domingo, 26 de outubro de 2008

A Crise: desaparecem evidências

Num primeiro momento, até parecia que a crise era um (enorme) problema financeiro e que a sua solução teria que ser financeira: injecções de biliões e biliões de dólares e de euros no sistema bancário; nacionalizações de alguns bancos e seguradoras; coordenação entre os maiores bancos centrais para descerem taxas de juro; garantias bilionárias estatais em vários países (incluindo Portugal) para evitar que os bancos acabassem por parar o crédito…
Também logo com o desencadear da crise se começou a proclamar que a origem do imbróglio estava nas falhas dos “reguladores” (bancos centrais e nacionais, organismos de supervisão). E é verdade: basta reparar no exemplo da Islândia, cujos maiores bancos – que tiveram que ser nacionalizados – estimularam o consumismo e “investiram” tanto (até num clube de futebol inglês!) que provocaram uma dívida superior a 10 vezes o PIB do país, e durante toda essa euforia, nem o banco central nem o governo islandeses foram capazes de “regular” o processo (?...).
Mas isto (falhas de regulação) não é toda a verdade! É que, desde o fim dos anos 80, estados, governos, instituições internacionais (por exemplo, o Fundo Monetário Internacional) fizeram parte do coro que cantou as maravilhas da liberalização “à outrance”, da eficácia do “jogo” do mercado, do quanto menos regras e sobretudo quanto “menos Estado” melhor.
Ora, uma conclusão começa hoje a sobressair com mais força: o mercado e especialmente a globalização financeira não podem continuar desregulados ou com regras tão flexíveis que permitam “produtos” e jogos de compra-vende que a crise veio pôr a nu. Cada vez mais gente desconfia da “auto-regulação”. Portanto: a “evidência” de que o mercado é que dita as regras perdeu a sua aura de verdade absoluta. Foi-se!...
Mas a crise também tende a desmentir o que o discurso dominante desejaria que fosse evidente: que o problema é de funcionamento do sistema financeiro e que as soluções encontrar-se-ão em melhores regras para o funcionamento do sistema. Só que a crise é mais funda: não é só técnico-política.
De facto, nesta crise, rapidamente saltou aos olhos das opiniões públicas a revoltante situação de privilégios de responsáveis de instituições financeiras e seguradoras, algumas das quais ruíram ou tiveram que ser salvas por governos. É verdade que se corre o risco de, com “bodes expiatórios”, se esquecer o que é mais importante. E o mais importante é centrarmo-nos em questões sobre para quê e para quem servem esse tipo de instituições. Mas com certeza não deviam ter servido para que muitos gestores de topo, e “executivos” seus próximos, vivessem numa estratosfera de rendimentos: ordenados, bónus por objectivos de lucro de curto prazo, e (quando a coisa desse para o torto) indemnizações de “descanso eterno” (mas em vida, não post mortem!).
As sucessivas revelações de situações salariais escandalosas já tiveram consequências inesperadas: governos, como por exemplo o da Alemanha, a estabelecerem limites às remunerações de gestores de topo. O que também parece uma “evidência” a desaparecer: então o Estado mete-se nisso?...
É tremendamente oportuno que a O.I.T. acabe de publicar o seu World of Work Report 2008 com o sugestivo título Desigualdades de Rendimentos na Era da Globalização Financeira e onde dados apresentados (resultantes de uma análise de 2007 às 15 maiores empresas de 6 países) mostram que “gestores presidentes (CEO) ganham em média entre 71 (Holanda) e 183 (EUA) vezes mais que o salário do trabalhador médio”(pg. 16).
Ao mesmo tempo, a insuspeita OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico) publica um relatório Crescimento Desigual? : Distribuição do Rendimento e Pobreza nos Países da OCDE, segundo o qual o crescimento económico não tem evitado o aumento da desigualdade entre os mais ricos e os mais pobres. E - o que infelizmente não é novidade - Portugal, entre os 30 países da OCDE, é dos mais desiguais, juntamente com os EUA e só tendo atrás de si o México e a Turquia. Se acrescentarmos que, entre os quase 2 milhões de pobres no nosso país, 38% trabalham…
As disparidades e os leques salariais saltam assim com mais força para a discussão e reflexão dos cidadãos que começam (pelo menos…) a fazer perguntas sobre que critérios e processos de decisão permitem tais desigualdades de remuneração. Rapidamente se passa a perguntar para que servem as empresas. E pode ser que também cada vez mais gente comece a duvidar que seja óbvia ou suficiente a habitual resposta a dizer que as empresas servem, pois claro, “para produzir riqueza”. Mais uma evidência que começa a deixar de ter o estatuto de verdade incontestável.

Almada, 24/10/08

Cláudio Teixeira

8 comentários:

Táxi Pluvioso disse...

A opinião de um socialista.

Táxi Pluvioso disse...

Mérdix! Falhei o link

Táxi Pluvioso disse...

Um capitalismo com planos quinquenais vai salvar tudo isto. Os ricos, quero dizer. Não gostaria de viver num mundo, onde banqueiros, gestores, administradores, compartilhassem o autocarro comigo, na ida ou vinda do trabalho.

Anónimo disse...

Justamente, o que surge como sendo posto em xeque nesta Crise Estrutural do sistema capitalista mundial é o papel tradicional e funesto das instituições supra-nacionais. O Vasco Pulido Valente, que lê tudo, sinalizava há cerca de uma semana: pouca gente percebe e consegue entender os contornos desta crise. E citava indirectamente o programa GPS da CNN, onde passam ao fim de semana os maiores vultos da ciência económica mundial,entrevistados por F. Kharid: ninguém se aventura a " explicar "esta coisa medonha criada pela desregulação tecno-financeira de Wall Street...As vendas das obras de Karl Marx dispararam, entretanto, na Feira do Livro de Francfort...

Anónimo disse...

Errata: ße Fared Zakaria o apresentador e não Kahrid. Ressalva do texto.

Anónimo disse...

Muito boa esta análise da crise de Cláudio Teixeira

José Pinto de Sá disse...

"Para que querem pão? Comam bolos", já dizia (dizem...) a Maria Antonieta. Consideração fatal, como hoje sabemos. Como é possível ignorar que o erro não é sectorial? O que está mal é esta merda toda, mais abjecta a cada dia: a miséria (cada vez menos)remediada, a frustração, a plenitude e a graça eternamente adiadas. A não-vida. O maior nojo é que Portugal seja o país de mais desigualdade na UE, e aquele em que menos se ouve rosnar a revolta. Não admira que o Estado Novo durasse tanto. Basta ver a volúpia com que os anhos universitários se entregam às praxes... Revoltem-se, porra!

Anónimo disse...

Artigo muito esclarecedor. Obrigado