sábado, 18 de agosto de 2007

O meu amigo MJ

Eu sou prudente
Eu sou muito prudente e nada distraído.
Por isso, quando estou no balneário, por precaução, uso um aloquete para guardar as minhas coisas. Mas tenho duas chaves! Uma das chaves deixo-a no carro para o caso de perder a outra. Comecei por meter tudo dentro do cacifo e levar a chave do aloquete. Ao fim de alguns dias notei a terrível imprudência. Sem a chave do carro como é que eu chegava à segunda chave do cacifo? Resolvi passar a levar comigo também a chave do carro.
Ponho a toalha e as chaves no meu saco, ponho o saco ao ombro, e lá vou, pronto para mais uma jornada salutarmente desportiva que além de desenvolver o meu físico (como se ele precisasse!) ajuda a que os neurónios se reproduzam (já que os meus nunca morrem).
Um destes dias, certamente devido a uma anormal actividade cerebral, peguei no saco e enfiei-o também no cacifo! Com este fechado, ali fiquei, eu e os meus ossos. Do outro lado da porta do cacifo todas as chaves que me permitiriam regressar a casa, sem ser a pé, com aqueles chinelos ridículos, o calçãozinho ridículo, a touca ridícula, os óculos ridículos e a minha cara de idiota!
Não digo como me safei desta porque sou uma pessoa que não se concentra nas coisas más que já passaram. Também não quero humilhar ninguém com a exibição da minha capacidade de improvisação.
A verdade é que, de cabeça bem erguida e arejada pelo exercício físico, acabei por sair com tudo o que tinha levado e fazer-me à estrada.
Como sou uma pessoa prudente, tenho o cuidado de ver, com frequência, qual o nível do combustível e, com tempo, satisfazer o apetite voraz do depósito. Tinha tão pouco que mal deu para chegar a uma estação de serviço.
Com a energia que me caracteriza saquei da mangueira e toca a meter o precioso líquido, sem o qual o meu carro insiste em não me transportar. Quando já tinha metido cerca de cinco litros reparei que estava a meter gasolina quando devia meter gasóleo... Eu tenho lá culpa das minhas preocupações intelectuais serem incompatíveis com o dar de comer a um estúpido motor?
Depois, pensei: se eu como de quase tudo quem o raio de carro pensa que é para só querer ter uma dieta de gásóleo? E prossegui. Sou ou não sou esperto?
Mas não é que o gajo é embirrento? O que vale é que, sendo eu uma pessoa prudente, tenho um contrato com um reboque.
Depressa chegámos à oficina onde um funcionário com ar divertido (de quem já tinha visto outros como eu) se virou para mim "Meteu gasolina, foi? Então deve ser do motor...". Quando ele disse o "deve ser do motor", eu não perguntei mais nada... Fiquei com um ar absorto do qual só despertei com o costumeiro "...e não se esqueça de deixar a chave!". Pensava que eu era um totó... Fiz o que faço sempre que lá vou: separei a chave do carro da chave da casa. Mas, desta vez, deixei lá esta última.
Só reparei quando saí do táxi e tive que enfrentar a fechadura da porta da casa.

MJ

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