segunda-feira, 26 de abril de 2010

Da Capital do Império

Uma história da China

A acreditar no que se apregoa por toda a parte a China irá nas próximas décadas assumir o controlo do mundo. Só que isso não vai acontecer. É um mito, tal como na década de 1960 e 1970 havia o mito de que era o Japão que ia ultrapassar os EUA e tornar-se na grande potência mundial.
Em primeiro lugar há que dizer que o “milagre económico” da China não deve ser negado. É uma das verdadeiras provas dos benefícios da globalização e do realismo económico. Mas o sucesso da China está agora rodeado de mitos.
Exemplos:
1) Investimento estrangeiro. É verdade que a China se tornou num dos grandes pólos de atracção de Investimento Directo Estrangeiro. Mas em comparação com os Estados Unidos é uma ninharia. Em 2008 o Investimento Directo Estrangeiro nos Estados Unidos foi de 325.300 milhões de dólares. Uma subida de 37% em relação a 2007. Na China foi de 27.514 milhões uma queda de pouco mais de 27% em relação ao ano anterior. Mais preocupante para as autoridades chinesas é que o investimento directo estrangeiro está em queda desde 2005.
2) A economia da China está prestes a ultrapassar a dos Estados Unidos. Longe disso. Este ano é possível (não uma certeza) que a economia da China ultrapasse a do Japão. O que a acontecer a tornará na segunda maior economia do mundoou seja ... um pouco acima de um terço da economia americana.
Para além disso a economia americana também cresce. Quando a economia americana cresce 3% ao ano, a China só para não perder terreno tem que crescer 8%. Sendo a economia chinesa baseada nas exportações um estudo do Banco Mundial afirma que para manter o seu actual nivel de crescimento acima dos 8 por cento a China terá que duplicar a sua fatia das exportações mundiais nos próximos 10 anos. Isso não vai acontecer. “A dependência da China num crescimento baseado nas exportações é insustentável,” disse recentemente o Presidente do Banco Mundial Robert Zoelick.
Habituados que estamos em vêr as “lojas do china” em todo mundo a venderem relógios, sapatos, televisões esquecemo-nos que na verdade é só isso que a China produz e exporta: produtos de consumo de baixo valor ou produtos electrónicos para consumo em massa.. Em termos de valor dos produtos exportados (como por exemplo aviões, produtos de alta tecnologia) os Estados Unidos produzem 20 por cento da manufacturação global desses produtos ou seja o dobro da China
Os problemas da China avolumam-se porque os países desenvolvidos (Europa, Estados Unidos) estão agora cientes de que parte do problema financeiro que ia destruindo as suas economias se deve à grande acumulação de reservas na China que facilitou a manutenção de crédito barato criando “bolhas” que irónicamente se estendem agora à própria China. As pressões para a China valorizar a sua moeda só tendem a aumentar
Para além de isso comparar números do PIB é totalmente irrealista. A população da China é 1.300 milhões; a dos Estados Unidos é de pouco acima dos 300 milhões. O PIB per capita da China é actualmente 1/7 do PIB per capita dos Estados Unidos. O seu rendimento per capita é neste momento acim da Ucrânia mas abaixo da ... Namíbia
Para além disso cerca de um terço de todo a investigação e desenvolvimento (research and development) do mundo ocorre nos Estados Unidos (veja-se a “limpeza” anual nos Nobel) onde em parte devido a isso a produtividade do trabalhador americano é quase 10 vezes mais do que a produtividade do trabalhador chinês. Esta diferença não vai desaparecer na proxima geração.
A economia chinesa está também cheia de “buracos” que existem e se multiplicam no actual sistema repressivo de controlo de informação. Um exemplo: um estudo a circular entre especialiststas na economia chinesa estima que dívidas não listadas de companhias de investimento chinesas podem ascender a 34% do PIB da China, um número que talvez seja um indicativo do porquê da queda sistemática nos ultimos anos dos investimentos estrangeiros na China.
Um dos grandes problemas a que a China faz face é a questão demográfica. Um recente estudo do Pentágono referiu se a isso como o problema “4-2-1”. Não se trata de uma táctica de futebol. Quatros avós têm dois filhos e um neto, resultado da política da “uma criança por familia” o que significa que se está a assistir a um fenómeno único no mundo: A China está envelhecer antes de enriquecer. O número de trabalhadores entre os 15 e os 24 anos de idade deverá cair um terço nos próximos 12 anos. Com trabalhadores jovens mais raros os salarios vão ter que subir e isso começa já a sentir-se. O mês passado na provincia de Guangdong (o principal centro de exportações da China) o salário minimo foi aumentado 20%.
Sei que nada no mundo segue uma via linear. Tudo pode correr bem na China e mal no ocidente. Para além disso um aspecto da realidade chinesa que me continua a impressionar é o realismo da liderança chinesa. Por isso muitos destes problemas ( e outros como os problemas étnicos no seu vasto país que resultam violência esporádica ou os propblemas politicos) poderão ser resolvidos com sucesso.
Ao fim e ao cabo foi uma declaração do primeiro-ministro Wen Jiabao quem me levou a investigar os factos para esta crónica.
“O grande problema da economica chinesa é que o seu crescimento é instável, desiquilibrado, descordenado e insustentável”. Foi Wen quem disse isso. Em 2007 e tinha toda a razão. Seria bom que deixassemos de ter uma exuberância irracional quando falamos da China. Wen não a tem.

Da capital do Império,

Jota Esse Erre

5 comentários:

Táxi Pluvioso disse...

"Parte do problema financeiro que ia destruindo as suas economias se deve à grande acumulação de reservas na China" boa piada, a análise de Bush, de que Wall Street estava bêbedo, parece, a esta luz, mais real.

Anónimo disse...

Eh economia basica. Vamos a ver se compreende. A china com as suas grandes reservas compra titulos de tesouro nos Estados Unidos, e paises desenvolvidos da Europa ( nao portugal). A compra desses titulos equivale a credito para esses paises. A existencia desse abundante "credito" chines permite as instituçoes financeiras e aos governos manterem taxas de juro baixo para fomentarem o credito e o consumo. Se nao houvesse isso as taxas de juro teriam que se maiores para atrair credito. Esse consumo beneficia a china claro está. Mas incentiva tambem os tais sub prime loans e outros riscos tomados pela wall street, a city, paris etc. "easy come easy goes" como dizem os tais tda Wall street. "credito facil risco facil", seria a melhor traducao. credito facil para as instituicoes que actuam depois com irresponsabilidade; creidto facil para o consumidor que actual depois tambem irresposanvelmente assmundo dividas que nao pode pagar. Dai que estejam a aumentar as pressoes para a china dar um valor real ah sua moeda. isso cortará a sua acumulação de reservas. isso reduzira a existencia de credito ah escala global ( o tal desquilibirio de que tanto se fala). Isto eh "PARTE do problema financeiro" como escrevi Compreende? Nao eh TODO o problema fiananceiro. Quem me explicou isto nao foi um tipo da Wall street. foi o Paul krugman,. Eh de esquerda. E ganhou ha dois anos o prmeio nobel da economia.
JSR

Táxi Pluvioso disse...

Ah! a economia onde estaríamos sem ela? - essas consequências do crédito chinês ou outro (saudita, por exemplo) é o que vai suceder no futuro. Por agora as coisas são de outra maneira.

O problema foi exclusivamente da indústria financeira americana, claro que esta indústria é o motor da economia americana, quando o problema de liquidez apareceu, a única solução (para impedir a descida da economia americana ao seu real valor), foi o plano quinquenal: dinheiro para o contribuinte, primeiro, e dinheiro para a Banca, depois.

A coisa espalhou-se? claro que sim, muitos produtos foram comprados por países com vontade de enriquecer quickly (como dizem em Wall Street) como a Islândia, Inglaterra etc. O caso português é curioso pois foi uma contaminação por idiotia, como a malta anda sempre à cata de ideias na estranja ouviu falar de risco sistémico etc e logo pegou na coisa e disparou o défice. Não sei como é que isto sucedeu, pois não vi nenhuma explicação excepto, a treta política: é a crise. Sem números para analisar isso é a mesma coisa que culpar o Papa.

Os Prémios Nobel são dados por europeus e não querem dizer nada, para além da sua carga política, e, este ano, por desinteresse da coisa, já ninguém ligava a uma turma de escandinavos feios e engravatados, foi sexed up com um Nobel da Paz a um assassino. Bom, fez-se justiça pois Bush é quem o deveria ter levado.

Das esquerdas e direitas, teremos que usar esses termos, que já nada significam, por falta de melhor, eu prefiro dividir em: aqueles que têm o xperia x10 e os que não têm, é um critério mais objectivo, nos tempos que correm.

Anónimo disse...

economia basica? aula do p. krugman? e depois? ele eh de esquerda? e o jsr eh de direita ou extrema esquerda?
da capital do futuro imperio

Anónimo disse...

anónimo, e o senhor é da PSP, da GNR ou do CIS?