segunda-feira, 19 de maio de 2008

Exercícios

Exercício da plataforma visível

Ter chão, pensa-se, é a coisa mais certa e óbvia para um animal terrestre e até mesmo as aves que se exilam tempos diria infindos pelo tecto gasoso do mundo, o têm por vezes.
Mas não é assim fácil de todo, achá-lo no sítio debaixo das nossas solas onde ele se torna perpendicular à nossa consciência física ou notá-lo pegado a um lado mais extenso do nosso corpo como uma insoltável paisagem, vista da janela de um trem, porque pelo pensamento também dos demais e pelos desejos e angústias somos muitas vezes desvisitados de nós mesmos.

Olha-se para baixo.
Existem tábuas de madeira ou mosaicos ou terra ou assim.
Nesse fundo à vista, está a ponta de nós ou um meridiano que ainda somos nós.
Abarcamos pouco. Ocupamos um irrisório espaço em relação às coisas e cidades, mas precisamos de espaço em volta do que somos, mesmo que permanecendo imóveis como as sombras de objectos pendulares que não são visitados, pelos esgares da luminosidade.
É estranho. Só os mortos parecem não necessitar de horizonte.

Olha-se ainda para a parte que em nós não se desalinha com o piso.
Um dedo poderia percorrer essa linha de contacto como uma carícia inusitada que aproxima estranhos, de modo invulgar, com uma enormidade de súbitos pretextos irracionais.
Não há dúvidas desse apego ao quintal dos pés.

Mas na angústia da nossa efemeridade, tal como desaparecem as coisas quando aceleradas em demasia perante a estática visão que delas temos, a realidade estável torna-se volátil como uma mobilidade ainda mais real e aquilo que é para nós certo, deixa-o de ser.
Incluído o nosso único e insubstituível chão.

Olha-se de novo para onde assentamos algo de nós em algo.
Ama-se essa impossível permanência.
É tudo.
(A pensar nas vítimas de xenofobia que assolam o mundo, neste instante, Joanesburgo)

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