do mundo