Antes de me
juntar à concentração de hoje reflecti sobre a incongruência em o fazer. Para
aquele que é, e se tem esforçado por ser, anti-sistema (nas questões essenciais
do reconhecimento da sua estrutura e dos lugares da dita “autoridade”), participar
numa manifestação que sabíamos à partida ir acabar com uma série de discursos
previsíveis e abstractos, podia resumir-se em dar um tiro no pé. Não o foi!
Concordo com o
que o André Carapinha diz no texto de apelo à manif e foi uma reflexão parecida
que me fez ir. A manif não é perfeita. O radicalismo não pode estar à espera de
identificação. Mas há um primeiro momento singular desta manif que queria fazer
notar. E, muito infelizmente, nada abona a favor da dita organização da dita assembleia
popular marcada para o fim da tarde: no momento da tomada da escadaria, um
jovem que se diz da organização grita em plenos pulmões e num tom
desvairadamente imperativo para que o povo se sente, esquecendo-se ele tanto da
posição que não ocupa como da plateia que não tem. O ridículo desta situação não
faz com que deixe de me dirigir a uma próxima reunião, mas faz com que de facto
me espante com a leveza com que se anda a falar de liberdade. E depois de horas
naquela escadaria me questiono o que é que é preciso para que as pessoas ajam
de acordo com aquilo que dizem. Centenas de pessoas reunidas a falar de
propriedade, centenas a gritar que “esta casa também é nossa” (entenda-se a
assembleia) e permanecemos agitados por um vento paralisante.
Foda-se que isto
derruba qualquer sentido de liberdade! É no não reconhecimento da autoridade e
na negação do medo que começa o caminho para a singularidade.
Laura Nadar
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