segunda-feira, 2 de junho de 2008

Brandos Costumes


Não consiste novidade a crise do livro, da leitura, ofuscando o prestígio do saber, ou da erudição, e da chamada cultura clássica no nosso país. Os jornais não se vendem, a televisão superou há muito o gosto pelo cinema e os grupos de teatro vivem no essencial de subsídios do Estado. Mas esta situação deprimente conduziu, todavia, no que se refere ao mercado editorial, à procura de soluções que possam minimizar as consequências económicas das casas comerciais mais atingidas por este momento crítico que teima em prolongar-se. Referimo-nos à profusão de espontâneas “feiras do livro” que surgiram nas estações do metro e nas proximidades dos apeadeiros das linhas ferroviárias.
Foi numa dessas improvisadas instalações que adquiri um pequeno livro de Eça de Queirós que não tivera ainda oportunidade para desfrutar. Trata-se de Alves & C.ª , edição póstuma do seu filho José Maria, que agora surge através das quase desconhecidas Edições Atena. Acontecera-me já com O Mandarim, obra que eu me habituara a considerar coisa menor, ou desinteressante, tendo em conta a excelência da produção do autor. Mas o nosso discreto cônsul não escreveu textos sofríveis ou entediantes, e a referida novela transforma-se em leitura aliciante, consequência da fantasiosa digressão por terras do Oriente empreendida por um modesto funcionário público que inesperadamente enriquece.
Mais consentâneo com o estilo de apurado realismo e com a singular observação sociológica do autor, cremos ser a história de Godofredo da Conceição Alves, sócio maioritário de uma lucrativa casa de comissões que se ocupava de artigos a exportar para as colónias, com escritório na Baixa, moradia na Rua de S. Bento, respeitado cidadão casado com a interessante Ludovina, a sua «Lulu». É um texto divertido interpelando a sociedade lisboeta dos finais de Novecentos. Em dia de aniversário do seu matrimónio, um sufocante dia do mês de Julho, Godofredo, porque pensou ser esta uma data feliz, regressara a casa mais cedo. E descobre a mulher, no sofá da sala de visitas, nos braços do seu mais directo colaborador na empresa.
Seguem-se várias cenas rocambolescas, a um ritmo avassalador, adaptadas à realidade portuguesa, como a elegante escrita de Eça de Queirós sempre foi capaz de nos transmitir ao longo de uma obra que se repartiu pelo romance, o conto e a intervenção cívica nas páginas dos jornais. E não perdemos, no entanto, o prazer da inigualável prosa do grande romancista: «Dava o meio-dia; o sol de Julho abrasava nas ruas; e as lojas fechadas, a gente nos seus fatos domingueiros, as carruagens de praça abrigadas no lado da sombra, aumentavam a sensação de calma e de inércia. Uma poeira subtil embaciava o azul luminoso e um som de sinos arrastava pesadamente no ar mole.» E Godofredo, após expulsar a mulher da sua residência e devolvê-la a casa de seu pai, iria procurar os seus maiores amigos, o Carvalho e o Teles Medeiros, que se encarregariam das condições, marcação do local e data, para um duelo, única forma de salvar a «honra» perante a sociedade.
Mas a argumentação dos amigos do «adversário», as discussões, a reflexão mais serena acerca de um caso que afinal não seria assim tão grave, fizeram alterar a contenda, que inicialmente seria à pistola, depois à espada, finalmente não seria nada.
« – Nestas coisas é necessário, sobretudo, dignidade». Todos sabiam histórias de indivíduos que saltavam pela janela, quando surpreendidos, e o Medeiros conhecera um caso de um amigo dele que ficara escondido num curral de porcos durante seis horas. Concluíram que o duelo seria a prova de que houvera realmente adultério e ainda lesava a sociedade comercial.
Além do mais o sossegado comerciante não conseguiu suportar aquela viuvez forçada, numa casa onde as criadas o não respeitavam e até as noites com fogo preso no Passeio Público se tornaram dolorosas. Chegou mesmo a procurar a mulher. «Ela parara, espantada. Estavam junto de uma loja de mercearia, na luz do gás, e ficaram defronte um do outro, sem achar palavra, enleados com todo o sangue na face.» Algum tempo depois começou a reconciliação, como um segundo namoro, ou nova lua-de-mel, que incluiu hotel em Sintra, e em Lisboa, camarote em S. Carlos. E os dois sócios, por entre bailes e jantaradas, iriam também restabelecer a amizade enquanto a firma progredia. Brandos costumes.


Mário Machado Fraião

6 comentários:

Anónimo disse...

Regressão, anacrónico passeísmo, ausência de enquadramento histórico e literário do romance...Que mais dizer?
Para quê fugir para o séc.XIX? E ainda por cima desta forma... Homessa,grande Eça, perdoai-lhes Sr. FAR

Anónimo disse...

Eu sou uma besta!FAR

Anónimo disse...

FAR, és mesmo tu, a besta sinalizada às 2:04?
ass: um amigo do Eça

Anónimo disse...

Eu sou uma besta em vos ter feito Confiança! Isso sim! Corja de mentecaptos ratos de esgoto procurem o trauma da vossa Miséria e Infelicidade! FAR

Anónimo disse...

Com tantos ratos neste blog,vejam bem as caganitas que agluém terá de limpar.
ass:um inimigo do Armando

Anónimo disse...

Esse serviço só poderá ser feito pelo Sr. Administrador.