domingo, 1 de junho de 2008

A IMPORTÂNCIA DE SE CHAMAR TAMANHO

Há uns anos valentes o professor António José Saraiva escreveu uma crítica das ideias comuns. Desvalorizado hoje em dia, a crítica consequente, abanão nas mentes imbuídas da mecânica do lucro nos dias e actos, o livro construía-se a partir de um diagnóstico das ideias feitas, do preconceito. Este move-se como o burro em que o meu avô ia dar aulas lá no topo da pedra, Marvão. O avô doente e o burro cumpria, nos mesmos horários, o mesmo caminho, para a mesma escola: infelizmente, o passo seguinte não acontecia, o animal não zurrava o alfabeto e chegada a hora, pela mesma via retornava, dentuça aberta na antevisão da palha – Pavlov explica.
De negativo identitário temos muito e bem assente, enraizados atavismos, o preconceito na profundidade da esclerose. A língua tradu-los: “a mulher quer-se pequena como a sardinha”. É um revelador, a língua, e as suas cristalizações todo um programa sobre as nossa patologias idiossincráticas, marialvismo ancorado na raiz, variação de tipo humano específico gerado numa periferia de maresias, longe da sofisticação interior a que levam Invernos rigorosos, vida mais sob telha e entre paredes, cá mais no meio da rua em gastronomias alegres, evoluindo numa constante salmoura de tintos e brancos – irresistível atracção do timbre de cada casta, baga, loureiro, trincadeira preta, fernão pires, sirah, síria – há agora um Quinta do Cardo!!, paladares olímpicos.
Mas o orgulho excitado do pequeno foi-se com os iogurtes e depois da ponte Vasco da Gama e da inolvidável feijoada para 13.000 nada nos detém. A maior árvore de natal da Europa, o maior pão-de-ló do mundo civilizado, a maior mariscada, e mesmo na cerveja, essa especialidade alemã e belga, já os rapazes e raparigas de Coimbra disputam a primazia aos bávaros de Munique na extraordinária cerimónia de iniciação que são queimas e fitas.
Pois isto vem a propósito do Grande. Somos agora pelo Grande seja qual for a circunstância: somos sempre maiores do que o tamanho que temos e temos uma enorme incapacidade de, vendo-nos no espelho do real, termos a noção do nosso tamanho exacto, político, intelectual, cultural e tamanho tamanho. “Os homens não se medem aos palmos”. Pois claro que não. Nem as mulheres, se nesses “homens” não estiver o h grande de Humanidade. Mas medem-se as suas realizações e desconformidades, assim como as manias. E a mania do Grande chegou para ficar. Foram todos esses estádios de futebol que se construíram e que não foram projecto cultural e educativo, mas mais futebol a juntar a mais Fátima e mesmo a mais Fado, agora felizmente “World Music” e Nova-Iorquino.
E que dizer dos equipamentos culturais GIGANTESCOS que, de um momento para o outro, em plena regressão cultural – a da política cultural, não a do mercado do entretenimento, nem a das indústrias criativas, conceito puramente económico – pululam por pequenas cidades do país, Bragança, Vila Real, Braga, Faro, Torres Novas, Guarda, e agora Caldas da Rainha, etc.,?
E pensar que, poucos deles, a Guarda por exemplo, foram um programa para uma arquitectura, um projecto resultado de um desígnio!?
Na floresta do real, no país real, abundam agora novidades frescas que esta nova rede de frio vai permitir descongelar e apresentar, a cada vez, como absolutos novos. Como se bastasse comprar e exibir. As excepções a este óbvio são tão raras quanto o estímulo à verdadeira criação e à inscrição do novo numa tradição clássica – a que não é descartável porque vulgar. Quanto melhor pior! Será?

Fernando Mora Ramos

2 comentários:

Anónimo disse...

Um texto tão bom e sem comentários!
FAR: és o rei do 2+2=5, já vais em 10.

Anónimo disse...

Eu não sou nem quero ser Rei de Nada. Os ratos é que são um flangelo que se não se combatem, lançam a PESTE e a COLERA por todo o lado. Cada frase sua lança ignomínima, desgraçado de auxiliar do Mal. Assume-te, rato de Esgoto hediondo! FAR