segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Ânfora fui

Ânfora fui;
O seu cadáver sou.

Emparedada aqui neste museu,
Pasto do pó e dos olhares
Que não perscrutam minha mágoa,
Eu sou quem fui,
Menos o fim que alguém me deu,
De conter vinho e mel e água ...

Enfim, eu não sou nada,
Que há muito já se não propaga a mim
O calor de uma anca,
E o meu fresco conteúdo
Não encontra uma boca
E uma sede não estanca.

Do oleiro que me fez
-- A poeira, talvez,
Dispersa e reunida,
A contenha outra vida
Ou outra ânfora ... –
Nem memória persiste do seu nome.

Reinaldo Ferreira

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