Ânfora fui;
O seu cadáver sou.
Emparedada aqui neste museu,
Pasto do pó e dos olhares
Que não perscrutam minha mágoa,
Eu sou quem fui,
Menos o fim que alguém me deu,
De conter vinho e mel e água ...
Enfim, eu não sou nada,
Que há muito já se não propaga a mim
O calor de uma anca,
E o meu fresco conteúdo
Não encontra uma boca
E uma sede não estanca.
Do oleiro que me fez
-- A poeira, talvez,
Dispersa e reunida,
A contenha outra vida
Ou outra ânfora ... –
Nem memória persiste do seu nome.
Reinaldo Ferreira
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