segunda-feira, 19 de abril de 2010

anaCrónicas 15

O torcicolo atemorizado

Entrei na FNAC da Rua Catarina com o saco da Livraria Latina pleno de literatura fora de época, nem sensacional, nem no top ten, velharias como o Artaud traduzido pelo Urbano e algum material da Contratempo com cheiro a libertinagem, coisa para surtos de êxito em bancadas de feira velha, no seu tempo e se a chuva, que veio para ficar com ou como a Crise (debate a ter), tiver remorsos de tanta chamada para os bombeiros, quase a desistir do voluntariado com as bomba de água a estoirar de marés de excesso aquoso – depois de tanto investimento na floresta, nos helicópteros, nas torres de vigia entre a Lousã e o Açor, o que é necessário agora são mangueiras de fogo para extinguir a água. Que dirão os partidos? E o engenheiro, que proporá?
Com o saco muito discretamente colado à PERNA ESQUERDA, A DA PRÓTESE, verifiquei que os consumidores que ali cirandavam punham olhares de um soslaio apreensivo, como se fosse um suicida islâmico pendurado na minha meia dose de penca judaica – uma ambiguidade que se paga cara. E a câmara de vídeo, as câmaras, deslocavam, à miopia desarmada, intimidando, os seus narizes na direcção do inesperado previsível, focando-o como miras - foram ensinadas ao ponto de farejarem como o cão doutorado em hachiche.
Um saco não é uma T Shirt, nas T Shirt’s a divergência pode vir estampada e fica bem, faz parte da diferença para a troca e saúda-se como um toque de pertença ao mesmo universo subido das T Shirts. Senti-me arcaico, falante de marca com sotaque local. As câmaras vídeo iam gravando a ocorrência numa espécie de directo sem truques. O vírus, a propagar-se, ficou lacrado para a eternidade do capitalismo, num conjunto de planos 3 D contra picados – elas espreitam sempre de cima a estimular o torcicolo.
O saco pôde entrar, mas eu não, preso no terror da heresia e entrando sim, para um interior panicado e pré enfarte, enquanto tropeçava nos próprios sapatos, a esquerda e a direita por um momento presas da fatalidade disléxica, tão criativa noutras circunstâncias. Na barreira de olhares vi por um momento o poder da massa, maior que o poder da massa. Reconheci-o.
De facto, pensei, se todos os que entrarem na FNAC o fizerem com sacos da Latina, os da FNAC correrão o perigo de promover a Latina no território da FNAC – a na FNAC fnaca-se absolutamente e tudo o que tocamos e olhamos fnaca. Fnaca-se e fnaca-se em todos os sorrisos mansos – uma palavra promovida a espectáculo por uns momentos na cozinha do rectangulozinho – num sistema de olhares entrecruzados que distribui a serenidade reflexiva dos fnaqueiros (versão nacional dos fnaquéens para rimar com toureiros, toureiros de lide mansa) em clima de aquisição sem esforço, o penetrar do cartão visando a fenda e não ofuscando com o seu ruído amusical, como outrora o vil metal, o sentimento de unanimidade reflexiva e pacífica que faz as religiões superiores. Este ar concentrado e moderadamente satisfeito – tudo o que é muito dá cabo da saúde - sobe dos livros como um perfume de saberes subtil, decisivo para as posturas, geometrias do corpo entre as estantes e olhares lambe lombadas numa prévia aferição aperitiva de conteúdos.
Quem sabe se a Latina, numa manobra de guerra civil localizada, de posições, como manda a guerrilha clássica aos pobres – onde isso já vai -, não industriou os seus seguidores a entrar de modo numeroso (o contingente dos pobres aumenta de modo exponencial e nada equilibrado ao seu desaparecimento) para dentro das fronteiras da FNAC numa manobra terrorista, essa política da pobreza fanatizada, segundo se diz?
Ao que parece, depois do caso aqui relatado autobiograficamente em tempo real (vulgo documentário, docudrama para falar como o Camilo de Sousa, meu amigo, categoria desviada da objectividade sacrossanta), os Fnaccontrolers propuseram a nacionalização de todos os potenciais suicidas, a fazer com dinheiros do QREN, e fundamentando a coisa nos atentados ao ocidente e ao mercado, a sua alma. Na sequência do caso das burkas este caso promete, dizia a gazeta local em artigo de canto de página, mas de manchete gigante e luminosa.

FMR

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