terça-feira, 27 de abril de 2010

AnaCrónica 18

Fecho-ecler

O botão parecia ter morte anunciada quando o fecho-ecler surgiu. Este mecanismo tem todas as vantagens que o tempo e o jeito fazem coincidir com a moral da época, fresca como fruta sem armazém, e permite a adequação das rotinas a um ritmo de vida cada vez mais veloz a caminho de novas velocidades ainda mais velozes: fechar um sobretudo de botões com casas à maneira é de todo em todo diferente de zipar um blusão na iminência de um espirro, em que parte do mundo for, da Gronelândia ao cabo Espichel, o que para botão pode ser constipação – nos intervalos a brisa malvada espreita o peito e ataca as costas onde o olho não chega. E para maior adesão à vitória todo o terreno do fecho-ecler, já o vemos há muito tempo também lançando os colchetes no desuso, mercado nostálgico dos amantes das patines sépia das imagens em papel e das velharias mercadificáveis – só mesmo um velho, humano mesmo, não tem mercado.
Claro que os botões se mantêm nas linhas da frente mais sofisticadas, as linhas eróticas e sem necessidade de indicativos. Tirados um a um fazem mais calor que arrefecem, são jeito de uma ginástica dos dedos e mãos a caminho da terra prometida: outra haverá? Com um fecho-ecler, a poesia da coisa vai-se no ruído inevitável e na rapidez que amolece. Tudo o que é precoce – e o tempo que anda mais rápido que o corpo faz abortar sensações e emoções - trai a possibilidade de vir a ser o que é, pois às coisas é devida a sua maturação, assim sabemos do trigo mas também do joio, essa gramínea mal tratada de que também se fez cerveja, e que, como o chicharro, se destinava às mandíbulas inferiores no tempo em que o salmonete e o linguado hierarquizavam as famílias em patamares de gosto e simbólicas estatuídas de distância social. De lá para cá a revolução do palato estruturou outras distâncias. As de hoje são fabricadas em tempo recorde e nada têm com sangue mas com roleta especulativa e obviamente saque e pilhagem, o que faz o seu sangue, vermelho industrial. Se muito se vêem, esses abismos, é para menos se verem e para provocar a vertigem invertida do salivar de boca da massa na sua psicologia ascensional de contágio constante, o vírus ansioso do cimo do cume a roer a corda da existência.
Mas eis que o anacrónico regressa com o ciclo dos regressos em prospectiva semeada a marketing – na música é constante essa plasticidade do retorno -, como a energia eólica ou solar. Nada mais primitivo do que o moinho de vento e o bife na pedra à moda do equador, ou o peixe seco em estendais de fedor, arenque e carapau, carne seca também. Mais simples ainda são os diversos canibalismos, tão sofisticados hoje, movidos a energia maxilar instintiva. A propósito: estou a ver a imagem do bispo Sardinha a ser grelhado pelos Tupinambás, com mitra, sotaina, os sapatos (Prada?) e tudo. Seria pedófilo? Não, era mesmo bispo. O João Ubaldo é que diz que em Itaparica a carninha branca dos holandeses, sabor a leitãozinho, era preferida à dos portugueses, com muito nervo. Nem para comer.
Quanto ao fecho-ecler foi um grande progresso e os nossos dirigentes progressistas sempre o disseram: o progresso e a modernidade hão-de levar-nos da leviandade, em direcção ao futuro, por muito que roer seja duro – é preciso é bons dentes.
Seguir-se-à ao ecler o fecho digital? Mas esse sempre houve. Estamos mesmo zipados de todo.

FMR

2 comentários:

Anónimo disse...

zip zip

Anónimo disse...

Diz que deu...
diz que dá...
diz que deus dará...
e se deus não der...
ó negra...
quem é que vai dar?