domingo, 19 de outubro de 2008

Água (2)


Ilustração para Água na poesia. Edição da Câmara Municipal de Sintra



Depois dá umas voltas e volta à avenida Rothschild


Quando ele saiu a chuva tinha cessado. A avenida era uma moça despida

e espancada por um bando de malfeitores que a abandonaram ali,

de costas, rasgada e encharcada. Agora ouve o murmúrio das árvores

prometendo-lhe uma espécie de Segundo silêncio, o silêncio que vem

depois da vergonha e da degradação, um silêncio ténue,

uma espécie de nascimento: não erguerei mais os olhos para os montes

vou deixar-me ficar deitada num charco

de águas estagnadas e turvas. Eis o vento. Eis o rumor

das asas dos pássaros, a alinhavarem o ar húmido, descosendo,

para tornar a coser e voltar a descoser. Está tudo cinzento

e suave. Cada coisa no seu lugar. Em paz. Exalando um cheiro

bom a chuva e a terra. Tudo passou.



Amoz Oz, O mesmo mar, edições ASA

Ivone Ralha

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