quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Marginais IV

É quando fechamos os olhos que vemos tudo claramente.
Para além de todas as mentiras contadas, incontáveis vezes. Mantras falaciosos cristalizados em dogmas inquestionáveis.
A crença enquanto demonstração de si mesma, que adormece os sentidos e entorpece o espírito, levando-nos a duvidar da própria realidade.
Lá fora, as cores do arco-íris vão do cinzento ao preto, destacando-se de encontro ao céu rubro, e os únicos pássaros que ainda se fazem ouvir são os abutres.
O rio corre como outrora, apesar de morto, um apocalipse fluvial a servir de lúgubre arauto do porvir.
Aqui e ali, deixamos partes de nós, tributo à divindade mecânica que preside sinistramente ao governo oculto da cidade. Inteligência subterrânea, cuja capacidade para nos iludir tem vindo a tornar-se superior à nossa capacidade de distinguir o verdadeiro do falso.
É quando fechamos os olhos que vemos tudo claramente. Somos espectadores de uma tragédia repetida tornada farsa.

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